Heróis da Classe Operária

oasis-nySemana que vem, então, vem o Oasis para o Brasil, e, mais importante, para Porto Alegre, e eu, claro, já estou com o meu ingresso garantido, yeah /o/ Sim, eu sou fã de Oasis, f*da-se quem não gostar. Já falei um pouco disso antes, entre devaneios sobre história pessoal e coletâneas; é uma banda que me acompanhou por boa parte da minha adolescência, entre afastamentos e aproximações, e é inegável que, pelo menos pra mim, tem muito de nostalgia na forma como eu os idolatro. Mas acho que ela sozinha não poderia explicar o quanto a banda ainda me toca, bem como a tantos fãs ao redor do mundo, a despeito do que podem pensar os críticos mais ferrenhos do grupo; há algo mais neles que vai além dela, algo que tem a ver, em certo sentido, com a própria natureza o e o papel da música na vida das pessoas.

O Oasis não é exatamente uma banda inovadora, não é por ser fã que eu vou tentar esconder. Não falo nem da cópia aos Beatles, o lugar-comum que todo mundo fala; essa influência está lá sim, na mesma medida que está em toda a música pop contemporânea (já que, bem, os Beatles fizeram tudo), mas, à parte por algumas referências diretas, não é tão óbvia assim quanto a maioria dos críticos quer fazer crer. Dá pra encontrar influências muito mais evidentes na música do Oasis que remetem ao The Who, por exemplo, ou aos Rolling Stones, ou ao T-Rex, ou ao Stone Roses, entre outros. Essencialmente, enfim, não dá pra dizer que eles reinventaram a roda da música, da mesma forma como dá pra dizer em algum sentido sobre certas bandas de grunge ou punk ou rock progressivo de épocas anteriores.

Também não dá pra dizer que o som que eles fazem, apesar de certamente não ser ruim, seja especialmente técnico ou bem cuidado. Dá pra notar um avanço significativo nesse sentido pelo menos desde o ótimo (e injustiçado) Standing on the Shoulder of Giants, claro, mas Oasis definitivamente não é o tipo de banda que você ouve para encontrar sons incomuns, melodias inesperadas, harmonias cuidadosas ou qualquer tipo de iluminação ou epifania auditiva. Não há hinos instrumentais de 10 minutos (apesar de, na contramão da maioria das bandas mais recentes, eles possuírem também algumas músicas instrumentais bem bacanas), nem experimentalismos sonoros intrigantes. O seu som é indiscutivelmente pop, até kitsch em certo sentido, e era ainda mais na sua época áurea, quando tinha uma energia e expressividade mais juvenis, quase punk em alguns momentos.

O que muita gente se esforça pra não admitir, no entanto, é que esse tipo de coisa nem sempre é tão importante assim na música. Ouvir música é, certamente, uma experiência, funcionando como um tipo de catalisador emocional; mas às vezes é fácil se deixar levar por essa idéia, e cair na ilusão de que a música não pode ser só música, que ela tem que ser necessariamente algo mais do que isso – uma experiência epifânica, iluminadora; ou então um experimento para desvendar novas técnicas e instrumentos, de forma que, mesmo tendendo à cacofonia e ao inaudível, ela torna-se válida apenas por ser ‘diferente’. Uma idéia de que a música, enfim, não pode ser apenas gostosa de ouvir; precisa ser uma construção intelectual, uma transgressão aos nossos ouvidos. Acho que dá pra traçar esse pensamento desde o bebop, corrente do jazz de meados dos anos 40, talvez mesmo de algumas correntes de música erudita anteriores, passando por todos aqueles movimentos jovens dos anos 60 e depois, quando realmente pareceu por algum tempo que a música sozinha podia mudar o mundo.

A música do Oasis entra um pouco como um choque de realidade contra essa idéia. É uma música com os pés no chão, para se ouvir, tocar e cantar, e não apenas fruir; música como a dos Refugee All-Stars, consciente da sua própria dimensão, de ser feita para pessoas comuns, para a classe operária. Não é exatamente por acaso, afinal, que mesmo nos seus anos de relativo ostracismo internacional o Oasis continuou como uma das mais populares bandas da Inglaterra; e ainda hoje, na era das micro-bandas do MySpace, segue como uma das poucas capazes de lotar em poucas horas os grandes estádios de futebol do país – uma massa de hooligans e proletários, que não estão lá para ouvir um concerto erudito tanto quanto para participar ativamente do show, cantando junto com a banda canções que falam sobre eles próprios e participando de um tipo de experiência que passa apenas superficialmente pela apreciação estética das próprias músicas.

É preciso entender que o Oasis, mais do que uma banda de músicos, é uma banda de operários, que canta sobre sonhos proletários e angústias mundanas. Isso está na atitude do grupo – o Liam, com toda a sua persona arrogante e inconseqüente, é a caricatura de um hooligan -, na sua própria história – Noel e Liam, como os primeiros músicos do grupo, cresceram em bairros operários de Manchester, não muito diferentes de certas vilas de trabalhadores daqui do Brasil, com uma infância que ainda vai fazer a alegria de algum diretor atrás de uma cine-biografia musical fácil -, e é bastante visível mesmo na sua música, especialmente a dos primeiros anos. Quem acha que Cigarettes & Alcohol fala sobre fumar e beber nunca prestou atenção realmente nos versos da música – basta ouvir a segunda estrofe, que canta É digno de irritação / Ter que procurar um trabalho quando não há nada pela qual valha a pena trabalhar? / É uma situação louca / Mas eu só preciso de cigarros e álcool. Rock n’ Roll Star chega a ser até um pouco claustrofóbica no seu libelo contra a opressão da vida urbana – Eu vivo minha vida na cidade / Não há saída fácil / Os dias passam rápidos demais para mim. E uma rápida passada pelos ótimos b-sides da banda, muitos dos quais melhores que algumas músicas de trabalho de outras bandinhas por aí, também revelam isso muito bem – ouça lá Rockin’ Chair (Eu sou mais velho do que gostaria de ser / Esta cidade não significa mais nada para mim / Toda a minha vida eu tentei encontrar um caminho melhor), ou Fade Away (Enquanto vivemos / Os sonhos que tínhamos quando criança / Se apagam), ou D’You Wanna be a Sapceman (A cidade em que vivemos / Te tranformou num homem / E todos teus sonhos foram levados pela areia), ou dúzias de outras.

É essa a dimensão do trabalho do Oasis que a maioria dos críticos parece ignorar – não a de roqueiros eruditos, com arranjos sinfônicos e versos divagando sobre a condição humana e pesadelos freudianos de infâncias problemáticas mas ainda, curiosamente, confortáveis; mas a de, nas suas devidas proporções, bardos do proletariado, da vida comum e das aspirações de pessoas comuns. A sua dimensão de working class heroes, enfim, os heróis da classe operária que o próprio John Lennon, vejam só, tanto celebrava e anunciava como algo digno de ser.

Enfim, não, claro, que eu queira mudar a opinião de qualquer um sobre o Oasis. Esses devaneios são mais para mim mesmo do que qualquer outra pessoa em especial; independente de qualquer opinião alheia, o fato é que eu vou continuar gostando de ouvir a banda, e considerando os 140 reais do ingresso até baratos para ter, afinal, a oportunidade de vê-los ao vivo, oportunidade essa que eu já desperdicei pelo menos duas vezes antes e não pretendo perder de novo. E quem não gostar, bem, que se foda, não sou eu, entre todos os oasers do mundo, que vou me importar.

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