Guardiões da Galáxia

guardians_of_the_galaxy_ver2_xlgMesmo que a minha ciência de profissão seja uma mais mundana, eu sou realmente fascinado pelo espaço e a astronomia. Quando criança mesmo sonhava mesmo em ser astronauta, como já comentei em outro momento. Acho que em grande parte é porque cresci vendo as space operas oitentistas – você sabe, desde a trilogia original de Guerra nas Estrelas (antes de os produtores nos obrigarem a chamá-la Star Wars também em países não anglófonos), bem como outros que hoje são um tanto mais cult, como O Último Guerreiro das Estrelas ou o trashíssimo Krull (sem entrar, é claro, nos animes como Robotech/Macross e os filmes do Capitain Harlock). Por isso, poucas coisas me deixavam mais chateados do que passar tanto tempo sem ter uma história realmente boa do gênero, uma vez que nova trilogia Star Wars não é exatamente um grande primor de narrativa, e (um pouco envergonhado) vou confessar que ainda não vi nenhum dos dois filmes de Star Trek recentes. No máximo, acho que temos os jogos da série Mass Effect, muito embora se trate também de outra mídia.

E então temos Guardiões da Galáxia, novo filme do universo cinematográfico da Marvel. Em tese poderíamos considerá-lo mais um filme de super-herois, com personagens de poderes extraordinários, vilões cósmicos e todo o resto; no entanto, ele realmente se esforça para levar mais a sério a sua herança das space operas, o que acaba influenciando muitas das mudanças que faz com relação ao material original. Trata-se de uma aventura espacial como já não se fazia mais, com ênfase na diversão e na fantasia mas sem deixar de ser séria e ter seus momentos dramáticos desde o prólogo, com personagens carismáticos e com os quais você  aprende realmente a se importar – mesmo que entre eles estejam uma árvore andante e um guaxinim falante.

Vou confessar aqui que, apesar de ter sido um marvete na maior parte da minha vida nerd, não conheço muito das histórias do grupo – a sua primeira aparição foi muito antes de eu nascer, e a encarnação mais recente da qual o filme é adaptado foi lançada anos depois de eu encher o saco e desistir de acompanhar séries de quadrinhos regulares. Acho todo o universo espacial Marvel muito legal, mas conheço pouco mais do que o que foi mostrado nas mega sagas como a Trilogia do Infinito (justamente, aliás, a que começou a ser armada desde a famosa cena pós-créditos de Os Vingadores, e que segue desenvolvida pelo McGuffin escolhido para mover o enredo deste aqui); por isso, talvez tenha sido mais fácil para mim relativizar as mudanças do material original aqui do que foi em outros casos. A única coisa que doeu um pouco foi ver a Tropa Nova se tornar meros pilotos de caças – mas no fundo talvez tenha sido uma mudança necessária mesmo para ajudar a estabelecer o universo como de ficção científica antes do que de super heróis espaciais.

Em todo caso, a verdade é que você teria mesmo que ser um tanto chato demais para se incomodar com fidelidade à fonte quando se tem um filme tão carismático e divertido de assistir. Os atores estão impecáveis – bom, com uma exceção, talvez, achei a atuação de Dave Bautista tão literal e vazia quanto parece ser a mente do seu personagem; por outro lado, Vin Diesel parece ter encontrado o seu personagem perfeito na árvore andante Groot e a única frase que ela é capaz de falar. Há também uma boa desculpa narrativa pra que a trilha sonora seja feita apenas de clássicos dos anos 1970 e 1980, economizando orçam… Digo, ajudando a criar um clima leve e divertido e dando mote para boas piadas e tiradas do protagonista em muitos momentos.

Muitas das seqüências do filme já nasceram clássicas. A fuga da prisão armada pelo Rocket Raccoon é perfeita. E toda a cena inicial do Starlord nas ruínas é ótima, com referências algo mais do que sutis a’Os Caçadores da Arca Perdida, e usando o recurso do 3D como poucos filmes conseguiram para causar maravilhamento – infelizmente, no entanto, no resto do filme esse recurso parece ser esquecido, e não há nenhuma outra cena em que a sensação de profundidade faça qualquer diferença.

