Arquivo para Junho 15th, 2009

Final Fantasy XII

20080817_FinalFantasyXII(1]Final Fantasy XII foi o último jogo da consagrada série a ser lançado para o Playstation 2. Como de costume, ele reinventou todos os conceitos tradicionais da franquia, possuindo praticamente nenhuma relação com os principais episódios anteriores, resultando em uma experiência nova e única – digo “praticamente” pois dessa vez, apesar do enredo independente, revisitamos um mundo já conhecido, Ivalice, visto pela primeira vez em Final Fantasy Tatics, e aqui revisto, aparentemente, alguns séculos no passado.

Ivalice é um cenário um tanto diferente dos demais jogos da série. Abandonando (em parte) a tecno-fantasia que se tornou uma das suas marcas, é um mundo mais próximo da fantasia medieval tradicional; tirando talvez a onipresença das naves voadoras (os tradicionais airships), que deixa tudo muito parecido com Star Wars, pode-se dizer que é um mundo com a qual qualquer fã de D&D ficaria confortável: há reinos em guerra, intrigas entre nobres, ordens de cavalaria, dragões, masmorras perdidas, etc. E, nesse mundo fantástico-medieval tradicional, vemos como um jovem garoto chamado Vaan, que sonha em se tornar um pirata dos céus, se envolve em uma grande guerra que pode decidir o futuro da humanidade.

Não pense, no entanto, que se trata de mais uma daquelas histórias sobre adolescentes espirituosos que salvam o mundo. Apesar de ser o personagem principal nominalmente, a trama do jogo se concentra muito mais no que seria o elenco de apoio, que acabam sendo os verdadeiros personagens centrais do enredo; Vaan é meio que arrastado sem muita razão aparente por todo o mundo, apenas pra ser o herói adolescente que o jogo precisava precisava ter. E essa forma como o jogo escapa de contar mais uma história sobre adolescentes salvando o mundo é um dos méritos de um roteiro que, no fim, acaba sendo um tanto decepcionante para um Final Fantasy.

Não, claro, que não seja uma história interessante em algum nível. Existem alguns aspectos muito interessantes nela, a destacar dois, principalmente: a referência mitológica à tradicional história do “roubo do fogo”, em que os homens desafiam os deuses em busca de alguma dádiva especial (e cujo exemplar mais conhecido é a história de Prometeu, da mitologia grega); e o lado político que ela desenvolve, com a sua já esperada mensagem pacifista obrigatória em qualquer história épica recente, mas feita de uma forma que, por algum motivo, me lembrou bastante uma certa super-potência do nosso mundo, envolvida com guerras preventivas demais nos últimos tempos. No entanto, ela sofre enormemente de falta de ritmo – começa um tanto devagar, mas bem, e demora até começar a empolgar, acabando rápido demais quando finalmente o faz.

E isso é uma pena, pois acaba aproveitando muito pouco personagens que estão, em um primeiro momento, entre os mais promissores da série. Têm-se a impressão que o relacionamento entre os protagonistas foi muito pouco desenvolvido quando se chega ao final, e há um tanto de personagens de apoio que pareceriam ser muito interessantes, se sua participação não se resumisse a duas ou três aparições rápidas. O próprio vilão do jogo é confrontado diretamente pelo grupo pouquíssimas vezes, e na maior parte do tempo o jogador fica bastante longe do palco principal onde se desenrola a ação e as intrigas mais importantes.

Mas, claro, resumir o jogo todo apenas à história contada seria injusto – desde o início fica bastante claro que a vedete deste episódio não é o roteiro, mas o sistema de jogo, um dos mais profundos e inovadores da série, e também um dos mais divertidos graças às animações e detalhes dos combates. Não há mais turnos individuais; todo o jogo ocorre em uma espécie de semi-tempo real, com os personagens se movimentando simultaneamente pela tela e encontrando inimigos no caminho, para então, sim, tomarem turnos e agir, com a tradicional barrinha de tempo. Não há, no entanto, qualquer tipo de transição entre a área de exploração e a área de batalha, como é tão comum no gênero – o jogador pode mover um dos personagens escolhido como o líder do grupo, enquanto os outros serão controlados por uma inteligência artificial. Diferente de um RPG de ação, no entanto, aqui esta inteligência é programada em detalhes pelo jogador através do sistema de gambits; se preferir, inclusive, é possível desligá-los e colocar todos os comandos manualmente, mas é pouco recomendado, pois acaba ficando bastante confuso fazer isso para todos os personagens em tempo real à medida que se vai aprendendo mais e mais habilidades. Outro detalhe interessante é que poucos são os monstros que deixam dinheiro para os personagens quando são vencidos – a imensa maioria deles deixa apenas itens diversos, que devem ser vendidos nas lojas das cidades.

