Arquivo para Julho, 2009

Nelinha e O Computador

Nelinha tinha medo de computadores. Não, era mais do que medo: tinha horror deles. Aquelas caixas de metal cheias sons, luzes, botões… Havia algo de demoníaco ali, algo que despertava o seu mais profundo pavor. O marido dizia que era bobagem, que computadores eram máquinas, e serviam apenas para o que você quisesse usá-los, mas para Nelinha pouco importava: era mais forte que ela, um sentimento irracional muito além de qualquer autocontrole.

Sentia um pouco de vergonha, é claro. Todos os dias via o marido, os filhos e os amigos alegres em seus PCs, visitando sites, lendo e-mails, jogando jogos, mas nunca conseguia reunir coragem o bastante para se juntar a eles. Quase conseguiu uma vez, ao ver o filho mais novo gargalhando e se divertindo frente ao monitor; tentou se aproximar com cautela, mas, antes mesmo que ele a percebesse, se virou tremendo e voltou para a cozinha. Em outra situação a filha tentou seduzi-la chamando-a para ver uma revelação bombástica sobre a novela das oito, mas, ao perceber que precisaria ler a notícia no computador, Nelinha preferiu esperar para assistir quando os capítulos fossem ao ar. E em outra ainda o marido tentou obrigá-la a criar uma conta em um programa de mensagens instantâneas, para poderem se comunicar durante o dia, mas ela resistiu e se recusou até ele desistir.

A gota d’água veio quando o marido ligou para casa numa tarde de quarta-feira, preocupado por ter esquecido de pagar a conta de luz. Pediu para Nelinha pegar o boleto e pagar pela internet, pois os bancos já haviam fechado; ele explicaria exatamente como fazer. Mas ela não lhe deu ouvidos: bastou o computador ser mencionado que deixou o telefone cair no chão, e correu chorando para o quarto. A luz foi cortada antes do fim do dia, e os dois brigaram violentamente naquela noite, deixando os filhos aos prantos. Foi quando Nelinha tomou a decisão: não poderia mais continuar assim.

Logo que a luz voltou, aproveitou uma tarde em que estava sozinha para resolver, afinal, aquela situação. Reuniu toda a coragem que possuía e se sentou na frente da máquina; suspirou profundamente, e apertou o botão de ligar. Quase pulou para trás: no exato instante em que o monitor acendia, um trovão caiu na rua, e começou a chover. Nelinha balançou a cabeça, e voltou para a cadeira; não ia ser o tempo lá fora que mudaria sua resolução.

O computador ligou devagar, e entrou no sistema operacional. Nelinha brincou com o mouse por um tempo, vendo a seta se mover entre os ícones da área de trabalho, e afinal clicou em um deles. Foi quando tudo parou de repente, e uma mensagem apareceu no monitor: este programa executou uma operação ilegal e será fechado.

Nelinha ficou pálida. Teria feito alguma coisa errada? Se o marido descobrisse, estava morta! Olhou para o teclado, e apertou o botão Enter; sempre ouvia o marido dizendo para os filhos apertarem ele. A mensagem sumiu, e ela suspirou aliviada.

Empalideceu novamente: outra vez ela aparecia, a mesma mensagem. Apertou Enter de novo, e de novo, e de novo, e ela sempre voltava. Tentou outras teclas: Esc, Tab, Shift, Ctrl, Alt, F1, F2, A, T, S, 4, >, ?… Nada funcionava.

Já tremia de pânico quando um novo barulho chamou sua atenção. Olhou para baixo, assustada: a entrada para CDs que estava aberta. Teria feito o comando sem perceber?

Nelinha não teve tempo de pensar – um grupo de fios saltou de dentro da máquina e agarrou o seu pescoço, puxando-a com força para frente. Ela tentava resistir, mas eram fortes demais; agarrou os fios com as mãos e tentou puxá-los para longe, mas o mouse pulou e golpeou a sua barriga, fazendo-a soltá-los, e então lhe amarrou os braços junto ao corpo.

