- Faça mil desses, e um de verdade irá aparecer e te conceder um desejo. Qualquer desejo. – disse a moça de olhos puxados, apontando para o pássaro de papel dobrado.
A idéia impressionou o pequeno Pedro. “Mil desses eu ganho um desejo. Qualquer desejo!”, pensava. E dobrava: fazia, um após o outro, imaginando o que poderia pedir. O milésimo, no entanto, parecia sempre distante.
Passaram os anos, e ele continuou dobrando. Estava obcecado; faria os mil origamis e ganharia o desejo – era seu objetivo de vida. Todo o resto era secundário. Tinha poucos amigos e ia mal na escola, já que ao invés de estudar passava o tempo dobrando papéis. Não fez faculdade, e só foi atrás de um emprego quando, após a morte dos pais, sua meta estava ameaçada pela fome.
Passaram mais de duas décadas, e Pedro seguia dobrando. Então, finalmente, terminou: o milésimo origami estava pronto. E, exatamente como dizia a lenda, um pássaro verdadeiro surgiu dos papéis, e lhe ofereceu um desejo. Ele, no entanto, estava indeciso; tão dedicado foi em fazer os pássaros de papel que não teve tempo para pensar no que queria desejar. Ponderou por alguns minutos, e então decidiu.
- Quero que todos esses desapareçam. – disse, apontando para os origamis que preenchiam a sua pequena casa.
Assim foi feito, e o pássaro se desfez em seguida.
Pedro ficou imóvel, olhando para o vazio. Foi dormir.
No dia seguinte, voltou a fazer seus pássaros de papel dobrado. “Mil desses e eu ganho um desejo”, pensava. “Qualquer desejo!”

Hahaha, gostei desse! Bem escrito e meio ácido… abraços!