No fim, Guardiões da Galáxia é um filme muito legal, divertido e com o carisma que já se tornou a grande marca dos filmes da Marvel Comics. Com o sucesso que tem tido, é bem capaz que consiga sozinho a façanha de transformar um grupo de personagens de segundo escalão nas novas estrelas da editora. No fundo, no entanto, acho que pra mim o que mais valeu foi me remeter à minha formação na ficção científica cinematográfica, e resgatar um pouco daquele garoto de oito anos que imaginava os mundos que podiam existir entre as estrelas.

Medieval Festival II

medievalNo último sábado aconteceu, no Parque de Eventos de Charqueadas, Rio Grande do Sul, o segundo Medieval Festival organizado pela produtora Epic! Festivals. Por algumas horas os participantes puderam se divertir, embebedar e brincar de estar em uma (quase) autêntica festa medieval, com direito a bastante comida, bebida e atrações típicas.

Estive lá, apesar das dificuldades de arranjar uma roupa que lembrasse vagamente o período retratado – uma das condições para a entrada no evento era vestir roupas típicas, ou que pelo menos enganassem bem. Como sou, er, grandinho, digamos assim, tive que recorrer a um costureiro para preparar uma pseudo-túnica; felizmente o critério de autenticidade não era lá muito rigoroso, e entre um e outro participante mais à caráter podiam-se de distinguir facilmente alguns tênis de marca e calças jeans.

Do lado de dentro, a boca e o copo eram livres, de forma que fui preparado para ter uma senhora ressaca no dia seguinte. O vinho disponível, no entanto, não era muito bom, bem como o chope. Acho que estou ficando velho e me acostumando demais com bebidas de boa qualidade; no fim das contas, passei o dia na base da água e do suco mesmo. Mas a maioria dos demais participantes não teve problema com isso, fazendo filas para repor seus copos.

As comidas, pelo menos, estavam muito boas. No começo do evento haviam duas mesas repletas de frutas e pães artesanais com geléias e frios, todos muito saborosos. No meio da tarde tivemos salsichão com pão; mais para o fim do dia, um panelão de sopa; e à noite, churrasco de costela, ovelha e galeto. Parece ainda que o ponto em que os organizadores foram mais irredutíveis na sua busca de autenticidade foi justamente na ausência de talheres.

Nenhuma festa medieval estaria completa, é claro, sem competições, tanto para os diversos clãs que se inscreveram previamente até as abertas a todos os participantes. Corridas de tronco, arquearia, arremesso de lança e machadinhas… Participei (sem muito sucesso) do arremesso de gnomos, que para minha decepção eram apenas tocos de madeira.

O mote para o evento seria um casamento entre duas dinastias rivais – uma de origem viking, a outra saxã -, que estariam unindo seus filhos para selar a paz entre os povos. Próximo às nove da noite, todos se reuniram na área central para a premiação dos vencedores dos torneios e assistir à encenação do evento, que teve desenvolvimentos trágicos. Por fim o pai do noivo chamou a banda, e fomos todos para a festa final, com direito a danças típicas e um show bastante inspirado do grupo The Irish Fellas.

De maneira geral, foi um evento muito divertido, apesar de alguns problemas menores de organização. Em especial, houve um longo período sem muita coisa para fazer entre o fim dos torneios e o casamento, o que fez com que as pessoas perdessem o pique, levando mesmo a algumas confusões menores entre alguns participantes devido ao alto consumo de álcool. Mesmo assim, foram coisas pequenas, que facilmente se consertam em uma próxima edição. Saí de lá com uma garrafa de hidromel Alfheim (apesar de que vou admitir gostar mais da Valhala Blut, que infelizmente não tinha estante no evento) e uma tarde e noite de sábado bem aproveitados. Fica a recomendação para quem quiser algo diferente para fazer que acompanhe a página da produtora esperando a próxima edição.

(Numa nota final, não sou fotógrafo nem tenho cara de pau suficiente para roubar fotos particulares no Facebook. Mas você pode ver fotos do evento na própria página dele, bem como na reportagem feita pelo ClicRBS, de onde eu tirei a foto de capa só pra não ficar chato demais também).

Caçando Carneiros, de Haruki Murakami

a-wild-sheep-chaseEu tinha vinte e nove anos. Dentro de seis meses, daria adeus à casa dos vinte. Uma década vazia. Nada do que eu conquistara tinha valor, nada do que eu realizara tinha sentido. Tédio era tudo o que eu obtivera.