Os fios continuavam puxando-a para frente, batendo-a contra o monitor uma, duas, três vezes, até a tela se quebrar e um fio de sangue começar a escorrer do canto da testa de Nelinha. Apertavam com força o seu pescoço; logo já não conseguia mais respirar, e tudo escureceu vagarosamente…

O marido e os filhos a encontraram morta, enrolada nos fios do computador, quando voltaram para casa no fim do dia. Nunca descobriram o que aconteceu.

Sorte & Má Sorte

Caminhava um homem pela calçada quando cruzou o caminho de um gato preto próximo a um beco sujo. Trocaram olhares desconfiados, fitando friamente um o rosto do outro, enquanto seguiam adiante até se perderem de vista.

O homem seguiu pela calçada, e parou na esquina. Olhou para um lado, e para o outro: não havia carros se aproximando. Então foi adiante, atravessou a rua e seguiu o seu caminho pelo outro lado.

O gato preto seguiu também o seu caminho, até parar antes do cordão da calçada. Olhou para um lado, e para o outro: não havia carros se aproximando. Então foi adiante e atravessou a rua, mas, quando estava no meio dela, um caminhão passou em velocidade e o atropelou, esmagando todos os seus ossos.

The Master and Margarita

pevear2006Uma turminha da pesada aprontando altas confusões em Moscou – bem que poderia ser essa a sinopse de The Master and Margarita, obra-prima do escritor russo Mikhail Bulgakov, considerada um dos melhores romances do século XX. Claro, a “turminha” é encabeçada pelo diabo em pessoa, e a Moscou é a das primeiras décadas do regime stalinista, mas no fim isso são só detalhes.

É o tipo de livro com muitas camadas, que permite uma infinidade de leituras diferentes. A mais óbvia provavelmente é como uma sátira social e política, uma crítica ácida à burocratização da vida na antiga União Soviética, ao ponto de muitas vezes as situações supostamente mundanas narradas conseguirem parecer mais extraordinárias e absurdas do que as que deveriam ser fantásticas. Não à toa, o livro foi severamente censurado nas suas primeiras edições, e muitas das suas passagens mais críticas só sobreviveram por terem sido reproduzidas de maneira ilegal por dissidentes do regime comunista até a década de 70. A religião é outro alvo constante de sátira, tanto do ateísmo fanático dos soviéticos, que os impedem de perceber o que está acontecendo, como dos próprios dogmas do cristianismo, através de um romance dentro do romance que narra as últimas horas de Cristo do ponto de vista de Pôncio Pilatos. Com seu cinismo caótico e senso de humor negro e imprevisível, Bulgakov chega a parecer por vezes uma espécie de proto-Kurt Vonnegut soviético.

Além disso, The Master and Margarita é também uma brilhante obra de construção literária. Há citações que vão de Goethe e Dostoiévski (bastante óbvias, aliás) até Shakespeare; e o próprio mundo da literatura russa é cenário constante dos acontecimentos, sendo outro alvo preferencial das sátiras e críticas do autor. A história toda pode ser facilmente entendida como a jornada de um escritor atormentado pela sua obra – um pouco como foi a própria história de Bulgakov com o romance, aliás, trabalhando nele por mais de dez anos, chegando ao ponto de queimar os primeiros manuscritos, e morrendo antes de vê-lo publicado. Como um pseudo-escritor também atormentado por obras nunca terminadas, é difícil não se identificar.

E, é claro, há também todo o lado fantástico, um magnífico romance de fantasia repleto de criaturas maravilhosas e situações surreais. Woland, a encarnação da vez do coisa-ruim, possui um interessante séquito de seguidores, de Behemoth, o gato humanóide que se transformou no personagem-símbolo do romance, a Azazello, o leão-de-chácara estrábico com uma mira infalível. As descrições das cenas com grande presença do sobrenatural são excelentes, belíssimos exemplos de prosa surrealista; passagens como o vôo das bruxas pela noite moscovita e a redenção final do protagonista são ricas e impressionantes, daquelas que dão vontade de ler e reler e reler outra vez. As passagens que descrevem o romance entre os persoangens-título também são especialmente marcantes, com uma prosa tocante que consegue ser emotiva sem soar enfadonha ou apelativa.

