Futebol-Arte (marcial)

Por ser gremista, gaúcho e admirador do futebol do Felipão e do Eduardo Costa, muitos às vezes pensam que eu sou um defensor do dito “futebol-força”, aquele que olha feio pra bola e, ao invés de pedir com jeitinho, praticamente intimida ela até o gol adversário. Sabe como é, aquela filosofia anti-bailarinos da bola, tão bem enunciada na famosa frase que abre o ensaio brilhante do Eduardo “Peninha” Bueno sobre o imortal: futebol-arte, todo mundo sabe, é coisa de veado. (E este é o único trabalho dele, aliás, que realmente merece esse adjetivo).

Por mais que não seja uma inverdade completa, cabe aqui, como de praxe, alguns poréns. Cito outro grande texto sobre o esporte, agora do inglês Nick Hornby: Fever Pitch, lançado aqui no Brasil como Febre de Bola. O livro é uma espécie de auto-biografia dele como torcedor fanático, até o ponto do hooliganismo mesmo, do Arsenal Football Club, uma das principais equipes da Inglaterra. Quem já leu algum dos meus outros textos de futebol por aqui sabe que eu não me canso de citar ele, porque, pra mim ele, é de longe o melhor livro que aborda o futebol do ponto de vista de quem realmente o faz ter o tamanho que tem: o torcedor.

Tem uma passagem muito interessante nesse livro, em que ele comenta uma frase de um técnico inglês da década de 1980, Alan Durban, que, após um jogo especialmente entediaste, teria dito: se você quer entretenimento, vá assistir palhaços. Citando o livro diretamente, em tradução minha (já que só tenho a edição importada):

De minha parte, eu sou um fã do Arsenal primeiro e um fã de futebol segundo (e, sim, eu conheço todas as piadas). Eu jamais conseguirei admirar um gol de Gazza, e existem inúmeras outras situações similares. Mas eu sei o quão divertido o futebol é, e realmente adorei as relativamente poucas vezes em que o Arsenal conseguiu produzir isso; e quando outros times que não estão competindo com o Arsenal de qualquer forma jogam com graça e imaginação, eu posso apreciar isso, também. (…) Reclamar de futebol chato é um pouco como reclamar do final triste de Rei Lear:  é perder completamente o ponto, e isso é o que Alan Durban entendia tão bem (…).

Acho que o ponto fica bem claro aí. Gosto de futebol, mas gosto muito mais do Grêmio. Isso não significa que eu não goste de futebol bonito. Não é que eu não goste de dribles desconcertastes e gols de placa. Mas não é pra isso que eu acompanho os campeonatos. Já discuti em outro momento sobre o que eu acredito que o esporte realmente representa, e que passa bem longe de qualquer definição parecida com “espetáculo.” Mas isso não quer dizer que eu simplesmente execre quando ele seja algo próximo disso, e consegue de fato entreter ao mesmo tempo em que cumpre o que eu realmente espero dele.

Em outras palavras, por mais que eu respeite a técnica de um D’Alessandro ou Damião, eu nunca vou conseguir torcer por eles. Nunca vou aplaudir um gol deles, por mais bonito e espetacular que seja, muito menos se for em um Gre-Nal. Mas posso sim apreciar o futebol de um Barcelona – em especial quando estamos falando de um time que, mais do que dar toquinhos pro lado e dribles no meio-campo, e graças principalmente à presença de um Messi que, talentoso como é, usa esse talento com objetividade e pragmatismo, sabe procurar aquilo que o torcedor de fato quer : o gol, e, no médio prazo, a vitória. Ao mesmo tempo, consigo apreciar as retrancas que a Inter de Milão e o Chelsea fizeram pra vencê-lo – principalmente porque fizeram ela muito bem. E se algum dia, por acaso, ele estiver frente a frente com o Grêmio… Sinto muito, espetáculo, mas eu estou do lado da retranca.