(Caçando Carneiros, Haruki Murakami)

Publicidade e Infância

hemanAcho que era o Nelson Rodrigues que dizia que toda unanimidade é burra. Eu rebateria dizendo que toda generalização é burra, ou pelo menos certamente mais do que as unanimidades. Mas aí eu também estaria generalizando. Em todo caso, aprendi a desconfiar de unanimidades: discordar faz parte do debate, e me sinto desconfortável quando ele é tão pendente para um único lado. No momento, nada é mais unânime nas internets do que a condenação da proibição à publicidade infantil; e bem, acho que dessa vez eu posso ser a voz discordante aqui no meu bloguinho merreca de trinta visitas por dia.

Veja bem, eu vou ser o primeiro a desconfiar também de uma proibição radical, pura e simples. Meu espírito de rebelde adolescente gostaria de sempre gritar o bordão de 68, aquele sobre ser proibido proibir. Mas se a coisa chega nesse ponto, talvez seja uma oportunidade também dos afetados pararem um pouco para refletir como isso aconteceu. Quer dizer, pode ser um bom momento para uma autocrítica, e tentar entender por que foi necessário algo desse nível. No caso, acho que já seria um bom começo se publicitários, conglomerados de entretenimento infantil e afins analisassem suas consciências parassem para se perguntar: eu quero mesmo ganhar a vida enganando crianças de dez anos?

Ok, não precisa ser algo tão extremado, e eu mesmo não acredito totalmente no que eu acabei de dizer. Um professor meu dizia que o publicitário é um profissional que ganha salário para mentir, mas é claro que era um exagero jocoso, feito para forçar a reflexão. Todo exagero parte de algum ponto de verdade, no entanto, e no fundo, se você a despir de toda pompa e glamourização – não trocar “receber para mentir” por “vender sonhos” ou qualquer bobagem pseudo-poética do tipo -, verá que esta não é uma afirmação tão ridícula assim. O publicitário ainda é aquele cara que vai tentar te convencer que usar o desodorante certo vai te transformar em um ímã do sexo oposto; que comprar um carro é a mesma coisa que comprar sucesso pessoal (pra mim uma das mentiras publicitárias mais perversas, por todas as implicações urbanas e sociais); ou que aquele suco na caixinha colorida com o mascote fofinho não é 50% composto de açúcar e corantes. E é claro que eu sei diferenciar o que é jogo da publicidade do que é informação verdadeira, mas eu sou um marmanjo de trinta anos, e não um moleque de dez. Quando eu tinha dez anos eu realmente achava que podia ser um Power Ranger (ok, na verdade um Changeman, mas só outros marmanjos de trinta anos ou mais saberão do que se trata), e um produto que me prometesse isso facilmente teria a minha atenção.

Aí vamos para os argumentos que tentam protestar contra uma proibição, ahem, arbitrária. Falam que deviam é investir em educação, por exemplo. Claro que deviam, isso não é excluído com ou sem proibição. Mas não é isso que justifica a falta de regulação ou de controle, que valha tudo na hora de anunciar um produto e a criança que use a sua, ahem, capacidade de discernimento para determinar o que vale ou não a pena pegar birra contra os pais. Proibir talvez seja um exagero, mas é uma medida concreta de um controle que no fundo é necessário em algum nível, sim – e quem não concordar, sinto muito, mas só pode ser alguém não convive com nenhuma criança de verdade.

Sobre o fim da programação cultural infantil, que, como tudo na televisão, sempre se sustentou na publicidade, eu pessoalmente acho que é um problema mais complicado. Tipo, é claro que eu adorava He-Man e Thundercats, como todo mundo, mas hoje eu sei reconhecer a armadilha que eles eram. Continuo achando séries legais, mas que talvez não valessem as úlceras que tive porque um amigo tinha o Castelo de Greyskull e eu não. Aí dizem que as crianças serão “privadas” de assistir essas obras-primas da cultura contemporânea, e eu, historiador, tenho que esquecer que é a mesma coisa que os adultos de outrora diziam quando nós mesmos às assistíamos, ao invés de estarmos na rua jogando bola como crianças normais e saudáveis…