Este é também um dos Final Fantasies mais difíceis desde a época do Super Nintendo. Realmente sofri em algumas batalhas contra chefes no início, apesar de que, no fim, já estava ficando tão fácil quanto qualquer outro FF típico. Somando-se ainda o fato de que algumas áreas selvagens entre os pontos chaves do roteiro são bastante grandes, e também a side quest mais importante do jogo, que fará você viajar por todo o mundo caçando monstros, torna bastante fácil perder o foco do enredo principal – o que, pensando em retrospectiva, pode ser outra razão pela qual eu não consegui me ligar a ele tão bem como me liguei à história de outros jogos da série, até porque essas buscas secundárias geralmente pareciam bem mais interessantes. Mas isso também não chega a ser a ser um defeito, é claro; o mundo de Ivalice é vasto e interessante, e explorar e desvendar cada aspecto dele como quem lê um livro básico de um cenário de campanha faz parte da diversão que o jogo proporciona, sobretudo pra quem gosta de jogar uns d20s (ou outro equivalente) de vez em quando.

Falando em exploração, é aquilo que se faz a maior parte do tempo em que se está fora dos combates, já que há poucos mini-games. Não só as áreas selvagens são enormes, como as cidades também são absurdamente grandes, e leva algum tempo até se acostumar com a localização das lojas e pontos importantes da maioria delas. Felizmente, há um mapa bastante eficiente e prático, apesar dele não ter me impedido de me perder um punhado de vezes.

Também é importante destacar toda apresentação do jogo – dos gráficos ao som. FFXII possui uma das direções de arte mais inspiradas da série, criando um mundo riquíssimo em cores, formas e estilos. Os gráficos estão facilmente entre os melhores do PS2, perfeitamente animados e cheios de detalhes. No som, a área de maior destaque é a das atuações de voz, todas perfeitas e irrepreensíveis; destaco principalmente o cuidado em fazer com que personagens de regiões diferentes falem com sotaques diferentes, dando mais vida e verossimilhança a esse aspecto do mundo. Só a música é um tanto quanto esquecível – não que seja ruim, muito pelo contrário, apenas não é tão marcante e tocante quanto algumas das peças que já foram compostas para os outros jogos da série.

Enfim, Final Fantasy XII talvez não tenha consiguido atingir todas as expectativas que haviam para ele, que não eram poucas, e talvez por isso possa ser considerado um pouco decepcionante em alguns sentidos. Mesmo assim, atinge e supera um número suficiente delas para ainda assim ser um bom jogo. E, enfim, é um Final Fantasy – isso já o torna uma experiência válida por si mesma.

Vanda e Os Gigantes

Os cabelos negros voavam junto à brisa que vinha do oceano, enquanto o corpo pequenino se erguia na proa do navio, observando a montanha que crescia no horizonte. Ao redor, marinheiros trabalhavam e a olhavam,num misto de curiosidade e ceticismo – era difícil crer que aquela moça de aparência frágil fosse mesmo a famosa Vanda, a caçadora de gigantes.

Desconfortável com a atenção que recebia, Vanda se virou e desceu em direção aos aposentos inferiores, para se preparar para o desembarque. Caminhando, se deixava levar pelas névoas do passado que tomavam seus pensamentos.

***

- O que você quer, pequenina? – a voz da cabeça à direita ecoava como um trovão pelo vale entre as montanhas.

- Você matou meu pai! – Vanda tentava gritar de forma ameaçadora, mas, em comparação com a criatura à sua frente, soava pequena e suplicante. – E agora eu vou matar você!

As duas cabeças gargalharam em conjunto. Vanda se colocou de prontidão, agarrando com a mão direita a espada coberta de runas que pertencera ao pai. Vendo a sua fúria diminuta, o gigante de duas cabeças agarrou a clava de pedra no chão e se postou em posição de defesa.

