O Violão

Sentou na beira da estrada deserta, em meio a um lugar que era nenhum lugar. O terno escuro coberto de rasgos e remendos o tornava quase invisível na escuridão da noite. Tirou o chapéu, o colocou com cuidado no chão, e puxou o instrumento para fora da capa: um violão gasto e sujo, coberto de rachaduras na madeira; as cordas úmidas e escorregadias partiam de nós descuidados na base até as longas pontas soltas no fim do braço. Posicionou-o sobre a perna direita, fechou os olhos, suspirou longa e profundamente. Então os abriu, virou-os em direção às mãos, e começou a dedilhar.

Os dedos se moviam pelas cordas como patas de aranha sobre uma teia, se apoiando nos nódulos que conectavam pontos e notas, fazendo gestos e posições como símbolos místicos a conjurar sons de sonhos distantes para aquele devaneio particular. Cada acorde era um chamado, cada batida um sinal, que ecoava pela imensidão vazia se perdendo na escuridão. Destoavam do silêncio, em desarmonia com o mundo.

E assim também era ele: dissonante e desconexo, um acorde diminuto perdido entre maiores, um bemol em meio a sustenidos. Aquela era a sua música, a única que sabia tocar; se cada nota era uma lágrima, e cada pausa uma súplica, era apenas assim que conseguia ser, e negá-lo seria tornar-se vazio como o universo que o cercava.

Parou por um instante e olhou em volta. Não havia encruzilhada, e ninguém viera ao seu encontro.

0 Respostas para “O Violão”



  1. Deixe um comentário

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s




Sob um céu de blues...

Categorias

@bschlatter

Estatísticas

  • 117,476 visitas

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.