(Em um adendo, lembro de uma entrevista anos atrás com a Angélica, na época ainda apresentadora infantil. Ela dizia que não achava o que fazia ruim, mas, se tivesse filhos, faria eles assistirem a outro canal, conhecido pela programação infantil de qualidade mas sem apelo publicitário. Imagino se ela pensa o mesmo hoje que de fato tem filhos, sendo casada com quem é…)

O problema começa bem antes disso, na verdade. O fim da publicidade vai terminar de sepultar a programação infantil nacional? Pra mim isso é muito mais culpa de um modelo de sociedade tão voltado para o consumo que seja simplesmente impossível manter vivo um produto cultural que não o promova de alguma forma. O Castelo Rá-Tim-Bum que não vendia bonecos do Nino. Ou o Up que vai ser esquecido pelas crianças, enquanto o insosso Aviões recebe continuação porque é mais fácil vender um modelo de avião falante do que um boneco de velho ranzinza.

“Ah, mas assim é o capitalismo. Tu que está sendo idealista demais, seu petralha esquerdopata ateu pagão satanista.” Sinceramente, estou mesmo. Se vocês dizem valorizar tanto a imaginação construída com bonecos de ação de noventa reais, deixem eu usar a minha também. Talvez seja ingenuidade querer sonhar com um mundo tão melhor que o nosso. Mesmo assim, sempre que alguém vem chamar a publicidade de direito (inclusive alguns ícones nacionais que eu tentava admirar), como o direito que todos têm à vida ou à educação, ou que uma revista semanal escreve que ela é “uma das maiores conquistas da humanidade,” a verdade é que uma parte dessa criança supostamente feliz que eu fui apodrece e morre mais um pouco dentro de mim.

A Guerra dos Tronos: Card Game

Jogo-Guerra-dos-TronosQue a série A Song of Ice and Fire / As Crônicas de Gelo e Fogo / Game of Thrones / Guerra dos Tronos / como quer que você prefira chamá-la é um sucesso, é difícil negar. E como qualquer produto que faça sucesso em alguma mídia (e em especial a televisão), logo surgirão as dúzias de derivados: quadrinhos, videogames, RPGs, etc. De todos estes, dois parecem ter uma aceitação especial entre os fãs: o jogo de tabuleiro, que ainda não tive a oportunidade de experimentar (apesar dos comentários de alguns amigos não serem exatamente muito animadores), e o jogo de cartas, que ganhei de presente no último natal. Ambos foram lançados em edição nacional, em português, pela Galápagos Jogos.

A caixa básica do jogo de cartas contém quatro baralhos distintos, representando as principais casas que disputam o poder em Westeros: Baratheon, Lannister, Stark e Targaryen. Ela é o suficiente para jogar com até quatro participantes, mas há também algumas expansões que complic… Digo, oferecem novas opções, incluindo novas casas (Reis dos Mares traz os piratas Greyjoy, e Príncipes do Sol os dorneses Martell), novas cartas para as casas já apresentadas (Reis da Tempestade expandem as opções para os Baratheon, Leões do Rochedo para os Lannister, Senhores do Inverno para os Stark, e Rainha dos Dragões para os Targaryen), e outras que tratam de eventos específicos da série (como A Guerra dos Cinco Reis ou A Batalha de Vau Rubi, entre outras). Além destes, completam o jogo também um pequeno tabuleiro, peças representando os diversos títulos do Pequeno Conselho (o Rei, o Mão do Rei, Mestre da Moeda…), e diversas fichas representando os dragões de ouro e pontos de poder conquistados.

Se a quantidade de elementos parece indicar um jogo complicado, é porque ele é mesmo. Pode-se dizer que ele é muito bem sucedido em emular a série: bastarão algumas rodadas e nenhum jogador saberá mais quem está ganhando, exceto que muito provavelmente não serão os Stark. O próprio fato de ser um jogo de cartas expansível (embora felizmente não colecionáveis, a quantidade de expansões à venda à parte) já o torna excessivamente dinâmico, já que cada carta possui elementos e regras próprias a serem seguidas; mas então você adiciona uma carta de plano para cada rodada, fazendo variar os recursos disponíveis e ordem de iniciativa; três formas de conflito diferentes; os títulos do Pequeno Conselho, cada um com bônus e regras próprias…