Tha Master and Margarita, enfim, é uma obra-prima, justamente reconhecida e admirada. Recomendo enormemente.

Tokyo Gore Police

tokyogore01Tokyo Gore Police é outro filme que eu assisti no V FantasPOA. Como o póprio nome já leva a crer, ele está muito mais próximo de The Machine Girl do que de A Cor da Magia – ou seja, é um filme assumidamente trash, daqueles com sangue jorrando, cabeças explodindo e outras bizarrices absurdas.

Apesar disso, no entanto, ele tem também alguns méritos interessantes. É um filme tecnicamente muito bem feito: o figurino é cuidadoso, a fotografia e a trilha sonora são boas, até os atores são por vezes mais do que apenas passáveis. O roteiro tem alguns momentos tão absurdamente bizarros que poderiam fazer parte de um esquete do Hermes & Renato; mas também tem algumas idéias bem legais, como o cenário todo da história, um Japão futurista onde a polícia foi privatizada (e quem não tem uma quedinha que seja por distopias futuristas?), ou os vilões, seres bizarros conhecidos como engenheiros, que regeneram qualquer parte perdida do corpo transformando-a em algum tipo de arma. Todo o design dos monstros, aliás, é bem legal – há até uma cena em um bordel que poderia ter saído facilmente de um livro do China Miéville.

O melhor, no entanto, é o humor negro absurdamente trash e cínico que o filme tem do início ao fim. As cenas, por exemplo, são entrecortadas por comerciais fictícios de televisão, principalmente do serviço de polícia de Tóquio; alguns são verdadeiras pérolas, como o que um grupo de garotos é atacado por engenheiros durante uma pelada na rua e são salvos por policiais, que fazem até pose de nice guy no fim, ou a propaganda de estiletes coloridos desenhados especialmente para cortar os pulsos, a moda do momento entre colegiais japonesas. A história por trás dos engenheiros é outro ponto alto: um pérola kitsch que envolve desde engenharia genética até uma viagem ao inferno (literalmente).

Tokyo Gore Police, enfim, certamente não é um filme para qualquer um. Quem não consegue ver graça em membros decepados e chuvas de sangue provavelmente vai ter muita resistência em gostar dele, mesmo com todos os pontos positivos. Quem não se incomodar com isso, no entanto, vai encontrar aí cerca de um par de horas de bastante diversão, e até uma ou outra idéia provocante no caminho.

Haicai Matinal (2)

Manhã em Porto Alegre,
Eu abro a geladeira:
Vento quente no meu rosto.

Haicai Tricolor

0,,21464177-EX,00De fora da área,
No lado direito,
Ao ângulo esquerdo.

Bleh (3)

Bueno, só queria anunciar que eu fiz páginas de apresentação para a Iniciativa 3D&T Alpha e a Iniciativa M&M, das quais eu participo, contendo uma listagem dos blogs participantes, dos artigos publicados aqui, e links para onde pode ser encontrado um índice geral de cada uma, com todos os artigos publicados. Vejam lá quem joga RPG e gosta de um desses dois sistemas.

Também resolvi dividir a área de links na coluna lateral, agora há uma área só para blogs/sites de RPG, que já estavam em um número considerável em relação aos demais. Foram adicionados mais uma meia-dúzia também, um em especial: o site do Projeto Tagmar 2, que busca revitalizar e atualizar o primeiro RPG escrito no Brasil. Visitem se gostam de fantasia medieval, há bastante material interessante por lá, inclusive todos os livros do projeto em formato PDF para download gratuito.

Iniciativa M&M – Noir

O tema da vez na Iniciativa M&M, desta vez apresentado dentro do prazo (heheh), é séries policiais. Apresento a seguir, então, dois arquétipos de personagens próprios para campanhas de NP6 em histórias estilo noir.

