História Social do Jazz

33918_4Estudar história de certa forma te deixa uma pessoa mais chata, em grande parte porque deixa o teu mundo um lugar mais chato. Nada tira mais a graça de uma paixão do que entender profundamente como ela funciona; é como aquele truque do coelho, que nunca mais é o mesmo depois que você descobre que a cartola tem um fundo falso. O que fazer, então, quando o próprio mundo é o teu objeto de estudo? A ignorância é uma bênção, dizia aquele personagem do primeiro Matrix, e com o tempo eu aprendi a concordar com ele em algum nível, pelo menos.

Por isso, é de se admirar a coragem de Eric Hobsbawn em estudar a fundo uma de suas principais paixões, no seu clássico trabalho História Social do Jazz. Hobsbawn, é bom destacar, é considerado por muitos, e com toda justiça, como um dos principais historiadores ainda vivos, plenamente lúcido e produtivo aos 90 anos de idade, freqüentemente lançando novos livros de análise a partir da sua vasta experiência de vida profundamente entrelaçada com a própria história que estuda. E a sua obra sobre o jazz, aventurando-se no campo da história cultural em contraste com os seus temas de análise mais comuns, é certamente um clássico, analisando as condições sociais específicas que levaram ao desenvolvimento do estilo e as suas principais transformações e realizações musicais, buscando sempre fugir do lugar-comum e das idéias pré-concebidas a respeito.

O livro se divide em quatro partes, a primeira reconstruindo a trajetória histórica do jazz, a segunda falando especificamente da música, a terceira analisando o jazz enquanto produto de consumo, e a última falando das pessoas que fazem o jazz, tanto músicos como também o público. Algumas passagens podem ser um pouco complicadas de entender para quem não for iniciado nesse mundo, é bem verdade – eu, pelo menos, que tenho um conhecimento um pouco limitado a respeito (conheço os nomes principais, e uma meia dúzia de outros um pouco mais afastados do público comum), me senti um pouco perdido em meio a impressões e citações sobre artistas que nunca ouvi, principalmente na segunda parte -, mas, em geral, ainda é uma obra que pode ser tranqüilamente compreendida por alguém que tenha tido um contato apenas superficial com o jazz. E é digno de nota como Hobsbawn consegue se manter crítico e lúcido dentro de um tema em que, por ser a própria razão que o levou a escrever, é tão fácil se deixar levar por paixões e devaneios; algumas das passagens do livro acerca do público e da indústria do jazz, por exemplo, chegam mesmo a oferecer, para alguém com alguma percepção, uma interessante base de reflexão sobre outros ramos da indústria de entretenimento.

É bom destacar, no entanto, que se trata de uma obra um pouco datada – como o próprio Hobsbawn admite na introdução adicionada à reedição de 1989, na época do lançamento original do livro, em 1961, não havia como imaginar que um gênero popular então recente como o rock se converteria em um paradigma de tão grandes proporções, e acabaria condenando o jazz a um certo ostracismo e elitismo nas décadas seguintes. É possível ver alguns exageros quanto ao significado e importância do jazz no contexto da cultura ocidental, bem como suposições e previsões a respeito do seu desenvolvimento futuro que pareceriam plausíveis então, mas hoje, com mais de quarenta anos de vantagem histórica para analisar, acabam soando um pouco fora de contexto. No entanto, mesmo com essa pequena ressalva, a análise histórica e social do jazz permanece bastante relevante, se considerarmos que, independentemente da sua popularidade atual, trata-se de um estilo com influência marcante em toda a música ocidental contemporânea, tanto na popular, como o próprio rock, como também na erudita.

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3 Responses to “História Social do Jazz”


  1. 1 Kelly 03/08/2009 às 21:25

    Adorei a dica! :)

  2. 2 trainsppotting 08/12/2009 às 15:02

    aos 90 anos de idade….
    para iniciante como eu, excitante do começo ao meio, e certamente será até o final pois terminarei esta semana de ler.

    excelente dica!


  1. 1 Das Músicas de Desenhos Animados « Rodapé do Horizonte Trackback em 17/07/2011 às 18:53

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