Sobre Heróis e Nações

cap7Refletindo um pouco sobre uma conversa que tive com um amigo tempos atrás, me peguei pensando em algo que ele comentou em um certo momento, de que “o grande problema do Brasil é que nós não temos super-heróis nacionais”. Claro, não vou nem comentar a superficialidade da afirmação, apesar de eu achar que entendi mais ou menos o que ele quis dizer; tem um pouco a ver com moral nacional, imaginário, mentalidades e esse tipo de questão acadêmica chata. Mas acho que o grande problema dos super-heróis brasileiros é um pouco mais complexo do que simplesmente “deveriam existir”.

Quer dizer, o super-herói é uma figura totalmente típica do imaginário norte-americano. Existe uma corrente de pensamento nos Estados Unidos, comum pelo menos desde o século XIX, talvez antes, que considera os EUA e o povo norte-americano como uma espécie de nação escolhida, que foi predestinada a ser a grande líder do mundo; é uma idéia de origem religiosa – é impossível não fazer um paralelo com a noção de povo escolhido da Bíblia judaica -, derivada da colonização puritana da região, mas que, principalmente com a crescente influência política do país desde as duas grandes guerras do século XX, encontra adeptos de peso mesmo entre políticos e pensadores não-religiosos. Não é exatamente à toa, portanto, que se vê os presidentes e chefes de estado norte-americano vez por outra metendo o bedelho em assuntos que aparentemente não lhes dizem respeito, impondo, às vezes militarmente, a sua soberania sobre outros países; é algo que vai um pouco além dos simples interesses econômicos, como alguns querem propagar, ainda que, certamente, não os ignore.

Os super-heróis possuem na sua caracterização um reflexo bastante forte dessa ideologia: são pessoas especiais, dotadas de poderes e capacidades maravilhosas, e que, por isso, se vêem com a missão de proteger e apoiar as pessoas comuns; nada mais do que a personificação desse ideal norte-americano. Afinal, não foram os homens comuns que pediram ao Super-Homem que os ajudassem – foi ele que, na sua benevolência kryptoniana, decidiu que eles precisavam de ajuda; da mesma forma, o Batman impõe a sua justiça aos criminosos que oprimem os cidadãos à noite, mas durante o dia é ele próprio que, sem outros vigilantes, os oprime como magnata capitalista das indústrias Wayne. Não é à toa que o grande boom dos super-heróis se deu justamente a partir da Segunda Guerra Mundial, quando os principais deles chegaram mesmo a serem chamados para ajudar os Estados Unidos nas campanhas contra o Japão e a Alemanha nazista, e quando a influência política norte-americana passou a ser predominante na maior parte do mundo ocidental.

É possível comparar essa caracterização com um outro modelo de herói bastante popular ultimamente, que são os artistas marciais japoneses. Eles também apresentam na sua caracterização elementos típicos do imaginário japonês, e da visão que eles têm de si próprios e da sua cultura: a predominância dos combates individuais, onde apenas um herói luta em condição de igualdade com um único inimigo, por exemplo, é derivado do culto à figura guerreiro que existe desde a época dos samurais; e a idéia do herói esforçado, que atinge um patamar superior não por predestinação mas por esforço e treinamento, e segue aprimorando suas capacidades até o infinito, também é típica da cultura japonesa. É bem possível, portanto, que, se o Super-Homem fosse japonês, ele fosse muito parecido com o Goku ou o Naruto.

O que nos leva de volta o Brasil: quem é o herói típico brasileiro? Certamente não é o Super-Homem, nem o Goku. Não funciona aqui a idéia do herói patriótico, que coloca o povo e a nação acima de si mesmo; tentativas de seguir esse modelo sempre se revelaram infrutíferas, anacrônicas e, muitas vezes, apenas ridículas mesmo, exceto quando feito intencionalmente como paródia. A nossa cultura é muito mais a do herói malandro, ou trickster, que procura se dar bem em qualquer situação; é o Macunaíma, o herói sem caráter, ou o Zé Carioca. Não é à toa que acaba sendo a caracterização padrão dos tipos heróicos nacionais – alguém mais se lembra do Dom Pedro I naquela mini-série de comédia / aventura da Rede Globo sobre a vinda da família real portuguesa ao Brasil colonial, anos atrás? Talvez se possa questionar que seja uma figura mais identificada com o contexto urbano, e, mais especificamente, carioca, e não deixa de ser verdade; mas, especialmente a partir dos anos 20 e 30 do século XX, quando há uma tentativa mais aprofudnada de criar um imaginário nacional unificado, ele passa a se tornar bastante evidente, passando a ser o tipo de herói com a qual o brasileiro tende a se identificar, e o arquétipo com que, em geral, espera ser representado, mesmo quando o vê de forma negativa (aquela velha história do “só podia ser brasileiro mesmo”).