Warren_Beatty_as_Dick_TracyDetetive (NP 6)
For 14 (+2) Des 14 (+2) Con 14 (+2) Int 18 (+4) Sab 16 (+3) Car 14 (+2)
Res +6 For +5 Ref +6 Von +5
Feitos: Atraente, Bem-Informado, Contatos, Durão 4, Duro de Matar, Equipamentos 2, Foco em Esquiva 2, Maestria em Perícia (Blefar, Furtividade, Intuir Intenção, Notar)
Perícias: Arte da Fuga 8 (+10), Blefar 6 (+8/+12*), Conhecimento (atualidades) 4 (+8), Desarmar Dispositivo 6 (+10), Diplomacia 4 (+6/+10*), Dirigir 4 (+6), Furtividade 8 (+10), Intimidar 8 (+11), Intuir Intenção 8 (+11), Investigar 11 (+15), Notar 8 (+11), Obter Informação 11 (+13), Prestidigitação 6 (+8), Procurar 8 (+12)
*com o bônus de Atraente
Equipamento: pistola leve (Raio 3)
Combate: Ataque +6, Dano +2 (corpo-a-corpo) / +3 (pistola leve), Defesa 14, Iniciativa +2
Desvantagem: Vulnerabilidade (mulheres – menor, comum)

Atributos 30 + Salvamentos 9 + Feitos 13 + Perícias 25 (100 graduações) + Combate 16 – Desvantagem 3 = 90pp

O tradicional detetive hard-boiled de histórias noir. É inteligente, capaz de resolver mistérios complicados na base da dedução e investigação; sua principal ferramenta de trabalho, no entanto, são os diversos contatos no submundo, além, é claro, da capacidade de apanhar sem parar de capangas e continuar vivo pra solucionar o caso. Sua personalidade cínica e atitude durona o tornam especialmente atraente para mulheres – mas elas são também a sua maior fraqueza, capazes de facilmente vencer suas defesas com um simples olhar sedutor.

jessica_rabbitFemme Fatale (NP 6)
For 10 (0) Des 12 (+1) Con 12 (+1) Int 14 (+2) Sab 14 (+2) Car 18 (+4)
Res +1 For +4 Ref +4 Von +9
Feitos: Ataque Furtivo, Atraente 2, Bem-Relacionada, Benefício (status), Crítico Aprimorado (Controle Emocional/19-20), Distrair (Blefar), Equipamento 1, Especialização em Ataque (Controle Emocional) 2, Esforço Supremo (Diplomacia), Fascinar (Diplomacia), Inspirar 4, Sorte 2
Perícias: Blefar 3 (+7/+15*), Conhecimento (atualidades) 4 (+6), Diplomacia 3 (+7/+15*), Dirigir 4 (+5), Performance (atuação) 6 (+10), Performance (canto) 8 (+12), Performance (dança) 8 (+10), Prestidigitação 3 (+4), Notar 5 (+7)
*com bônus de Atraente
Poderes: Controle Emocional 6 (Ação +1/movimento, Duração +1/contínua, Alcance -1/distância, Dependente dos Sentidos -1/visão, Limitado -1/amor – 1pp/grad; Inato), Drenar Sabedoria 4 (Área +1/estouro, Duração +3/contínua, Salvamento Alternativo +0/Vontade, Dependente dos Sentidos -1/visão, Permanente -1 – 3pp/grad; Inato)
Equipamento: pistola de apoio (Raio 2)
Combate: Ataque +2 / +6 (Controle Emocional), Dano +0 / +2 (pistola de apoio), Defesa 12, Iniciativa +1

Atributos 20 + Salvamentos 13 + Feitos 18 + Perícias 11 (44 graduações) + Poderes 20 + Combate 8 = 90pp

Bela e sedutora, a femme fatale é também terrivelmente perigosa. Capaz de causar loucura com um simples olhar, pode rapidamente transformar o mais hostil inimigo no mais fanático aliado. Sua aparência deslumbrante a concede privilégios em qualquer lugar, e, em conjunto com um andar sexy e devastador, desvia olhares e prejudica a atenção. Mas não se engane: ela é também inteligente e manipuladora, capaz de quase qualquer coisa para atingir seus objetivos particulares.