- Pois então… – disse a cabeça direita, o tom de bravata ressoando novamente pelo vale.

- …venha! – completou a esquerda.

A garota correu em direção ao inimigo.

***

Vanda balançou a cabeça para afastar os devaneios. Precisava manter o foco; um único passo em falso seria suficiente para desencadear uma queda de dezenas de metros. Cuidadosa, continuou a escalada, buscando os caminhos mais seguros para chegar ao topo da montanha.

Quando o sol já saía do centro do céu, a guerreira chegou afinal à cratera esfumaçante. Recuperou o fôlego e olhou para dentro, procurando o ponto de origem da fumaça. Encontrou sem dificuldade – mas seria ainda uma longa descida até lá.

***

A clava atingiu o chão, fazendo a terra tremer. Vanda escapou por sorte, caindo para o lado pouco antes do golpe. As pernas já doíam de tantas esquivas, e ela ainda não causara um arranhão sequer no gigante. Ofegante, começava a questionar se fora uma boa idéia desafiá-lo. Não era uma guerreira, afinal, apenas a filha de um, morto ao enfrentar o mesmo monstro em defesa da vila onde morava; a espada empunhada por Vanda era tudo o que dele restava.

E era tudo o que restava para ela também. Desde quando podia lembrar, o pai era tudo o que tinha; a mãe morrera quando era ainda uma criança, jovem demais para guardar lembranças ou ressentimentos, e os dois passaram tempo demais viajando antes de se estabelecerem na pequena vila atacada pelo monstro. O gigante o havia tirado dela – e Vanda se sentiu um lixo por ter questionado a vingança por um instante sequer.

Levantou, determinada, e olhou para o inimigo, que preparava um novo golpe. Não havia tempo para pensar; pulou para trás enquanto a enorme clava caía em sua direção, atingindo mais uma vez o chão. Aproveitou a chance e se agarrou nela quando o gigante a levantou, levando-a junto com a arma em direção aos céus.

Vanda se segurou um pouco relutante, sem ter certeza do que fazia – quando deu por si, já estava no alto, sem opção a não ser se manter agarrada enquanto o gigante gritava e balançava o braço para derrubá-la. Conseguiu; a garota logo se soltou e despencou em direção em direção ao chão, que se aproximava com velocidade…

Parou. Vanda olhou para baixo e viu o chão, ainda metros distante. Olhou para frente, e viu a espada de seu pai cravada na carne do gigante, as runas mágicas brilhando intensamente, as mãos agarradas por um impulso involuntário ao cabo da arma. A criatura gritou de dor e curvou-se para frente, permitindo a Vanda ficar de pé sobre as suas costas.

Vendo a planície que se abria à sua frente, correu até a cabeça mais próxima, cravando a espada com violência no pescoço do gigante. Retirou a arma em uma chuva de sangue, seguida por um berro de dor esboçado e logo abafado.

Vanda então se virou para a cabeça que restava, que agora a fitava com um olhar assustado, e sorriu como um lobo antes de saltar com a espada erguida em sua direção.

***

Um pequeno pulo para atingir o chão, e chegava ao ponto mais baixo da cratera. À frente se abria uma grande cavidade na montanha, de onde vinha a fumaça que vira do lado de fora.

Vanda se aproximou com cautela, cuidando para não acordar a criatura que habitava o local, inconscientemente desejando o próprio descuido. Apenas mais alguns passos e já podia vê-la: as escamas rubras como sangue, as asas encolhidas sobre as costas, as patas dianteiras apoiando a cabeça adornada de chifres, as montanhas de ouro e jóias no entorno; um dragão, dormindo em meio ao seu tesouro.

A guerreira sorriu, lamentando apenas que não estivesse acordado. Sacou a espada da bainha na cintura e continuou caminhando com cuidado, seguindo próxima às paredes à procura de um ponto por onde pudesse subir no seu pescoço. Tão concentrada estava que não notou os olhos do monstro se abrindo em uma fração de segundo enquanto passava na sua frente.

***

Dias passaram desde a morte do gigante de duas cabeças. Vanda voltara para a vila, onde assumira a mesma função de guarda que era de seu pai. Todos a respeitavam depois do feito que realizara, então raramente tinha qualquer problema. Foram, enfim, dias muito chatos.

