The League of Extraordinary Gentlemen: The Black Dossier

Não tenho estado exatamente muito empolgado com a última saga da Liga Extraordinária. O que antes era um mashup muito bem cuidado e divertido, mas sem por isso deixar de ser sério e sombrio, de obras literárias dos dois últimos séculos parece ter virado uma ode ao misticismo proferido pelo Alan Moore na sua vida particular, enquanto os protagonistas cada vez mais se afastam das suas personas originais e se tornam personagens completamente diferentes. No meio disso tudo, referências que precisam ser decifradas, para não terem problemas legais por estarem ainda fora de domínio público, tiram um pouco da graça da idéia original. Certamente há quem esteja achando ela interessante, é claro, mas à parte por polêmicas gratuitas, não vejo muito aonde ele quer chegar.

Em todo caso, entre as duas obras-primas originais e o seu momento jumping the shark, temos The League of Extraordinary Gentlemen: The Black Dossier. Este volume intermediário não pode ser lançado fora dos Estados Unidos por problemas legais, já que faz alusões diversas a personagens que ainda estão sob as leis de direitos autorais, fora o fato de o próprio Moore ter rompido relações com a DC Comics, que comprou a editora Wildstorm que publicava as histórias do grupo. Em certo sentido, pode-se dizer que ele faz a passagem de um momento para o outro: as referências ao mundo literário ainda estão no centro da narrativa, se estendendo até meados do século passado e incluindo até mesmo alguns elementos do cinema e dos quadrinhos, e eventualmente terminam por levar à salada indistinguível de personagens obscuros que a série se tornou nos últimos volumes.

Destaco, no entanto, que ela realmente vai muito além disso na sua proposta. Todo o livro é um exemplo único de design e composição, praticamente um experimento multimídia literário. A base do enredo é o dossiê negro do título, que os protagonistas Allain Quatermain Jr. e Mina Harker roubam da ala secreta do Museu Britânico. Ele reconta a história das Ligas reunidas pelo Império Britânico desde o século XVII até o fim da Segunda Guerra Mundial através de colagens de publicações e memorandos secretos, o que serve de deixa para que Moore explore referências e estilos: há desde romances ilustrados a peças shakespeareanas, passando por uma bíblia de Tijuana e mesmo um trecho de um romance beatnik.

A maior parte do volume é composto por estes documentos, enquanto o enredo da história em quadrinhos em si, que envolve a fuga dos dois protagonistas do Reino Unido, fica em geral em segundo plano. Pode-se dizer, assim, que ele funciona na verdade como uma espécie de livro de apoio para a série, delineando detalhes do cenário e personagens secundários que não são propriamente desenvolvidos pelas outras histórias. A forma indireta como tais elementos são apresentados, no entanto, em geral impede que estas apresentações fiquem maçantes, muito embora certos trechos possam ser realmente difíceis de superar.

Se passando na década de 1950, a história também tenta ambientar os personagens com relação às referências da época. Há espaço para James Bond e os Vingadores (não, não os da Marvel), muito embora eles não sejam referidos diretamente pelos seus nomes – num truque para tentar escapar dos direitos autorais, aparentemente sem sucesso, eles são referidos sempre por apelidos ou alcunhas menos conhecidas. O partido Ingsoc de 1984 também possui uma participação importante entre outras referências mais obscuras, bem como Orlando, personagem de Virginia Woolf que também foi bastante descaracterizado da sua persona e história originais (e agora que eu já li o livro eu posso falar isso =P).

Uma última surpresa ainda é guardada para o fim da história: toda a seqüência final é apresentada em três dimensões, para ser vista através de um par de óculos 3D destacáveis nas páginas centrais! É um espetáculo visual à parte, com direito mesmo a alguns truques curiosos de ilusões óticas. Acredito que o momento mais marcante, no entanto, seja o discurso do Duque Próspero de Milão, personagem de Shakespeare transformado aqui no líder precursor da Liga, que encerra o livro destacando o objetivo da série como um todo: o de ser uma homenagem à ficção e à imaginação, nos lembrando da importância que eles possuem para a alma humana e o nosso próprio avanço enquanto civilização. Ou, como ele mesmo diz, se nós somos meras fantasias, o que dizer de vocês, que roubam a sua substância de nós? Não apenas vocês, mas toda a humanidade no seu progresso emula as fábulas. Ou de onde viriam os seus foguetes e submarinos se não do Náutilus, da carvorita? (…) Duas mãos ilustrantes, cada uma desenha a outra: as fantasias que você criou criam você.

The League of Extraordinary Gentlemen: The Black Dossier, enfim, é uma experiência de leitura única e envolvente, e poderia ter sido um fim bastante digno para a série. Ele já começa a demonstrar alguns dos vícios que os volumes seguintes aprofundariam, mas no geral, por todo maravilhamento do seu experimento narrativo, bem como pelo seu discurso em favor da ficção e da imaginação, é certamente uma leitura que vale a pena.

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1 Response to “The League of Extraordinary Gentlemen: The Black Dossier”



  1. 1 O Inescrito « Rodapé do Horizonte Trackback em 22/12/2012 às 22:36

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