Amor de Zagueiro

Roberto era como um leão. Ao menos, era o que diziam os que o viam jogar, com os cabelos balançando como uma juba enquanto ele, vencido no primeiro drible, alcançava na corrida o adversário com a bola e dava o bote, como um leão na savana alcança uma zebra para alimentar os filhotes. Depois parava por um instante, apoiava as mãos nos joelhos, a cabeça entre eles, e inspirava e expirava rapidamente pra recuperar o fôlego. Quem via achava não conseguiria dar um arranque daqueles outra vez – mas tão logo um companheiro perdia a bola no ataque lá estava ele novamente correndo para recuperá-la.

Sempre jogava lá atrás, na zaga, logo à frente do goleiro. Não que fosse especialmente ruim em outras posições – de fato, não tinha um bom domínio da bola, mas chutava bem, era forte e ainda tinha uma boa arrancada; provavelmente seria um ótimo atacante. Mas Roberto realmente gostava de jogar atrás: gostava de confrontar os atacantes, desarmá-los, vencê-los. O mesmo prazer de um atacante em ver um chute vencer o goleiro ele sentia quando tirava uma bola de cima da linha do gol. E era bom nisso: lembrava com orgulho de certa vez no colégio quando seu goleiro estava invicto enquanto ele estava em campo, mas, tão logo saiu do jogo para fazer uma prova, a bola entrou. Sugeriram muitas vezes que tentasse entrar nas categorias de base de algum clube, que virasse profissional.

- Que é isso, eu não jogo tanto assim. – respondia.

Roberto não era um jovem muito bonito, mas também estava longe de ser feio. Alto, moreno e com profundos olhos verdes, até era capaz de atrair alguns olhares femininos na rua. No entanto, raramente era visto na companhia de mulheres, e pouco ou nada se sabia de histórias suas envolvendo qualquer coisa parecida com uma namorada, de forma que levantava sérias suspeitas entre os amigos a respeito de suas preferências. Suspeitas infundadas, na verdade: Roberto gostava, sim, de mulheres; apenas não sabia lidar com elas. Tirar a bola de um atacante em direção ao gol era fácil; desarmar um meio-capista habilidoso, uma brincadeira – difícil mesmo era convidar uma amiga para ir ao cinema. Pedir o telefone de uma deconhecida em um bar, então, era uma missão impossível; a menos que ela agisse primeiro, qualquer flerte acabaria no momento em que terminasse a troca de olhares e sorrisos.

Não gostava de ser assim, mas, com o tempo, se acostumou. Conformado, até desenvolveu um joguinho particular: sempre que via alguma mulher interessante na rua, no ônibus, na faculdade, começava a pensar em como seriam os dois juntos. Imaginava o namoro, as brigas, às vezes até o casamento e a vida à dois que se seguiria. Algumas das histórias eram tão grandes e complexas que eram quase romances de ficção; que importava se ele não a conhecia e ela provavelmente fosse completamente diferente do que imaginava? Era um amante platônico inveterado, um don juan imaginário.

E foi assim que viu pela primeira vez Renata, na faculdade. Como tantas outras vezes, se apaixonou à primeira vista, e começou a imaginar os dois juntos. Olhava para ela, para os olhos dela, para o corpo dela, para as pernas dele… E ela olhou de volta para ele.

Ele olhou para ela, em resposta.

E ela olhou para ele.

Roberto conhecia aquele olhar – era o olhar dele, o mesmo par de olhos distantes imaginando outras vidas, outros mundos. Estaria ela sonhando com ele como ele sonhava com ela?