Veja bem, não estou reclamando do dinamismo do jogo, que normalmente é uma característica positiva – nada mais entediante do que passar duas horas jogando War sem nada mudar no equilíbrio de poder entre os jogadores. Mas AGdT:CG em algum momento cruza a linha do meramente dinâmico para o ridiculamente dinâmico. Não estamos falando de um jogo que é diferente a cada partida; mas de um que é completamente diferente a cada rodada. Mesmo as regras específicas das cartas não ajudam muito – uma determinada carta de plano dos Stark, por exemplo, faz com que todos os personagens em jogo sejam enviados para o cemitério; não é um evento ou carta especial que você pode escolher usar ou não, mas um plano que você obrigatoriamente utilizará no máximo a cada sete rodadas (uma vez que você deve obrigatoriamente usar todas as suas cartas de plano antes de poder repeti-las). Isso quer dizer que, se houver um jogador com o baralho Stark, a partida praticamente recomeçará do zero a cada sete rodadas.

O resultado é que você provavelmente ficará perdido em meio a tantos bônus e modificadores em efeito a qualquer momento. Perdi a conta de quantas vezes esqueci de contar o bônus do título escolhido para aquela rodada, por exemplo; e uma partida literalmente acabou quando um dos participantes lembrou que estava esquecendo de contar um bônus de um personagem nos seus pontos de poder, que o permitiram atingir o valor necessário para a vitória (e, cansados, nenhum dos demais reclamou). Este não é um jogo para quem possui qualquer nível de déficit de atenção.

Há também alguns problemas no quesito equilíbrio entre os baralhos. Os Lannister, por exemplo, me pareceram um tanto roubados: são a casa que recebe maior quantidade de dragões de ouro em todas as suas cartas de plano, e há pelo menos um personagem que permite acumular pontos de poder com grande velocidade. Do outro lado, os Stark parecem ficar em desvantagem devido à sua fraqueza em conflitos de intriga – se me lembro bem, apenas dois personagens possuem pontos neste tipo de conflito, nenhum deles muito alto; é muito fácil tirar pontos do jogador que escolhê-los desta forma (mas ok, pelo menos o combo Jon + Ghost é quase imbatível em conflitos militares).

No fim, no entanto, não dá pra dizer que A Guerra dos Tronos – Card Game seja realmente um jogo ruim. É dinâmico (até demais), e oferece sim de alguma forma a sensação de estar dentro da série (tanto no aspecto positivo como no negativo). Tem o seu lado divertido para quem não tiver problema em manter nota de todos os modificadores; sou só eu que tenho preferido jogos mais intuitivos mesmo, onde eu não corro risco de perder pontos por ter esquecido de contabilizar meu bônus de +3 em conflitos militares por ser o Comandante da Guarda Real nesta rodada. Mas é também uma forma de se manter ligado ao cenário de Westeros neste hiato entre-livros e -temporadas (e uma vez que o Martin está atrasado até na série secundária ambientada no cenário), o que para os fãs pode ser mesmo o mais importante.

R. I. P.

Yukikaze

yukikazeYukikaze, de Chohei Kambayashi, é outro da lista de maiores romances da ficção científica japonesa escolhida pelos leitores da revista SF Magazine, a mesma que elegeu Ten Billion Days and One Hundred Billion Nights, de Ryu Mitsuse, como o maior romance de FC japonesa de todos os tempos. Trinta anos após uma fenda dimensional na Antártida trazer para a Terra os alienígenas conhecidos como JAM, a contra-ofensiva unida das nações terrestres explora o planeta estranho que há do outro lado. É nele que o tenente Rei Fukai passa os seus dias em missões de reconhecimento, tendo como única companheira constante a aeronave Yukikaze, equipada com uma das mais avançadas inteligências artificiais já desenvolvidas.