Vanda odiava aquele tédio. Lembrava com nostalgia não dos anos que vivera com o pai, mas sim dos poucos minutos da batalha contra o gigante – a respiração ofegante, o sangue fervendo, o instinto guiando seus passos e movimentos; sentia que apenas então esteve viva de verdade.

Decidiu-se, afinal, e anunciou a decisão ao conselho da vila. Os anciãos imploraram para que mudasse de idéia; ofereceram dinheiro, conforto, tudo o que quisesse. Mas o que Vanda queria eles não poderiam dar – encontrariam outro aventureiro em busca de aposentadoria, respondeu, ou mesmo um jovem corajoso entre os próprios filhos; seu destino estava em outro lugar.

Pegou então a velha espada da família, alguns pertences de valor pessoal e o pouco dinheiro que possuía, e partiu em direção ao horizonte distante, sonhando encontrar os gigantes fantásticos de que ouvia falar nas histórias do pai.

***

A montanha explodiu em uma chuva de rochas, poeira e fogo. Partindo como um foguete, o dragão se lançou aos céus. Vanda agarrava a asa esquerda, reunindo as forças que tinha para não cair. Tinha no rosto um sorriso masoquista, um gozo intenso de alegria, enquanto sentia o vento cortando a pele e forçando o cabelo para trás.

O monstro bateu as asas com violência para fazê-la perder o equilíbrio, mas ela apenas se agarrou mais forte. Soltou quando a asa estava na posição superior e caiu sobre as costas da criatura, de onde conseguia ver a espada cravada até a metade no pescoço escamoso, as runas próximas ao cabo brilhando com intensidade assassina. Correu até a arma e a agarrou, segurando-a firme enquanto o dragão tentava forçar sua queda girando em torno do próprio eixo. Puxou-a para fora quando pôde ficar de pé outra vez, espirrando sangue escuro em todas as direções e fazendo o monstro gritar de dor.

Vanda então correu até a cabeça. A criatura se debateu com violência, forçando-a a se apoiar em um dos chifres para não cair. Quando parou, a guerreira se ajoelhou, levantou a espada em direção ao céu, e a cravou violentamente na cabeça do monstro, perfurando a pele e adentrando a carne.

O dragão gritou de dor mais uma vez, e Vanda precisou se agarrar com força à espada para não perder o equilíbrio. Retirou a arma em uma nova chuva de sangue, e cravou-a novamente na cabeça do monstro; ele gritou outra vez, um urro esganiçado, logo abafado. Vanda retirou e cravou a espada com velocidade mais um vez, mas percebeu que perdiam altitude muito rápido, descontroladamente. Tentou puxar a arma para fora, mas logo sentiu o impacto da queda; então se agarrou com força ao cabo enquanto mergulhava junto com o monstro para o fundo do oceano.

De longe, os marinheiros atracados na costa da montanha assistiam assustados à queda da criatura e a gigantesca onda que ela levantava. O capitão logo retirou uma luneta do casaco e começou a varrer a área com os olhos, porcurando sinais de Vanda: à esquerda, à direita, pelo centro, ainda mais à esquerda.

Notou afinal pequenas bolhas de ar se formando e estourando na superfície água, e fixou o olhar naquele ponto. As bolhas aumentaram em intensidade e quantidade, até se converterem em um pequeno espirro de água de onde saiu Vanda, a mão direita erguida em triunfo empunhando a espada coberta de runas.

- Viva! – gritou o capitão, vibrante, num gesto logo repetido pela tripulação.

Dezenas de metros distante, Vanda ofegava. O tesouro ainda estava na montanha, mas que importava para ela? Os marinheiros que o pegassem, agora que o dragão não estava mais lá para ameaçá-los. Queria apenas uma boa cama para descansar antes da próxima caçada.

Começou a nadar em direção ao navio, sorrindo de um lado ao outro do rosto.


Sob um céu de blues...

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@bschlatter

  • (...) Logo, ele deve ser altamente vulnerável a cheiros ruins e cócegas! Como o Lex Luthor nunca pensou nisso antes? 11 hours ago
  • Pensem comigo: se o Super-Homem tem as capacidades de um humano normal ampliadas, isso deve valer também para o olfato e o tato, não? (...) 11 hours ago
  • J'ai eu un test de français ajourd'hui. Il a été trés facile. 11 hours ago
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