Accelerando

Existem algumas coisas sobre a ficção científica que a tornam facilmente um dos mais efêmeros dos gêneros literários. A forma como ela necessariamente lida com o conhecimento humano, através de especulações em cima de ciências naturais e humanas, bem como toda a concepção de gadgets fabulosos pela qual é geralmente mais conhecida (admita, você sempre quis ter uma pistola de raios ou um sabre de luz), faz com que qualquer obra esteja sujeita a se tornar obsoleta com alguma rapidez, na medida em que estas ciências se desenvolvem e as idéias que a inspiraram em primeiro lugar vão sendo suplantadas por outras mais atuais. Some-se a isso ainda o fato de que o próprio interesse das pessoas pelos diversos campos da ciência tende a variar bastante com o passar das décadas, quando mudanças de contextos políticos, sociais e econômicos podem tornar um ou outro deles mais atrativo às massas do que os demais.

Assim, por mais que autores como Isaac Asimov, Ray Bradbury ou Arthur C. Clarke sejam clássicos incontestáveis dentro do gênero, muitas das suas obras já não têm tanto a dizer a uma geração onde a sua ciência está ultrapassada e os seus questionamentos muitas vezes já não são tão relevantes. (Ok, na verdade eu abro uma exceção aí para o Bradbury, cuja obra de maneira geral tinha um aspecto de especulação social e política que ainda pode ser interessante e relevante mesmo nos dias de hoje). Viagens espaciais já não têm o mesmo apelo de quando a Guerra Fria e a corrida espacial estavam no auge e notícias a respeito saíam nas primeiras páginas dos jornais; da mesma forma, questionamentos filosóficos sobre a humanidade de robôs e inteligências artificiais também parecem um pouco fora de contexto em um mundo onde os próprios seres humanos ainda estão por demais divididos. Nesse sentido, o cyberpunk da década de 1980 ao menos parece um subgênero mais atual, lidando com a tecnologia da informação e outras ciências mais próximas da geração corrente; mesmo ele, no entanto, também já tem os seus vícios e idéias ultrapassadas, que já soam irremediavelmente retrô (que o diga a famigerada Matriz e as suas paisagens formadas por linhas verde-luminosas).

Isso talvez explique um pouco por que hoje em dia a fantasia está muito mais em voga na literatura do que a ficção científica. Tem muito a ver com sucessos do gênero em outras mídias, é claro, em especial o cinema, mas a própria FC nunca deixou de estar presente nelas – Star Trek / Jornada nas Estrelas mesmo teve uma adaptação recente de relativo sucesso. (E eu prefiro não contar Star Wars nesse grupo, uma vez que ela é muito mais uma fantasia travestida de FC do que uma FC propriamente dita). Mas, como me questionou recentemente um amigo, onde temos um Harry Potter da ficção científica? Ou mesmo um Senhor dos Anéis? A fantasia ao menos tem a vantagem de lidar com a imaginação de uma forma mais pura, e por isso mesmo demorar mais em se tornar obsoleta – um arco mágico pode ser um arco mágico por cinqüenta anos, mas uma pistola de raios mudará bastante nesse tempo, tanto em funcionamento como em aparência. É esse tipo de noção que muitas vezes me parece faltar aos autores mais contemporâneos do gênero, em especial no Brasil, onde parece que todos estão ainda muito presos aos vícios e paradigmas de uma FC tradicional demais e que responde muito pouco aos questionamentos das gerações mais atuais.

E assim chegamos a Charles Stross. Fazia um bocado de tempo que eu não tinha contato com uma ficção científica tão atual e contemporânea, que especula sobre a ciência e o futuro de um ponto de vista que realmente parece sair da nossa própria época. Acho que a melhor forma de descrever Accelerando, talvez seu livro mais conhecido, é como uma space opera cyberpunk – e mesmo ela talvez seja mais uma tentativa minha de rotulá-lo, é claro. Temos lá as viagens espaciais, encontros com alienígenas e seres artificiais autômatos que são tão caros à FC de todas as épocas; todos eles, no entanto, são apresentados com uma roupagem atualizada, desenvolvidos a partir de conceitos e idéias contemporâneas, e com gadgets e afins que não soam completamente inconcebíveis nos dias de hoje. Misture a isso ainda uma visão provocante do futuro fundamentada na tecnologia da informação (o próprio Stross, aliás, é graduado e trabalhou por anos na área, então pode-se dizer que ele sabe bem do que está falando), pensada até as suas últimas conseqüências políticas, econômicas e mesmo jurídicas, e você tem como resultado um cenário complexo e único, que soa atual como poucas FCs, mesmo algumas das mais recentes, conseguem, e capaz de fazer a sua cabeça quase que literalmente explodir com a quantidade de informação passada em cada frase.

Claro, antes que corram atrás dela achando que é a última obra-prima da ficção científica, é bom deixar claro que ela também tem alguns problemas sérios do ponto de vista mais formal. Não se trata propriamente de um romance no sentido tradicional, em que a história segue linearmente de um capítulo ao outro até o desfecho; ao invés disso, a história é formada por nove contos fechados, ainda que não exatamente independentes, aonde acompanhamos três gerações da família Macx ao longo de todo século XXI e além, e a forma como ela acaba influenciando o destino final da humanidade no sistema solar. Essa estrutura fragmentada é bastante confusa algumas vezes, quando a narrativa se perde em meio a flashbacks de eventos importantes ocorridos entre os contos, sem contar em diversos momentos em que o narrador assume o tom de um locutor de documentário descrevendo as mudanças tecnológicas e sociais que ocorreram em cada década. Isso pode passar algumas vezes a impressão de que a história toda é mais complicada do que realmente é, ainda mais se considerarmos a quantidade de tecnologias novas e estranhas a que somos apresentados a cada parágrafo.

Por outro lado, o grande espaço de tempo percorrido pelo enredo também permite uma visão panorâmica não de um único futuro, mas vários deles, e a forma como um vai abrindo espaço e sendo sobreposto pelo outro, desde as mais próximas e menos impressionantes primeiras décadas deste século, até o caos de tecnologias e simulações virtuais que é a virada para o próximo século. Isso faz com que se adicionem à leitura comentários e reflexões interessantes sobre o choque de futuro e a velocidade crescente das inovações e revoluções técnicas, muitas vezes até com um tom meio cômico e satírico bastante divertido.

Em todo caso, Accelerando acaba valendo muito mais por toda a revolução de idéias e concepções provocantes que promove do que propriamente a história que conta, ainda que ela não seja de todo desinteressante ou mal-executada. Mesmo assim, não pode deixar de ser lido por qualquer um que tenha algum interesse sério em ficção científica, pela forma como atualiza diversos conceitos já ultrapassados mas que ainda são onipresentes no gênero. E quem se interessar, enfim, pode mesmo baixá-lo gratuitamente no site do autor, que tomou a iniciativa de disponibilizá-lo através da licença Creative Commons.

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