V de Vingança

Sou HQéfilo assumido, quem me conhece sabe disso, mas admito que tenho algumas manchas vergonhosas no meu currículo como tal; por exemplo, não achar Preacher lá essas coisas, ou ser fã do Jim Lee. Mais do que isso, no entanto, a minha grande vergonha talvez seja nunca ter lido algumas obras consideradas fundamentais dos quadrinhos em língua inglesa, como O Cavaleiro das Trevas do Frank Miller, por exemplo, e algumas das obras clássicas do Alan MooreWatchmen eu só fui ler recentemente, alguns meses antes do lançamento do filme; e V de Vingança eu ainda estou por ler. Portanto, é importante ressaltar que escrevo essa resenha como um simples fã de HQ que viu o filme dos irmãos Wachowski quando ele saiu nos cinemas, tempos atrás, e não como um daqueles chatos que acusam de heresia qualquer mínima omissão ou alteração da obra original. E já adianto o veredicto: é ótimo.

O filme retrata um futuro sombrio em uma Inglaterra dominada por um governo fascista que inibe os cidadãos de sua liberdade – apesar de pregar que não -, e onde um terrorista com uma máscara de Guy Fawkes (revoltoso que tentou explodir a sede do parlamento britânico no século XVII), assumindo a alcunha de V, decide pôr em prática seu plano para derrubar os governantes autoritários e trazer o caos a essa ordem social opressiva. A história é apresentada sob dois pontos de vista: o de Evey, uma jovem que é salva por V e acaba se envolvendo com o seu projeto de atentado; e o de Finch, inspetor de polícia encarregado de investigar e desmascarar o terrorista, além de membro do partido governista. É intercalando a história dos dois que a trama maior arquitetada pelo anti-herói, bem como o seu passado, vai se revelando ao público, até atingir o clímax épico e apoteótico.

Muitos dos méritos do filme se devem, sem dúvida, à Natalie Portman e Stephen Rea, responsáveis por interpretar os dois personagens citados acima. Ambos conseguem segurar bem o roteiro pesado, sem comprometimentos. Hugo Weaving no papel de V também está ótimo, apesar da máscara que parece tornar tudo um pouco caricato demais. A maioria dos outros atores também está perfeita, mesmo aqueles com menor tempo de tela – desde o chanceler interpretado por John Hurt até o genérico de Jô Soares interpretado por Stephen Fry.

Quanto aos problemas, o primeiro a se destacar é o fato de que ele não é tanto um filme de ação como eu esperava que fosse. V é um filme político, calcado mais na sua trama subversiva do que em cenas de ação e aventura, que são bastante escassas – mas isso não chega a ser um defeito, na verdade, uma vez que o clima constantamente tenso e a fotografia sombria das ruas substitui bem a ação, e também parece ser esse o teor original da HQ. Há ainda algumas soluções do roteiro que parecem um pouco forçadas, apesar de estarem bem amarradas com a trama geral, e um diálogo melodramático-sentimentalóide totalmente descartável próximo ao fim, que acredito não estar na história original.

O ponto que mais gera alguma discussão, no entanto, é o teor político da trama: V pode facilmente ser acusado de fazer apologia ao terrorismo, até porque realmente faz. No entanto, por mais complicado que seja tratar de um tema assim na atual conjuntura de algumas situações (que são até citadas ao longo do filme), a questão é que ele levanta pontos pertinentes ao debate, e, de uma forma ou de outra, a história se encarrega de discutir muito bem o ponto de vista que defende, vendo seus pontos positivos e negativos, e apresentando argumentos e contra-argumentos. No fim, quer você concorde com ele ou não, o fato é que V de Vingança realmente faz você refletir, e é fácil se pegar revendo mentalmente seus momentos mais polêmicos mesmo anos depois de assisti-lo.

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