Na outra outra aula ela já não olhava para Roberto, mas ele ainda o fazia, agora ainda mais sonhador do que antes. Ela o havia observado – será que pensava nele da mesma forma que ele pensava nela? Pensou em se aproximar, começar uma conversa, talvez convidá-la para verem algum filme ou saírem para beber e conversar em um bar. Mas não fez – ela já não o olhava, será que realmente pensava da mesma forma?

Mas havia olhado antes. Será que sonhava com o futuro como ele? Um mês se passou, e Roberto chegou a poucos metros de falar com Renata. No último instante, no entanto, exitou; ela não o olhava mais, devia ser apenas ele sonhando além da conta outra vez.

Passou o semestre, e todos foram jogar novamente para se despedir dos colegas. Roberto, o leão da zaga, estava lá. E Renata também, assistindo ao jogo com  os demais não-jogadores.

João, atacante veloz, driblou Roberto. Ele se recuperou e correu atrás, os cabelos balançando como a juba de um leão. Quase o alcançava, quando a viu – Renata, olhando o lance. Por um momento, se perdeu outra vez entre os devaneios de futuros inexistentes.

Gol. Roberto se virou, e viu João comemorando; como o havia deixado chegar até lá? Como não o alcançou, como o leão que alcança a zebra para alimentar os filhotes? E olhou para Renata, que vibrava com o gol do colega.

Voltou para o jogo. O time foi para a frente, enquanto ele ficou atrás, perto do meio-campo, para bloquear um possível contra-ataque. Olhou para os colegas do lado de fora, e viu Renata outra vez, olhos fixos na jogada que acontecia. Ela havia vibrado com o gol de João. Será que sonhava agora com João, como Roberto sonhava com ela? Será que vibraria com um gol dele também?

Roberto viu um espaço vazio no lado esquerdo do campo, e correu para lá. Gritou para André, com a bola, que nem notou a defesa do time subitamente aberta – apenas cruzou para o companheiro livre, sozinho, de frente para o gol. Roberto olhou para a bola vindo na sua direção, mirou a rede e chutou com a perna esquerda, de primeira – um chute forte, preciso, entre o goleiro e a trave.

Correu para comemorar. Não gostava de fazer gols – gostava muito mais de impedi-los. Mas aquele em especial era pra ser comemorado. Porque Renata estava olhando. E ele olhou para ela, e ela vibrava.

Todas as Cosmicômicas

1946714_4Ah, bem… Como descrever um livro de Italo Calvino? A prosa do italiano é do tipo que foge de classificações simples, unindo um estilo gostoso e fluido de ler com um virtuosismo técnico e experimentalismo temático únicos. Suas histórias brincam com a própria forma da narrativa – como, digamos, tirando contos de cartas de tarot -, e falam com uma naturalidade do absurdo e do fantástico – narrando histórias como a de um visconde que se parte ao meio, ou de um cavaleiro que não existe – que só encontra paralelo em certos mestres da fantasia contemporânea – e não, não falo de Tolkien e seus tietes, mas de Jorge Luís Borges, Gabriel García Marquez, e, talvez, Umberto Eco.

Todas as Cosmicômicas é só mais um exemplo perfeito entre tantos, talvez mesmo o principal deles. O livro reúne as obras As Cosmicômicas e T=0, bem como outros contos diversos com temas e brincadeiras narrativas semelhantes, que contam as histórias de Qfwfq, o cronista do universo, testemunha ocular do Big Bang e de toda a história que se seguiu a ele. A maioria dos contos parte de um enunciado científico – a formação das estrelas, o início da vida terrestre, as tempestades magnéticas solares – e a partir dele cria um enredo fantástico, repleto de drama e humor, pérolas de literatura fantástica, absurda e fabulesca, sempre com aquela prosa encantadora e virtuosa que é a marca do autor. Logo descobrimos, assim, como Qfwfq e seus companheiros de nomes inpronunciáveis sofreram com a falta de espaço anterior ao Big Bang, jogaram bocha com os primeiros átomos do universo, viveram como os últimos dinossauros a caminhar sobre a Terra, e passaram por diversas outras aventuras cósmicas e cômicas.