Me pergunto em que elementos e aspectos da nossa história poderíamos buscar as origens desse personagem. Acho que posso arriscar um chute relacionando-o com um ideal recorrente durante boa parte da nossa história colonial e imperial e dos primeiros anos republicanos, e talvez mesmo antes, em alguns elementos da cultura das nações ibéricas que nos colonizaram – aquele de que o trabalho, sobretudo o trabalho pesado ou braçal, é indigno, e que a grande distinção de nobreza está em não precisar fazê-lo; não esqueçamos, afinal, que ele foi relegado a escravos durante boa parte da nossa história. Talvez possa se ver algum resquício desse pensamento nessa figura do nosso imaginário, que sempre busca meios escusos para se aproveitar dos outros e sobreviver sem ter que trabalhar, como se fugir do trabalho o enobrecesse. Num chute mais longo, podemos mesmo tentar relacionar o tema com todo o histórico de corrupção do país nos últimos séculos, e a forma como ela se torna moralmente possível para aqueles que a praticam.

Outro ponto que se pode levantar a partir do mesmo assunto, talvez, é a predileção nacional pelo herói marginal e fora-da-lei, onde também podemos enquadrar a figura do malandro, bem como a dos quilombolas, cangaceiros, e diversos outros tipos – seria o caso mesmo do gaúcho, se o gaúcho celebrado pelos movimentos tradicionalistas contemporâneos de fato tivesse qualquer coisa a ver com o gaúcho do século XIX e anterior. Podemos especular até onde a profusão desse tipo de personagem em um imaginário não reflete uma sociedade onde a desigualdade entre certos grupos, tanto econômica como social e política, chegou a ser quase institucionalizada, fazendo da lei e da ordem formas de opressão mais do que organização, e da sua negação um ato heróico – pode-se mesmo fazer aí um paralelo interessante com o caso dos negros norte-americanos, que também foram levados por uma opressão institucional histórica a valorizar figuras heróicas marginais, como a de líderes de gangues e cafetões.

Mas, enfim, talvez aí eu já esteja mesmo extrapolando aquilo da qual tenho alguma propriedade para falar. No fundo, nada disso é mais do que alguns devaneios e reflexões superficiais com pouco ou nenhum embasamento, frutos de uma meia hora na cama olhando pro teto. Não espero fazer aqui nenhum juízo de valor, dizendo que os nossos heróis são necessariamente piores que os outros; são apenas diferentes. Também não quero assumir nenhuma tendência conformista, dizendo que as coisas são assim e sempre serão – nada impede que a visão do brasileiro sobre si mesmo mude, e possa gerar formas diferentes de heróis arquetípicos nacionais. Toda sociedade tem seus heróis, mas, em geral, é muito mais um determinado contexto sócio-cultural que cria e se identifica melhor com alguns deles do que o contrário. E na verdade, até existem bons exemplos de que é possível surgir coisas diferentes – o próprio Capitão 7, que ilustra esse texto, teve, pelo que já pesquisei em outros momentos, uma série de rádio de relativo sucesso nos anos 50, acho, e pode muito bem demonstrar que é possível sim fugir de um suposto estereótipo heróico nacional. Enfim, há muito pano pra manga dentro do assunto, para quem tiver paciência de discutir, pesquisar e refletir a respeito.

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1 Response to “Sobre Heróis e Nações”



  1. 1 Sobre Heróis e Nações | Impulso HQ Trackback em 24/04/2009 às 17:34

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