No fundo, é isso. Não é que eu não goste de um futebol bem jogado, que faça quinze gols em quatro jogos, ou qualquer coisa assim. Eu gosto, e adoro quando o Grêmio faz algo parecido. Mas eu também adoro quando ele ganha de 1 a 0 com gol de bola parada aos quarenta do segundo tempo. Ganhar jogando bem é ótimo, mas ganhar jogando mal não é tão ruim assim. Dependendo da situação, pode ser até mais emocionante e empolgante pro torcedor, além de muito mais catártico. Um chocolate com a torcida gritando olé durante metade do segundo tempo é muito bonito, sim, e eu gosto. Mas uma retranca bem armada também pode ser bonita demais nos seus próprios termos.

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3 Responses to “Futebol-Arte (marcial)”


  1. 1 Ana Carolina Silveira 24/04/2012 às 17:08

    Acho que tem duas questões aí: primeira de estratégia – hoje NINGUÉM vence do Barcelona jogando cara a cara, aberto, de igual pra igual, é suicídio. Pra conseguir ganhar tem de segurar mesmo, como Inter naquela outra ocasião, Chelsea e Real Madrid na semana passada (sendo que o primeiro contou com uma boa dose de sorte e o segundo com muita habilidade individual além da retranca). Se essa é a única chance de se ganhar um jogo, qual time no futebol profissional, que envolve resultados, vai querer fazer diferente?
    Outra coisa é futebol entre times equivalentes retranqueiro e focado excessivamente em resultado. Era a maior crítica à seleção do Dunga, e concordo – como o Barcelona (o Santos em menor escala) mesmo mostra, se você pode ter espetáculo E resultado, por que não extrair o melhor dos dois mundos?
    Ainda, tem muito de por que você assiste futebol. Se é pro seu time ganhar e os fins justificam os meios, ok, mas se está se observando o futebol como o espetáculo que é, a retranca é a coisa mais odiosa do mundo.

    • 2 Bruno 24/04/2012 às 17:16

      Mas aí é que tá, eu não consigo ver o futebol como um espetáculo. É um entretenimento, sim, mas não um espetáculo. Eu linkei ali um outro texto em que eu falo justamente sobre isso. A questão não é ser retranqueiro e focar no resultado, pq isso não garante nada. Dizer que tem que jogar feio pra ganhar é uma bobagem; mas dizer que tem que jogar bonito pra isso também é. Jogar feio ou bonito na verdade não influencia nada. Estética não tem nada a ver com resultado, pelo menos no futebol. E se o Barcelona mostra que dá pra jogar bonito e ganhar… Quantos outros times conseguem jogar que nem o Barcelona? Essa não é uma opção que todos realmente tem.

  2. 3 Pedro Gabriel Sena (@pedrogsena) 24/04/2012 às 21:47

    Olha, quando se trata de algo competitivo, em que o objetivo é vencer, dar importância à forma como se vence – se é bonita ou não – não importa. E não só no futebol.

    Quantos jogadores de Magic, por exemplo, não reclamam dos decks azuis que anulam qualquer mágica? Ainda assim muitos usam decks azuis com suas contramágicas e equivalentes. Pode não ser bonito (pra mim é xD), pode ser chato ou odioso, mas funciona, é uma estratégia válida; é isso que conta.

    Outro exemplo: o metagame Pokémon. Hoje em dia, equipes com Politoed e Ninetales são muito comuns, porque agora eles podem trazer sol e chuva às batalhas. Fosse ainda nos tempos de Red e Blue, muitos teriam Alakazam, já que psíquico era um tipo sem desvantagens naquela época.

    Ou seja: não importa se o futebol não é bonito, não é um espetáculo – tá ganhando? Então deixa prá lá. Se consegue ganhar e jogar bonito, tudo bem, mas se for preciso o jogo travado, na defensiva, pra vencer, não há porque reclamar.


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