The Ark Sakura

A eupcaccia, ou inseto-relógio, é uma criatura peculiar. Com pernas atrofiadas e mobilidade reduzida, ele sobrevive comendo as próprias fezes, usando as suas antenas para andar em sentido anti-horário em um ciclo eterno de excreção e ingestão, com o seu metabolismo lento garantindo o tempo necessário para os nutrientes serem repostos pela ação de bactérias. Como este movimento circular se dá sempre voltado em direção ao sol (já que à noite o inseto dorme), ele pode ser usado também medir a passagem do tempo.

Obviamente, a eupcaccia não existe de verdade. The Ark Sakura, no entanto, penúltimo romance do japonês Kobo Abe, abre com o encontro do seu narrador-protagonista com um vendedor que tenta fazê-lo comprar um espécime. Ela serve desde o início, assim, como uma metáfora: da mesma forma que o inseto, Mole (ou “toupeira”, o apelido pelo qual o conhecemos) também busca a autossuficiência, tendo passado a vida montando um abrigo nuclear contra um apocalipse que ele julga inevitável, a “arca” a qual se refere o título; e por isso mesmo ele logo vê na criatura o seu ideal concretizado, um sonho vendido como realidade, e que se dane a escatologia dos seus detalhes práticos.

O livro parte deste ponto, enfim, para desenvolver a sua fábula sobre a solidão e o isolamento social. Mole, afinal, possui já tudo o que precisa para manter a sua arca funcionando por anos – alojamentos, mantimentos, alguma dose de conforto, e mesmo uma conveniente privada cuja descarga possui força suficiente para desmembrar um corpo e enviá-lo sem dificuldade para um esgoto desconhecido. Tudo o que falta é uma tripulação para dividir com ele o isolamento, e que o ajude a reconstruir a civilização após o fim de tudo. É esta busca que o levará ao mundo da superfície, e trará com ele os elementos estranhos que terminarão por alterar os seus planos para o futuro.

A grande sacada do autor foi narrar esta história em primeira pessoa, de forma que o ponto de vista sobre todos os outros personagens e acontecimentos sempre passa diretamente pelas impressões do protagonista. Em meio à paranoia causada pelo isolamento, Mole não é capaz de demonstrar qualquer tipo de confiança, parecendo sempre suspeitar de segundas e terceiras intenções em qualquer ato realizado contra ele, e muitas vezes também nos seus próprios. Ao mesmo tempo, vemos a confusão no seu julgamento que é causada pelo contato inevitável com os outros personagens, e a lenta tomada de consciência a que isso leva sobre a sua condição.

O enredo todo também possui uma certa teatralidade muito interessante. Abe, além de um dos grandes romancistas japoneses do século passado, também era conhecido como escritor de peças de teatro, e é visível como este livro poderia facilmente ser convertida em uma. Uns 80% dele se desenvolve a partir da interação de apenas quatro personagens, e mesmo o seu cenário é amplo e espaçoso como um palco teatral, com grande ênfase dada a alguns poucos elementos e acessórios específicos. Mesmo as digressões pelo passado dos protagonistas é feita de forma indireta, através de relatos dos mesmos, e as ações e  diálogos longos através do qual o enredo se desenvolve às vezes parecem sob medida para serem atuados e/ou recitados.

Enfim, é um livro bastante interessante, e que me despertou um tanto de curiosidade sobre o resto da obra do autor. Vou procurar com mais calma por outros livros que tenham o seu nome na capa.

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