Paulo ajeitou a bola com calma, levantou a cabeça e lentamente caminhou para trás, de costas, sem tirar os olhos do oponente. Era considerado o melhor batedor de pênaltis da região, apesar de preferir jogar na defesa, e não no ataque. Seu chute era forte e preciso; diziam que jamais havia errado uma cobrança.
Do outro lado, no entanto, o goleiro era uma incógnita – Felipe, que morava em outro bairro e só passava nas proximidades do campo pela manhã quando resolveu parar para assistir a partida. Entrou no jogo quando o goleiro de um dos times caiu de mau jeito ao pegar uma bola e teve que sair; perguntado se jogava no gol, Felipe respondeu que sim e tomou o seu lugar.
E jogou bem: era então quase meio-dia e nenhum gol havia sido feito, mesmo com o time de Paulo atacando com força o tempo todo. Mas, poucos minutos antes, um zagueiro do time de Felipe derrubara um jogador adversário próximo do gol; todos concordaram que era um pênalti claro – estavam já famintos e pensando no almoço que se seguiria, de forma que decidiram que aquela cobrança decidiria a partida: depois dela, o jogo acabaria. O time de Paulo já comemorava a vitória enquanto ele lentamente se dirigia de um lado para outro do campo, antevendo aquela que seria a sua mais recente glória, enquanto, do outro lado, Felipe calmamente se preparava para a cobrança.
E ele permaneceu calmo enquanto Paulo ajeitava a bola. Estalou os dedos, posicionou-se no meio do gol e olhou friamente para o seu oponente, já parado e preparado para cobrar a penalidade. O olhar foi devolvido com a mesma frieza; encararam-se mutuamente por segundos que pareceram horas, enquanto todos os demais aguardavam ansiosos o resultado daquele embate de nervos.
O sino da igreja ao lado do campo tocou uma vez – era meio-dia em ponto. Uma leve brisa levantou um pouco de poeira entre os duelistas, que continuavam se encarando friamente.
Veio então a segunda badalada. O silêncio ensurdecedor permaneceu; os outros jogadores tremeram e suaram, os nervos à flor da pele.
A terceira badalada. Os dois ainda se encaravam friamente, sem desviar os olhos um do outro por um instante sequer.
A quarta badalada – e Paulo correu em direção à bola. Chutou forte e preciso, como de costume, em direção ao ângulo inferior esquerdo do gol. Um leve sorriso se esboçou no seu rosto ao perceber a perfeição do chute que acabara de desferir – mais alguns milésimos de segundo e toda aquela tensão acabaria.
O sorriso rapidamente se transformou em uma expressão espanto ao ver a mão de Felipe tocando a bola, empurrando-a em direção à trave, e dali para fora do gol. Ele havia defendido!
Paulo caiu de joelhos, sem acreditar no que via. Levou as mãos ao rosto, desconsolado – havia sido vencido, afinal. Jogou-se para trás, olhando o sol que brilhava forte no centro do céu. Os outros jogadores foram cumprimentar o goleiro – mas ele permaneceu lá, parado, derrotado, arrasado.
Felipe cumprimentou seus companheiros e adversários, mas permaneceu sério. Olhou uma última vez para o corpo do seu rival, estendido no chão como um cadáver, e sentiu uma pontada de pena ao pensar que poderia ser ele no seu lugar. Mas aquele era o código do duelo: apenas um pode ser vitorioso, e ao perdedor resta aceitar a derrota com a honra de ter dado o melhor de si. Então, reconfortado, virou as costas para o campo, e calmamente caminhou em direção ao horizonte distante de onde viera.

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