Além destes, que são certamente os grandes astros da obra, também fazem parte da coletêna alguns outros exercícios narrativos de Calvino, como os “contos dedutivos”, onde o narrador se limita a examinar todas as possibilidades de desenvolvimento e desfecho da situação em que se encontra, ou mesmo uma versão alternativa do clássico de Dumas O Conde de Monte Cristo. Outros que merecem destaque são os três contos reunidos com o nome de Priscila, contando a história das suas células, da mitose à meiose à morte, quase como um pequeno e encantador romance.

Enfim, Todas as Cosmicômicas, como qualquer obra de Calvino, é certamente uma recomendação; aliás, uma indicação, quase uma demanda de leitura. É Douglas Adams muito antes de Douglas Adams; Kurt Vonnegut antes de Kurt Vonnegut; e até, vá lá, nas devidas proporções, eu mesmo antes de, bem, eu mesmo.

Devaneio

O universo é composto por bilhões de bilhões de bilhões de estrelas espalhadas por um imenso, absurdamente grande, imensuravelmente gigantesco mar de matéria escura. Cada pontinho brilhante à noite no céu é um astro localizado a milhares, às vezes milhões, de anos-luz da Terra – a saber, cada ano-luz é a distância que uma partícula de luz (também chamada fóton), que viaja na velocidade de 300 mil quilômetros por segundo, percorre no período de um ano. Como a nossa própria visão é fundamentada na percepção dessas particulas de luz pelos nossos nervos óticos, isso quer dizer que esses mesmos pontos representam, na verdade, a situação da sua respectiva estrela não hoje, mas esses milhares ou milhões de anos no passado. Muitas dessas estrelas talvez nem existam mais; outras tantas podem ter surgido no seu lugar e nós não teremos a menor idéia da sua existência por pelo menos outros milhares ou milhões de anos. Cada uma delas pode, ainda, conter um conjunto de planetas que orbitam na sua volta, talvez menores, talvez maiores, talvez com o mesmo tamanho da Terra. Todos esses astros – não só estrelas e planetas, mas também cometas, asteróides, nebulosas, e sabe-se lá mais o quê – geram uma distorção espacial em torno de si, chamado campo gravitacional, que atrai os objetos à sua volta e, dependendo da sua distância e massa relativa, pode fazê-lo girar ao seu redor. Às vezes, esse campo gravitacional pode ser tão poderoso, e em torno de um espaço tão pequeno, que absolutamente tudo à sua volta é sugado para dentro dele, até mesmo as partículas de luz, resultando em um pequeno ponto escuro no espaço com massa e densidade absurdamente gigantescos – um buraco negro. Absorvendo tudo à sua volta, é possível que esse buraco negro, em algum momento, reúna uma massa tão grande dentro de um espaço tão pequeno que simplesmente a pressão dentro dele torne-se irresistível, e acabe em uma grande explosão de matéria que irá se expandir, condensar e eventualmente formar todo um novo universo de estrelas, planetas, cometas e todo o resto. E, no meio disso tudo, por que raios eu to aqui sentado na frente do computador escrevendo?

Iniciativa M&M – A Mosca-Cometa

Bueno, trago a seguir o próximo artigo da Iniciativa M&M. O tema da vez, que eu apresento com bastante atraso, é aventuras espaciais; segue, então, uma nova criatura para ser usada em aventuras desse tipo.

Nos confins do espaço, vivendo entre os planetas e galáxias, há toda uma fauna única de animais e criaturas. Dragões do tamanho de estrelas; abelhas cujas colméias são maiores que planetas; aranhas que constróem nebulosas ao invés de teias – a escala e proporção desses seres é inimaginável. A mosca-cometa é uma destas criaturas.

