007 Quantum of Solace

Eu costumo falar bastante da Grande Roda da Cultura Pop, em que o populacho de hoje se torna o cult de amanhã e o nostálgico de depois de amanhã, geralmente me referindo à música, mais especificamente à relação muito suspeita que existe entre o blues e o rock. A idéia, no entanto, é aplicável a quase qualquer mídia – você pode vê-la na literatura, por exemplo, onde Charles Dickens, José de Alencar e outros cultos que hoje se deve ler obrigatoriamente na escola começaram como o equivalente do século XIX da novela das oito; e também no cinema, onde talvez o melhor exemplo sejam os westerns que começaram como a matiné dos anos 40, passaram pelo declínio e o revival nos anos 60, e hoje já são quase um gênero de cinema de arte.

E também o cinema de ação, vejam só, dá sinais de estar sujeito aos efeitos da Roda. É algo que eu comento há algum tempo já, quando falo com alguns amigos, por exemplo, sobre a carreira ignorada do Stallone nas últimas década, com ótimos filmes que ninguém viu como Shade ou O Implacável; e até o Oscar já foi dado recentemente para Os Infiltrados, que nada mais é do que um filme de ação policial, baseado, inclusive, em um filme de ação chinês (que é muito mais sério e violento, aliás, do que a comédia que acabou virando a versão americana graças ao Jack Nicholson). E, claro, nem preciso citar a maravilhosa trilogia Bourne, que redefiniu todos os paradigmas do cinema de ação recente.

A questão é que cinema de ação já deixou há algum tempo de ser apenas sobre heróis transbordando testosterona passando por explosões e tiroteios em roteiros decorativos indisfarçadamente reacionários e conservadores. Não, ele hoje quer ser sério e crítico; quer falar de política e posar de inteligente, e não apenas divertir acerebradamente. O que não é necessariamente ruim, claro, apesar de ser curioso – vide aí os últimos filmes do James Bond, justamente um dos pilares do cinema de ação de entretenimento.

Esqueça a canastrice do Sean Connery, as piadinhas do Roger Moore, a impassividade do Pierce Brosnan; o Bond de Daniel Craig em Quantum of Solace, como já em Casino Royale, quer mesmo é ser Jason Bourne. Quer usar roupas casuais e ter combates corporais e perseguições à pé em ambientes urbanos com enquadramentos de câmera impessoais, enquanto se vira praticamente sozinho contra conspirações institucionais internacionais. Os magnatas megalomaníacos com um satélite de raio da morte e um plano de dominação mundial dão lugar a traficantes de armas e filantropos sem carisma com pouco tempo de tela, e Bond girls chegam mesmo a ser dispensadas sem sequer aquela tórrida noite com o herói. O novo Bond sequer se dá ao luxo de se apresentar aos inimigos com o famoso Bond, James Bond.

É um pouco estranho ver um James Bond com tanta personalidade, não exatamente no bom sentido. Não é mais o espião impassivo que todos aprendemos a invejar, que troca de mulheres como quem troca de bebida e acaba com os planos de um milionário megalomaníaco por mês; ele agora chora por amores passados, e os adversários que enfrenta não passam capangas de alguma sombra maior que nunca aparece de fato. Ou, pelo menos, não até o próximo filme, já que agora eles têm uma certa continuidade, não sendo apenas episódios fechados.

Mas, claro, para alguém que não se importe com este não ser o Bond de sempre, ele também tem lá as suas virtudes – é brutal e violento como nenhum outro antes, e sobrevive a algumas cenas de ação e explosões até empolgantes (ou talvez seja só a minha queda conhecida por cenas de combates aéreos), ainda que o roteiro em si seja bem menos inteligente do que pretende. O novo James Bond, enfim, pode não ser o melhor deles, mas também não é necessariamente ruim – é certamente diferente, mas um James Bond mesmo assim.

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5 Responses to “007 Quantum of Solace”


  1. 1 Maury 10/02/2010 às 09:48

    Eu não gostei muito desse filme. Não sei se foi porque a legenda estava uma droga e eu não entendi nada do filme, só sei que não me agradou muito.

  2. 2 Willy Barp 13/02/2010 às 07:35

    gostei do texto. Havia lido uma crítica semelhante em outro blog (n lembro agora qual), mas dirigia ao filme uma nostalgia de fã desgostoso dos novos rumos. Gostei da pontuação sobre os clássicos de hoje e ontem, é de se fazer pensar. Realmente.
    Um grande abraço, seu Bruno!


  1. 1 Os Gatões – Uma Nova Balada « Rodapé do Horizonte Trackback em 26/03/2010 às 22:58
  2. 2 The Bourne Identity « Rodapé do Horizonte Trackback em 31/01/2011 às 21:49
  3. 3 The Atrocity Archives « Rodapé do Horizonte Trackback em 30/05/2011 às 14:06

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