Tão grande, e tão surpreendentemente contemporânea (para um livro publicado originalmente em 1984), é a miríade de significados do livro, que às vezes os mais óbvios podem ser os mais fáceis de deixar passar. Terminada a leitura, por exemplo, é preciso um exercício consciente de reflexão para se dar conta dos nomes: Faery, o planeta alienígena, e as Sílfides, o modelo de jato supersônico de última geração usado pela Força Aérea local, indicam um certo quê de conto de fadas no conflito, ou pelo menos na forma como ele é percebido para os terráqueos do lado de cá da fenda dimensional. O tema aparece desde o prólogo, com o excerto de uma obra de não-ficção fictícia (trocadalho intencional), até dois episódios em que jornalistas terrestres tentam entender algumas verdades por trás da guerra; e levam a uma discussão superficial, mas bastante instigante, sobre a guerra e o papel dos guerreiros. Ao se dar conta disso, é difícil não se pegar pensando nas guerras televisionadas que temos hoje, e a consequente idealização de conflitos e “guerras justas” que ocorrem tão distantes do público.

O tema que realmente domina o livro, no entanto, ainda que explorado dentro desse contexto militar, é o das inteligências artificiais, e o papel que sobra para a humanidade na medida em que o seu desenvolvimento avança. O ponto curioso é notar que ele vai na contramão das histórias que normalmente exploram o assunto: ao invés de humanizar as máquinas, e se questionar sobre a humanidade e a “alma” existente em um construto consciente, ela faz justamente o contrário, e se pergunta a respeito da desumanização das pessoas em um ambiente cada vez mais dominado pela tecnologia, em que a tomada de decisões é cada vez mais automatizada. Personagens constantemente se perguntam se, em meio à guerra contra um inimigo do qual sabem tão pouco, não estão de fato se tornando máquinas; ao mesmo tempo, na ponta inversa da balança, acabam desenvolvendo relacionamentos fortemente humanos com as máquinas que pilotam, incluindo sentimentos como ciúmes e desconfiança.

Além de parecer mais verossímil (convenhamos, um robô com consciência e sentimentos verdadeiros ainda parece muito fantástico para ser encarado sem estranhamento), há de se admitir que essa abordagem foi um golpe de sorte e tanto do autor: trinta anos depois, com o desenvolvimento atualmente promissor de drones e outras tecnologias militares desumanizadas, parece algo sobre o qual ainda vale a pena refletir e discutir. Ele próprio admite no posfácio, no entanto, que o livro representa idéias suas bastante datadas, e que, ao invés de mudá-las completamente em uma revisão, ele preferiu atualizar em uma continuação (Good Luck, Yukikaze, publicada em 1999).

A história é contada em um modelo episódico, em que cada capítulo contém os acontecimentos de uma determinada missão com início, meio e fim, como se fossem na verdade contos. Aos poucos, no entanto, pistas são jogadas para o leitor, formando uma trama maior, e também um tema maior, na medida em que as verdades ocultas sobre os JAM e quem eles realmente estão enfrentando começam a ser pincelados. O formato parece bastante com uma série de animação japonesa, na verdade – e não por acaso, a história foi de fato adaptada em uma série de filmes para vídeo (os populares OVAs – Original Video Animations) entre 2002 e 2005. Como texto, no entanto, é difícil não se confundir um pouco com a quantidade de siglas e termos militares específicos; mas não é algo também que dificulte demais a leitura.

De maneira geral, Yukikaze é uma obra muito instigante e provocante. Em meio a tantas obras de fantasia que parecem ser a preferência do público atualmente, mostra ainda o que pode haver de envolvente em uma ficção científica mais hard. E é um excelente cartão de visitas para a ficção científica japonesa como um todo também, fazendo parte da já mencionada (e extensamente resenhada) coleção de livros de gênero traduzidas para o inglês pelo selo Haikasoru.


Sob um céu de blues...

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@bschlatter

  • Pra fechar a bancada gremista na política, votar no Tarso pra governador e Eymael pra presidente (sério, ele é gaúcho e gremista :P) 2 hours ago
  • Jardel por sinal sequer tem casa no RS, mas tá concorrendo aqui :P 2 hours ago
  • PSD é o Grêmio nas eleições esse ano, aparentemente. Dá pra fazer a bancada gremista com Tarciso, Jardel e Danrlei... 2 hours ago
  • Vale... Vale tudo... fbcdn-sphotos-c-a.akamaihd.net/hphotos-ak-xpa… 2 hours ago
  • Ah, vou dizer: tenho orgulho de ser hétero sim. Com gente como o Brad Pitt e o George Clooney por aí, eu tenho que me esforçar bastante. 3 hours ago

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