Como o nome leva a crer, estes insetos cósmicos, pelo seu tamanho colossal e forma compacta, são muitas vezes confundidos com cometas quando vistos da superfície um planeta. Com uma dura carapaça, resistente ao vácuo e ao frio do espaço, eles voam entre os planetas, se alimentando das partículas radioativas que compõem os ventos estelares. São geralmente inofensivos, raramente representando grande perigo aos exploradores espaciais e outros habitantes do universo – exceto quando se reproduzem.

A reprodução das moscas-cometas se dá a partir de uma grande ninhada de ovos que são depositadas no subsolo de planetas rochosos. Destes ovos nascem larvas gigantescas que seguirão até a superfície, causando grande destruição e consumindo os recursos naturais disponíveis, até chegarem ao estágio de se metamorfosearem em moscas completas e saírem para explorar o espaço distante. Os melhores ambientes para o desenvolvimento destas larvas costumam ser, justamente, aqueles que permitem o desenvolvimento de vida; por isso, o mais comum é que moscas-cometas procurem planetas deste tipo para depositar os seus ovos.

A única outra ocasião em que uma mosca-cometa pode representar um grande perigo é quando ela morre sozinha no espaço. Quando isso acontece, o seu corpo não pára de se mover, uma vez que no vácuo não há resistência do ar para fazê-lo perder velocidade; seguirá em movimento constante até se chocar com outro objeto espacial ou ser pego no campo gravitacional de um planeta, caindo como um meteoro e causando uma grande catástrofe devido ao seu tamanho descomunal.

Mosca-Cometa (NP 15)
For 58 (+24) Des 14 (+2) Con 34 (+12) Int 2 (-4) Sab 14 (+2) Car 2 (-4)
Res +12 For +12 Ref +6 Von -2
Feitos: Atropelar Aprimorado, Esquiva Fabulosa (visão)
Perícias: Notar 8 (+10)
Poderes: Crescimento 24 (Contínuo, Permanente; Inato), Imunidade 9 (frio, radiação, sufocamento, vácuo), Resistência Impenetrável 12, Sentidos Especiais 1 (visão radial), Viagem Espacial 4 (Poder Alternativo: Vôo 2)
Combate: Ataque -10, Dano +24, Defesa 4, Iniciativa +2
Desvantagens: mudo (muito comum, moderada), sem mãos (muito comum, moderado)

Atributos -8 + Salvamentos 4 + Feitos 2 + Perícias 2 (8 graduações) + Poderes 100 + Combate 32 – Desvantagens 8 = 124pp

Larva de Mosca-Cometa (NP 8 )
For 42 (+16) Des 18 (+4) Con 26 (+8) Int 1 (-5) Sab 10 (0) Car 1 (-5)
Res +8 For +8 Ref +4 Von -3
Feitos: Atropelar Aprimorado, Atropelar Rápido
Poderes: Crescimento 16 (Contínuo, Permanente; Inato)
Combate: Ataque -8, Dano +16, Defesa 2, Iniciativa +4
Desvantagens: mudo (muito comum, moderada), sem mãos (muito comum, moderado)

Atributos -8 + Feitos 2 + Poderes 49 – Desvantagens 8 = 35pp

Só pra constar, esse material foi feito com a ajuda do e-book Unearthly – Cosmic Heroes, que traz algumas regras e dicas para lidar com personagens em escala cósmica no M&M, e pode ser baixado aqui.

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Sob um céu de blues...

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@bschlatter

  • (...) Logo, ele deve ser altamente vulnerável a cheiros ruins e cócegas! Como o Lex Luthor nunca pensou nisso antes? 11 hours ago
  • Pensem comigo: se o Super-Homem tem as capacidades de um humano normal ampliadas, isso deve valer também para o olfato e o tato, não? (...) 11 hours ago
  • J'ai eu un test de français ajourd'hui. Il a été trés facile. 11 hours ago
  • É um bom sinal quando o logotipo da empresa deixa de vir num papelzinho solto dentro da embalagem transparente e passa a vir nela própria. 11 hours ago
  • Esses sabonetes com cheiro de frutas me dão fome. 12 hours ago

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