Embassytown

Já falei um pouco em outra resenha sobre as razões que eu acredito explicarem como a ficção científica perdeu tanto espaço para a fantasia recentemente, e não vou me repetir. Acho curioso como certos paradigmas são difíceis de fugir, e acabam colaborando para torná-la anacrônica e até um pouco cômica com uma rapidez espantosa. Por exemplo, os aliens em si: quantas histórias que os envolvem vocês conhecem que realmente os tratam como, bem, aliens? Não como meramente seres humanos com outras cores, altura reduzida ou aumentada, às vezes um ou dois membros a mais? E que fazem isso sem tentar cair em um pseudo-misticismo, transformando-os em alguma espécie de ser transcendental, acima dos meros mortais?

Bem, China Miéville, em Embassytown, sua primeira incursão oficial pelo gênero (muito embora mesmo suas histórias de fantasia tivessem já um certo ar de FC), de fato tentou fugir deste paradigma. Seus ariekei são realmente aliens, seres diferentes e incompreensíveis para a mente humana. Suas formas evocam algo de um terror lovecraftiano, com descrições que fogem de desenhá-los nos mínimos detalhes, e a própria forma como entendem o mundo é diferente da nossa, através de uma linguagem que também é, ela própria, alienígena e semi-incompreensível.

Esta linguagem, conhecida como a Linguagem, em letras maiúsculas, é o mote principal de boa parte do livro. Exótica e alienígena, baseada menos em uma significação direta e mais em uma espécie de empatia sonora, ela é impossível de ser reproduzida por humanos comuns; apenas embaixadores alterados e treinados desde o berço para utilizá-la são capazes de se comunicar com eles. Isso nos traz uma parte do elemento político que também é tradicional nas obras de Miéville, pela forma como este corpo de funcionários diplomáticos se transformou em uma aristocracia insubstituível para a cidade que dá o título do livro. A própria ação principal da história começa com a chegada de um novo embaixador, criado longe de Embassytown e treinado pelo governo metropolitano, o que acaba tendo um efeito inesperado sobre os alienígenas que habitam o planeta.

Isso nos leva também ao que me parece ser o elemento principal do livro, uma espécie de fábula sobre a colonização de regiões distantes, e um estudo antropológico e literário sobre a linguagem e a comunicação. As tensões políticas entre Embassytown e a sua metrópole, bem como a relação entre os nativos e os seres humanos vindos de uma terra distante, remetem de forma bastante direta à nossa própria história, à colonização de países da África e da Ásia, e a luta deles pela sua independência. Há espaço para narcóticos linguísticos (que lembram um pouco a Praga de Buscard, que Miéville havia criado para o Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas), e mesmo citações a histórias clássicas da antropologia sobre o contato com povos nativos, como os relatos do Capitão Cook.

Outro elemento interessante é a própria construção do futuro da humanidade no livro. Miéville é um cientista social, e não físico ou químico, de forma que os seus questionamentos sobre como será a vida no futuro dizem menos respeito a gadgets e tecnologia e mais às próprias pessoas e as relações que elas possuirão entre si. É interessante ver, nas entrelinhas do enredo principal, a visão do autor sobre temas como a sexualidade e o casamento, entre outros.

Claro, Miéville é um autor que em geral rejeita o rótulo de alegorista, e que faz questão de sempre se manter fiel às suas raízes na literatura pulp. Isso significa que, para além de uma alegoria sociológica, o que o livro se propõe realmente é ser uma espécie de thriller político, em que a personagem principal, em princípio sem muita importância, se envolve com as intrigas e políticas coloniais, em uma espiral de tensão que não faria feio como um filme hollywoodiano. Há pontos positivos e negativos nisso: por um lado, torna a leitura mais dinâmica e envolvente, sem perder por isso a profundidade e o questionamento sobre os temas levantados; por outro, no entanto, nos momentos finais ele acaba caindo em um jogo fácil de perseguição e corrida contra o tempo, com resoluções finais acabam vindo mais de epifanias espontâneas com ares mesmo de deus ex machinas. Em um determinado momento a própria narradora chega a anunciar que irá postergar a revelação da idéia que teve para resolver os conflitos, apenas para não estragar a surpresa do leitor…

Enfim, embora não seja perfeito, Embassytown ainda é uma leitura bastante provocante e envolvente, daquelas que te deixam refletindo por horas após a leitura de cada capítulo. É uma ficção científica que realmente soa contemporânea e responde a questionamentos contemporâneos, sem cair em anacronismos e paradigmas ultrapassados. Recomendo bastante.

About these ads

0 Responses to “Embassytown”



  1. Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




Sob um céu de blues...

Categorias

@bschlatter

Estatísticas

  • 171,405 visitas

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

%d blogueiros gostam disto: