Murphy me ama.

Então, voltando das viagens de natal e ano novo, meu PC, que eu comprei no início de 2009, simplesmente não liga mais. E, é claro, o meu técnico está de férias, e eu teria uma meia-dúzia de projetos e trabalhos importantes em que eu precisaria dele durante janeiro e fevereiro. O que não deve interessar a ninguém, mas serve de explicação pros 1d2-2 leitores do blog pro caso de eu não conseguir resolver isso na próxima semana e, como conseqüência, ficar mais um tempo sem postar nada. Não vão se matar sem mim, ok?

Em uma nota secundária, saiu semana passada a segunda edição da Revista Historiador, com o tema Brasil: História, Sociedade e Cultura, e que contém um artigo de minha autoria, intitulado Futebol e Populismo: O Esporte das Multidões e A Política das Massas. Então quem tiver uma crise de abstinência e precisar, com todas as forças, ler alguma coisa de minha autoria, pode dar uma olhada lá.

Uma Aventura de Natal

Marley estava morto: era este o começo de tudo. Já fazia muito tempo – anos, na verdade -, mas, de alguma forma, era ali que começava. Agora só o que restava de Ebenezer, seu velho companheiro, era um amargo e solitário aventureiro, um guerreiro sanguinário que viajava de masmorra em masmorra matando monstros e tomando seus tesouros sem remorso, para então gastá-los moeda por moeda em bebidas e mulheres em longas noites de taverna.

E assim estava também naquela noite, apenas havia a diferença de ser a véspera do Natal. Nada com que se importasse, no entanto: feriados pouco significavam para um eterno viajante, que fazia o próprio horário e seguia crenças muito pessoais. No máximo, haveria festas na cidade em que estivesse, o que era uma coisa boa. Como sempre, bebeu e brigou a noite toda, até ser expulso da taverna onde estava. Cambaleou pelas ruas, recusou esmolas a três crianças ameaçando-as com a lâmina suja da espada, e enfim caiu e adormeceu entre as latas e sacos de lixo de um beco escuro.

***

Acordou de repente com o som de correntes se arrastando pelo chão. Levantou num pulo, segurando com a mão direita o cabo da espada, mas, ainda atordoado pela bebida, se desequilibrou e caiu outra vez sobre os sacos de lixo. Então observou, indefeso, os olhos ainda cobertos de vertigens, enquanto uma forma humanóide semi-transparente adentrava o beco, arrastando as correntes presas no corpo como um detento há muito condenado.

- Ebenezer… – o chamado percorria o beco como um sussurro.

- M-marley! – Ebenezer arregalou os olhos, subitamente livres de toda vertigem, e segurou com força o medalhão em forma de cruz que trazia no pescoço, última lembrança deixada por aquele que agora estava à sua frente. – Mas você está morto!

- Em anos como aventureiro, imaginei que estivesse acostumado com o fato da morte raramente ser um fim definitivo.

Ebenezer não respondeu; apenas inspirava e expirava com rapidez, suando apesar da neve fria que o cercava.

- Estou aqui para lhe avisar da sua missão esta noite. – continuou Marley. – Você deverá explorar três masmorras, e elas lhe indicarão o caminho para a redenção da sua avareza e pecados do passado.

- Redenção? Mas eu não preciso de reden… – não completou a frase, pois o fantasma já desaparecera deixando apenas um pergaminho enrolado no chão. O guerreiro se aproximou e o pegou: era um mapa, indicando a localização de uma masmorra nas proximidades da cidade. Resolveu seguir o conselho do amigo e se dirigir para lá, curioso sobre o que encontraria.

***

A entrada do local não era muito surpreendente: uma velha escadaria de mármore levando para o subsolo, com algumas rachaduras e pedaços de degraus carcomidos. Ebenezer desceu com cuidado, já bem acordado e sóbrio, mantendo a espada em prontidão para o caso de encontrar alguma criatura inesperada. Os corredores eram cobertos de poeira e teias de aranha, revelando sua idade: certamente esta era uma masmorra do passado, há muito abandonada e esquecida pelos seus construtores.

Explorou os túneis como o experiente aventureiro que era, escapando de armadilhas e enfrentando os monstros que encontrava. Bastaram alguns aposentos, no entanto, para começar a prever com antecedência onde estaria cada armadilha e monstro, e que tesouro encontraria; era quase como se já houvesse explorado aquela masmorra antes. E, de fato, já o tinha feito: logo a reconheceu como a de uma de suas primeiras aventuras, quando ainda um jovem garoto em busca de fama e fortuna. Ficava mais claro a cada corredor que explorava e aposento em que entrava; até as passagens secretas estavam todas nos mesmos locais.

Convencido de que era aquele o lugar, Ebenezer percorreu os corredores como lembrava ser o caminho até a câmara principal, esperando encontrar o cadáver do dragão que havia então derrotado. E lá estava – mas longe de ser um cadáver! A criatura o atacou com a baforada ácida no instante em que entrou no aposento, e foi por pouco que Ebenezer conseguiu se esquivar e evitar ser derretido. Quase sem pensar, investiu ferozmente contra o monstro, procurando o local na sua barriga onde uma cicatriz revelava o ponto fraco que, na batalha anterior, levara longas esquivas para descobrir. Golpe certeiro: a espada cravou fundo na carne da criatura, banhando o velho guerreiro em sangue dracônico. A fera urrou de dor e caiu morta no chão.

Triunfante, Ebenezer retirou a espada da criatura e procurou o lugar onde, sabia, estaria seu tesouro. Estava todo lá: montanhas de jóias, ouro e outros objetos valiosos. No entanto, sua atenção foi desviada para algo que não havia notado da outra vez – ao lado das pilhas de moedas havia uma nova escadaria de mármore, levando a um nível ainda mais profundo e desconhecido da masmorra. Não pensou muito, e desceu com cuidado os degraus.

O novo nível da masmorra era muito melhor cuidado que o anterior. Não havia qualquer sinal de poeira ou sujeira nas paredes; aparentava ser uma masmorra do presente, ainda em uso por quem quer que a tivesse construído. Ebenezer percorreu cuidadosamente os túneis, mas surpreendeu-se em encontrar todas as armadilhas desativadas, os monstros derrotados e os tesouros saqueados. Mais: espantou-se ao reconhecer neste nível o mesmo desenho do anterior; era como se ainda explorasse os mesmos túneis, apenas depois de serem esvaziados de qualquer conteúdo de interesse.

O guerreiro se acalmou com a falta de ação e, com a guarda baixa, seguiu o mesmo trajeto anterior até a câmara principal. Não se surpreendeu com o que havia lá: o cadáver do dragão abatido, já velho e apodrecido. Olhou em volta à procura do tesouro, mas não o encontrou; todo ele já fora saqueado. No entanto, reparou em um detalhe que lhe havia escapado anteriormente: uma pequena ninhada de ovos de dragão abertos. Desembainhou a espada e se aproximou com cuidado, esperando um ataque surpresa de um dos filhotes.

Nem todo cuidado do mundo, no entanto, o prepararia para o que encontrou. Ebenezer largou a espada e levou a mão à boca para segurar o vômito: dentro dos ovos quebrados estavam os restos mortais de uma dúzia de fetos dracônicos. Sem a mãe para chocá-los e alimentá-los, estavam abandonados à própria sorte antes mesmo de nascerem.

O guerreiro se ajoelhou e socou o chão repetidas vezes, deixando o sangue das mãos esfoladas misturarem-se às lágrimas que caíam dos seus olhos. Reunindo o tanto de determinação que ainda possuía, ergueu o rosto em prantos, e olhou para o lado – como imaginou, havia outra escadaria de mármore. Um pouco relutante, pegou a espada do chão e caminhou até ela, descendo os degraus para explorar o nível seguinte da masmorra.

Os túneis do terceiro nível eram de uma aparência estranha a Ebenezer – as paredes eram feitas de um metal límpido e reluzente, que refletia de forma embaçada a imagem do guerreiro quando ele as olhava diretamente; se o perguntassem, diria que estava em uma masmorra do futuro. Não demorou a reconhecer também nela o mesmo desenho dos níveis anteriores, e decidiu seguir sem interrupções o mesmo caminho em direção à câmara principal.

Mal entrou nela e foi rapidamente atacado – teve tempo apenas de se defender porcamente, levantando a espada para bloquear o adversário. Desviou de outras duas investidas antes de assumir uma postura adequada de combate, e ver enfim o oponente: um esqueleto animado, com o equipamento e o porte de um guerreiro. Bloqueou outro ataque, e desta vez conseguiu desferir um contra-golpe que desequilibrou o inimigo. Com ele caído, fincou-lhe a espada com força no peito, esperando atingir o resto de carne que ainda havia presa entre os ossos. No entanto, ao olhar para baixo, viu algo que o fez arregalar os olhos e quase cair assustado no chão.

O esqueleto possuía, preso ao pescoço, um medalhão exatamente igual ao de Ebenezer, aquele que servia de lembrança do velho Marley. Quase por reflexo o guerreiro levou à mão ao peito, e então olhou naquela direção para confirmar o que havia encontrado: era ele, e não o esqueleto, que estava com a espada cravada na carne. Olhou novamente para cima, e viu o teto da masmorra; um pouco mais ao lado, teve tempo de ver um guerreiro desconhecido retirando a arma do seu corpo, antes de tudo escurecer em um urro de dor…

***

Foi acordado de manhã pelas vozes de três crianças no beco onde adormecera na véspera. Correram assustadas ao ver o velho abrir os olhos e se levantar, mas uma delas tropeçou e caiu.

- D-desculpe! D-desculpe! Foi tudo idéia deles! Não faz nada de mau comigo, por favor! – Ebenezer podia perceber o pavor na voz; a reconheceu também como uma das crianças que pediram esmola na noite anterior. Um pouco atordoado com o que passara – havia realmente acontecido? -, atirou um saco cheio de moedas para ela, e seguiu caminhando em meio a agradecimentos aliviados.

Desde então o velho Ebenezer nunca mais foi o mesmo. Antes um avarento e ganancioso aventureiro, agora era gentil e generoso com os pedintes, e nunca mais conseguiu levantar uma arma contra qualquer criatura viva. Chegou mesmo a encabeçar e financiar campanhas em defesa dos direitos dos monstros de masmorras, promovendo longas cruzadas e programas de assistência e conscientização. Ainda que tudo não passasse de um sonho, que nunca tivesse sido visitado pelo fantasma do velho companheiro e explorado as três masmorras do passado, presente e futuro, ainda assim teria para sempre consigo a memória daquela aventura de Natal, para lembrá-lo de que havia mais na vida do que os tesouros brilhantes que tão avidamente cobiçara.

Carta Aberta ao Papai Noel

Querido Papai Noel,

Faça um desejo, e repasse esta mensagem para pelo menos quinze pessoas. O seu pedido se realizará dentro de uma semana. Se você ignorar esta carta e jogá-la fora, no entanto, terá azar no amor por cinqüenta anos.

Atenciosamente,

Bruno.

Iniciativa 3D&T Alpha – O Dragão Noël

O tema da vez na Iniciativa 3D&T Alpha é natal. Conheçam, então, este peculiar dragão vermelho que, dizem as lendas e as canções dos bardos, habita as Montanhas Uivantes, em Arton.

O Dragão Noël
Segundo cantam os bardos petrynianos, a cada fim de ano uma grande sombra avermelhada sobrevoa os céus do reino, visitando as suas principais cidades e vilas. Antes de causar medo, no entanto, ela é esperada, e recebida até com certa alegria – é o velho dragão Noël que chegou, com sua forma rubra rechonchuda, carregando presentes para distrbuir às crianças que foram boas durante o ano.

Personagem folclórico de Petrynia, o dragão Noël é figura recorrente em muitas canções, todas na ponta da língua de qualquer criança das cidades do reino durante o fim de ano. Elas geralmente contam como ele abandonou a sua ninhada ainda jovem, por não possuir a mesma índole maligna de seus irmãos, e acabou por se estabelecer, entre todos os lugares possíveis, nas Montanhas Uivantes, onde montou o seu covil. Lá, com a ajuda de um grupo de goblins vestindo roupas de inverno e gorros coloridos, montou uma grande fábrica de brinquedos artesanais, que leva durante as festas para as crianças.

A maioria dos habitantes de outros reinos, é claro, não acredita que o dragão seja real, tomando-o apenas como mais uma das muitas histórias fantasiosas típicas dos bardos petrynianos. Um dragão vermelho, que vive em meio à região mais fria do continente, e que, ao invés de saquear vilas, presenteia as crianças com brinquedos? Certamente não é um conto muito verossímil. Curiosamente, no entanto, não há um petryniano sequer que não acredite na história, e muitos inclusive relatam ter visto o tal dragão deixando seus brinquedos para as crianças enquanto estas dormiam.

A presença do dragão Noël no folclore petryniano, especialmente durante as festas de fim de ano, é de fato tão forte que, mesmo entre aqueles que não acreditam na sua existência, alguns crêem que ela possua algum fundo de verdade, e que talvez realmente exista um dragão vermelho nas Uivantes próximo às fronteiras do reino. Anualmente, dezenas de expedições de aventureiros partem do reino em direção às Uivantes atrás do seu covil, muitas das quais jamais retornaram. Mesmo as que voltaram, no entanto, nada encontraram, para o alívio das crianças petrynianas.

O Dragão Noël
F5 H4 R8 A6 PdF6 (calor/fogo)
Vantagens/Desvantagens: Arena (o covil), Sentidos Especiais (todos), Tiro Múltiplo, Vôo

Outros Artigos Sobre Natal
Distorções Metafísicas… – Renas
Estalagem do Beholder Cego – Duendes
Grimório do Arcano – Noel, Deus Menor dos Presentes
Inominattus – Os Espíritos do Natal
Toca do Goblin – O Anti-Noel
___________ – Itens Natalinos

Tudo o que você queria saber sobre mim…

…mas tinha medo de perguntar. Pra dar um corte nesse marasmo que tá o blog nos últimos dias por motivo de força maior, fiz uma continha no formspring.me, a última maior invenção da web 2.0 de todos os tempos da última semana. Assim, se você faz parte dos meus 1d3-2 visitantes, pode entrar lá e fazer perguntas anônimas (ou não) sobre a minha pessoa (ou não), que eu tentarei responder sinceramente (ou não). Interessado? Clica aqui, ou no link ali na barra lateral.

Dor (2)

Dói a alma ferida,
Dói o coração partido,
Mas, pior do que estas,
É a maldita dor de ouvido.

Sobre Safras e Mercados

No livro Febre de Bola, o inglês Nick Hornby relata uma história interessante, entre tantas outras, de quando ele jogava pelo terceiro ou quarto time da universidade de Cambridge, onde estudava. Segundo ele, dentre todas as equipes da academia, apenas um ou dois atletas da época em que ele jogava chegaram a ter algum tipo de carreira como profissionais. E o melhor deles, um verdadeiro craque entre aqueles estudantes e protótipos de intelectuais, teve como grande momento um gol marcado por um time da quarta divisão inglesa.

A história ilustra bem a distância que existe entre torcedores e jogadores, e foi esse o objetivo também de Hornby ao contar ela – se o melhor jogador profissional com quem já teve algum tipo de proximidade teve como maior momento na carreira uma partida da quarta divisão, podemos apenas imaginar o abismo que o separa das estrelas do Arsenal, o seu time do coração. Jogar por ele, então, é algo totalmente fora dos limites da realidade: o mundo do futebol profissional é um legítimo universo paralelo, um mundo fantástico não muito diferente em essência de certos cenários de RPG e literatura.

O tipo de jogador que habita esse universo, hoje, já tem poucas relações de fato com o mundo de fora, sendo formados e fabricados dentro desse mundo paralelo. A maioria deles vive no futebol desde muito cedo – em torno dos 13 ou 14 anos, talvez menos, e eu não falo de simplesmente freqüentar uma escolhinha ou jogar com um time semi-amador nos fins de semana; muitos deles já nessa idade vivem nos clubes onde jogam as categorias de base, a quilômetros de distância da família, que às vezes é até mesmo de outro estado. Essa é a idade onde se começa a semeadura dos jogadores, em geral; é difícil alguém que comece muito depois ter qualquer chance em qualquer equipe um pouco maior, mesmo sem levar em consideração os clubes realmente grandes. E o próprio mercado do futebol também já chega cada vez mais cedo entre eles.

Hoje em dia se compra e vende jogadores de base da mesma forma como se faz com jogadores profissionais – talvez até mais, visto que a idade para a liberação de passe já foi bastante reduzida. Grande parte dos jogadores que se tornam profissionais no Grêmio, ou no Flamengo, ou no Cruzeiro, não são gaúchos, cariocas ou mineiros, muito menos torcedores dos times. Foram trazidos ainda crianças por algum empresário de outro estado, e simplesmente viveram no clube desde então. Não é difícil dar exemplos: muitas das últimas revelações de Grêmio e Inter não eram gaúchas – o Lucas, por exemplo, hoje no Liverpool, nasceu no Mato Grosso do Sul, e Alexandre Pato, atualmente no Milan, no Paraná. O caso do Pato, inclusive, é bem curioso: nascido em Pato Branco, em uma região com grande presença de famílias gaúchas, ele é, ou pelo menos foi, torcedor gremista quando criança, como a foto que ilustra esse texto não deixa enganar. Mas, ao vir para Porto Alegre jogar futebol aos 13 anos, não foi aceito no Grêmio por ser considerado ainda muito jovem para viver tão longe da família, o que, aparentemente, não foi problema no Inter.

O que leva também a outro ponto interessante. Não sou exatamente uma pessoa muito velha, apesar de ser um velho rabugento de espírito, então não posso fazer aqueles comentários nostálgicos sobre alguma época romântica em que os jogadores realmente amavam os times por qual jogavam, não apenas seus salários, e esse tipo de coisa. Bem pelo contrário: nasci e cresci já no mundo do futebol de consumo, com jogadores profissionais e distantes das torcidas, e além disso, como pesquisador da história do futebol, sei bem que na maioria dos casos esse tipo de afirmação não corresponde exatamente à realidade da época. Até algum tempo atrás, no entanto, ainda ouvia comentários de amigos próximos sobre jogadores ruins que pelo menos jogavam com vontade por torcer pelo time, ao menos quando se referiam aos que vinham das categorias inferiores; e eu mesmo lembro do Ronaldinho Gaúcho, o mesmo que hoje ganha milhões e já foi o melhor do mundo, quando ainda era uma jovem revelação tricolor, saindo de campo chorando após uma derrota; quando o repórter perguntou a razão, ele prontamente respondeu que torcia para o Grêmio e queria que o time ganhasse. Dificilmente se pode esperar a mesma coisa do mineiro Léo, ou o paulista William Magrão, ou o sergipano Thiego, ou outros tantos jovens do Grêmio atual, pelo menos quanto a parte de ser torcedor do clube – não dá pra imaginar, por mais que tenham simpatia pelo clube onde vivem já há algum tempo e pensem nas conseqüências para suas carreiras, que tenham sofrido da mesma forma que eu e outros gremistas sofremos com as recentes derrotas em campeonatos, e certamente não se podia esperar que realmente levassem a sério uma campanha como a “entrega Grêmio” que houve durante essa última semana. Mesmo entre garotos da base, é muito raro um caso como o do Adriano, que largou tudo na Europa pra voltar pro Brasil e pro Flamengo.

Na verdade, acho que dá pra falar o mesmo até de alguns jogadores que tiveram, ou ao menos pareceram ter, alguma identificação com a sua torcida e clube – como o já citado Lucas, que, em uma entrevista ao canal SporTV algum tempo atrás, falou da sua experiência na famosa Batalha dos Aflitos. Quando o segundo pênalti contra o Grêmio foi marcado e tudo parecia perdido, diza ele, com toda naturalidade, que o que passava pela cabeça no momento é o que ia ser dele e da carreira dele se o Grêmio não se classificasse. E eu realmente compreendia esse ponto de vista, e não conseguia achar que estivesse errado: ele é um profissional, afinal, e, mais do que isso, um profissional jovem, em começo de carreira. Hoje em dia o profissionalismo no futebol simplesmente já não é mais apenas dos times principais, começando desde os times infantis.

Anteriormente eu falei em “semeadura” dos jogadores, e não acho que tenha sido um termo exagerado. Como eu disse, a formação desses jogadores começa muito antes do que a maioria das pessoas costuma ter qualquer decisão concreta sobre a carreira que deseja seguir quando adultos (eu mesmo não tenho muita certeza ainda hoje, com meus 25 anos jogados na cara). Eles precisam ser fabricados desde cedo, como as mercadorias que são; não é à toa que muitos comentaristas esportivos, quase sem perceber, falam de “safras” de jogadores quando vão se referir às últimas gerações de atletas. Falam da safra atual de jogadores do São Paulo, ou então a última safra de jogadores do Internacional, ou tantas outras safras, e acho que não devem a demorar a identificá-las pelos respectivos anos, como se fossem vinhos – dá até pra fazer um paralelo cômico com a idéia de que ambos melhoram com os anos e a maturação.

De qualquer forma, não sei exatamente qual era o meu objetivo quando comecei a tecer esse texto. Como de costume, são apenas algumas linhas aleatórias que estavam passando pela minha cabeça, e eu resolvi colocar no monitor, sem lá um embasamento muito profundo. Na minha curta experiência, lembro ainda de alguns casos de jogadores que realmente vieram de fora desse mundo, tendo a formação de pessoas “normais” até que foram descobertos por acaso e tardiamente antes de virarem jogadores profissionais; algo que deve acontecer cada vez menos no futuro, visto que os olheiros e empresários, hoje, ocupam muito mais do seu tempo em times pequenos mas profissionais do que em campinhos de terrenos baldios e torneios colegiais. Mas não quero fazer um juízo de valor e dizer que os tempos atuais são necessariamente piores do que aqueles por isso; talvez sejam diferentes, apenas, com essa coisificação assumida dos jogadores e a produção em massa com fins de exportação. No fundo, talvez seja mesmo um desdobramento irreversível daquele primeiro momento em que um jogador de futebol recebeu pagamento para jogar contra uma equipe, tão bem retratado por Lourenço Cazarré no conto Meia Encarnada, Dura de Sangue.

Crônicas de Lankhmar

As histórias de Fafhrd e Gatuno (Grey Mouser, no original) na cidade de Lankhmar, criados por Fritz Leiber na década de 1930, estão entre as mais conhecidas e influentes histórias de fantasia. Diferente de outros ícones do gênero espada & feitiçaria, no entanto, como o Conan de Robert E. Howard ou o Elric de Michael Moorcock, nunca foram lançadas no Brasil, onde, de maneira geral, o autor é um pouco mais conhecido por algumas obras de ficção científica. Para o público brasileiro que não domina bem línguas estrangeiras, assim, resta a versão em quadrinhos, Crônicas de Lankhmar, lançada algum tempo atrás pela editora Devir.

Publicada originalmente no início dos anos 1990, a adaptação tinha como artista um então pouco conhecido Mike Mignola, ainda antes do lançamento de Hellboy, sua série mais famosa. E a arte em si não decepciona: é ágil e bem feita, já mostrando sinais do estilo que o consagraria, e ilustra bem o cenário e os personagens. O ponto fraco mesmo está na narrativa – todas as histórias são adaptadas diretamente de contos da série, e a conversão para a linguagem dos quadrinhos às vezes deixa a desejar; o desenvolvimento da ação é um pouco rápido demais, e muitas vezes se tem a impressão de que alguma coisa ficou faltando, como se tivesse sido necessário cortar cenas importantes.

O que não quer dizer, no entanto, que não sejam boas histórias por isso. Passando por esse detalhe, pode-se ver bem que o seu conteúdo é bastante interessante, com um cenário rico e original, bastante ação e aventura, do tipo que te deixa com vontade de jogar RPG, e boas doses de humor. Lankhmar é, ao mesmo tempo, uma bela cidade de fantasia, um ambiente noir repleto de sujeira e intrigas, e uma ótima paródia de ambas as coisas; e os personagens, sobretudo os dois protagonistas, são divertidos e cativantes. Destaque para as histórias O Bazar do Bizarro, onde um grupo de mercadores extra-planares usa de feitiçaria para vender itens sem valor, e Tempos Difíceis em Lankhmar, que tem como cenário a Rua dos Deuses, onde acontece uma espécie de feira livre de divindades e religiões.

Crônicas de Lankhmar, enfim, tem o mérito de trazer a um público maior estes personagens clássicos, que de outra forma seguiriam desconhecidos de muita gente, além de apresentar um pouco do trabalho do Mike Mignola antes da sua obra mais célebre. E, passando por cima dos problemas de narrativa, é possível sim se divertir bastante com as histórias, que são interessantes e criativas. Só é difícil não ficar com a impressão, ao fim da leitura, de que as versões originais devem ser muito melhores…

Google Nosso

Google nosso que estás na rede,
Santificada seja vossa url.
Vem a nós a vossa página,
Faça-se a vossa busca,
Assim no Linux como no Windows.

Os bytes nossos de cada dia nos dai hoje,
E perdoai a nossa falta de informação
Assim como nós perdoamos
Aos nossos visitantes.
Não nos deixai entregues à ignorância,
Mas livrai-nos da dúvida.

Amém.

Iniciativa 3D&T Alpha – A Biblioteca de Babel

Ficou decidido que o tema da vez na Iniciativa 3D&T Alpha seria livros. A seguir apresento, então, a grandiosa Biblioteca de Babel, inspirada no famoso conto do argentino Jorge Luís Borges.

A Biblioteca de Babel

A Biblioteca é uma esfera cujo centro cabal é qualquer hexágono, cuja circunferência é inacessível.
- Jorge Luís Borges, A Biblioteca de Babel

O universo, que muitos chamam de Biblioteca, é composto por um número indefinido – alguns dizem mesmo infinito – de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no centro, cercados por varandas baixas. Cada uma delas é preenchida por vinte estantes, em cinco longas prateleiras em cada lado, cobrindo todas as paredes menos duas – nestas, uma passagem leva a um saguão estreito, que eventualmente termina na entrada da galeria seguinte. Em cada saguão, à esquerda e à direita, há ainda dois pequenos sanitários, um onde é possível dormir em pé, e outro para fazer as necessidades físicas; além disso, neles também se encontram as grandes escadas em espiral que descem e sobem em direção ao infinito, levando aos outros andares da Biblioteca, todos preenchidos pelas mesmas galerias hexagonais. O número de andares, como o de galerias, é indefinido: muitas lendas e histórias existem sobre o seu fim abrupto, onde uma escadaria ou saguão terminaria em uma parede lisa; outros apenas acreditam que a Biblioteca é infinita, ocupando sem sobras todo o mundo existente.

Cada hexágono é iluminado por duas pequenas frutas esféricas, chamadas lâmpadas. Na sua luz insuficiente e incessante, é possível examinar os livros que preenchem as prateleiras: cada uma das cinco prateleiras que ocupa cada parede de cada hexágono é preenchida por trinta e dois livros de formato uniforme, cada um deles com quatrocentas e dez páginas, e cada página com quarenta linhas. Essas linhas, por sua vez, são ocupadas por um alfabeto de vinte e cinco símbolos ortográficos, incluindo o espaço e os sinais de pontuação. Cada livro os dispõe de forma diferente, formando obras diferentes – não existe, em toda a Biblioteca, dois livros iguais; cada um é único na sua combinação, ainda que por vezes possam diferir apenas em uma ou duas letras perdidas em meio às suas centenas de páginas. Ao mesmo tempo, todo livro que for possível de ser escrito, em qualquer língua que possa ser articulada a partir do alfabeto da Biblioteca, pode ser encontrado em alguma das suas galerias hexagonais. Entre idiomas exóticos e há muito desaparecidos, existem mesmo aqueles que não possuem qualquer significado, sendo apenas um amontoado aleatório de letras e símbolos – um dos livros, por exemplo, é composto apenas pelas letras M C V, repetidas nesta ordem do início ao fim do volume; outro, por um grande labirinto de de letras desconexas até a penúltima página, quando subitamente dizem Ó tempo tuas pirâmides.

A Biblioteca também é habitada por uma população própria de bibliotecários, que vivem e se organizam em meio aos livros. Em média, há um homem ou mulher para cada três hexágonos, muito embora o suicídio e as enfermidades pulmonares tendam a diminuir essa proporção. Ninguém, no entanto, conhece a origem da Biblioteca ou quem escreveu todos os livros que nela se encontram, ainda que existam aqueles, conhecidos como inquisidores, que precorrem dia e noite as galerias em busca da resposta a esta pergunta. Diversos outros grupos e seitas também são comuns entre eles, seja para adorar o conteúdo enigmático de algum livro misterioso, seja para cumprir outros objetivos diversos, desde encontrar o mítico catálogo geral da Biblioteca, que possui a localização e descrição de todos os livros que nela existem, até destruir todos os livros cujo conteúdo seja ininteligível, deixando intactos apenas aqueles que possuam algum significado.

Aventuras na Biblioteca
Muitas razões podem levar um grupo de personagens a procurar a Biblioteca. Ela contém todos os livros possíveis de serem escritos – logo, certamente conterá aquele cujo conhecimento eles precisem para salvar o reino, derrotar o vilão ou apenas ganhar mais poder. De previsões do futuro a grimórios de magia, tudo pode ser encontrado em alguma das galerias hexagonais que a formam. Assim, tomando de alguma forma conhecimento da sua existência – seja por histórias de bardos, lendas entre bibliotecários comuns, ou informações encontradas em outros livros -, será perfeitamente natural que queiram ir atrás dela.

O primeiro grande desafio, então, será o de chegar até lá. Como é de se imaginar dadas as suas proporções, a Biblioteca não pode ser encontrada fisicamente em qualquer mundo – ela própria é todo o mundo onde está localizada, compreendendo um plano de existência à parte, uma espécie de plano elemental dos livros. Uma aventura inteira poderia envolver apenas a busca pelo feitiço de transporte planar que os levará até lá, ou pelo portal mágico secreto no fim da Masmorra da Morte (ou outra equivalente) que os transporte para o hall de entrada.

Uma vez que tenham entrado, será a hora de ir atrás do livro que contém o conhecimento que procuram. Outra tarefa complicada: na infinidade de livros que compõem as galerias, encontrar um único exemplar específico é praticamente impossível! Não só a ordem geral de catálogo não pode ser facilmente deduzida – até porque, em séculos de existência, muitos volumes foram trocados de lugar -, como a grande maioria dos livros será completamente ininteligível aos personagens. Assim, qualquer tipo de pesquisa na Biblioteca possui uma dificuldade acima de Difícil: requer pelo menos um dia inteiro e um teste de H-6 para personagens que possuírem uma perícia adequada (como Investigação, ou uma especialização conveniente de Ciências), e H-10 para aqueles que não a possuírem.

Uma pesquisa cuidadosa, no entanto, que gaste seus dias ou semanas atrás do livro desejado, possui melhores chances de ser bem sucedida. Uma aventura na Biblioteca, assim, na maior parte das vezes se desenvolverá com os personagens atrás de pistas que facilitem a busca pelo volume que procuram, interrogando os bibliotecários, tentando decifrar padrões de organização, buscando nas prateleiras os catálogos que revelam o conteúdo de uma determinada área, etc. O sucesso nestas missões secundárias, que podem depender de roleplay e outras habilidades dos personagens, renderá bônus diversos no teste final, tornando possível encontrar o livro desejado.

E não pense, é claro, que as investigações serão monótonas! Muitos perigos podem espreitar os personagens entre as galerias da Biblioteca: seitas secretas, influenciadas por um livro misterioso, podem tentar impedir o seu sucesso; volumes abertos sem cuidado podem invocar criaturas demoníacas, que os atacarão assim que se materializarem; e até mesmo, quem sabe, o livro que procuram pode estar escondido em uma galeria proibida, onde um grande dragão-traça montou o seu covil.

Alternativamente, além de um novo elemento em jogos já em andamento, a Biblioteca de Babel também pode ser a própria ambientação de uma história inteira, como um cenário de campanha individual. Os personagens, nesse caso, seriam bibliotecários nativos dela, buscando desvendar os seus segredos escondidos, e se envolvendo as intrigas e conflitos entre as diversas seitas que a ocupam.

Outros Artigos Sobre Livros
Crônicas de Arton – O Templo do Saber
Elf’s LairLivros, livros e mais livros!
Estalagem do Beholder Cego – O Tomo de Tempus
Non Plus RPG – Harry Potter para 3D&T
Revista Acerto Crítico – O Guia do Escoteiro

O Encontro

Júnior tremia enquanto esperava, sentado na mesa do restaurante no Mercado Público. Faziam doze anos que esperava por aquele momento – desde que pela primeira vez soube que era adotado. E agora estava lá, nervoso, esperando a chegada do pai biológico.

Havia tanto que queria saber! Quem era, o que fazia, como conheceu sua mãe… E, é claro, por que não quis ficar com ele. Já havia pensado muito sobre isso – talvez fosse muito jovem e irresponsável para cuidar de uma criança, ou apenas pobre demais. Talvez não quisesse filhos então… Talvez ainda não os quisesse. Podia ter atendido a esse encontro obrigado, ameaçado, sob liberdade condicional. Qualquer que fosse o caso, Júnior estava preparado: tinha já vinte e seis anos, o suficiente para não guardar rancor ou uma expectativa exagerados por alguém que sequer conhecia.

Só havia uma entre todas as possibilidades que o preocupava. De tudo que o seu pai biológico poderia ser – criminoso, foragido, endividado, deficiente -, uma coisa Júnior jamais poderia aceitar: ele não poderia ser… Não, era melhor nem pensar a respeito. Era uma possibilidade real – afinal, Júnior era o que era por influência familiar antes de tudo, principalmente de um certo tio com quem freqüentemente tinha contato -, mas preferia acreditar que o pai verdadeiro seria como ele. Precisava ser – não estaria disposto a aceitá-lo se não fosse.

O jovem tremia mais quando pensava a respeito. Valia a pena correr o risco? Não poderia ter esse desencanto – qualquer outro, mas não esse. Poderia viver bem com a ilusão, com a possibilidade de nunca saber, mas não com a decepção real. Talvez fosse melhor ir embora, deixá-lo esperando, e não mais dar notícias; sim, sem dúvida era melhor, pensou Júnior. Levantou e se preparou para sair, mas já era tarde: o pai estranho já o havia notado, e se dirigia para a sua mesa.

O medo de enfim conhecê-lo paralizou o rapaz: cada passo mais próximo que ele chegava parecia levar séculos para terminar. Gotas de suor frio escorriam pelo corpo, até que estavam próximos o bastante para que as três cores da camisa por baixo do abrigo dele fossem reconhecidas. Gremista!

Júnior suspirou aliviado, cumprimentou-o e sentou para conversar e conhecê-lo. Já não havia nada que pudesse sair errado.

O Desejo

- Faça mil desses, e um de verdade irá aparecer e te conceder um desejo. Qualquer desejo. – disse a moça de olhos puxados, apontando para o pássaro de papel dobrado.

A idéia impressionou o pequeno Pedro. “Mil desses eu ganho um desejo. Qualquer desejo!”, pensava. E dobrava: fazia, um após o outro, imaginando o que poderia pedir. O milésimo, no entanto, parecia sempre distante.

Passaram os anos, e ele continuou dobrando. Estava obcecado; faria os mil origamis e ganharia o desejo – era  seu objetivo de vida. Todo o resto era secundário. Tinha poucos amigos e ia mal na escola, já que ao invés de estudar passava o tempo dobrando papéis. Não fez faculdade, e só foi atrás de um emprego quando, após a morte dos pais, sua meta estava ameaçada pela fome.

Passaram mais de duas décadas, e Pedro seguia dobrando. Então, finalmente, terminou: o milésimo origami estava pronto. E, exatamente como dizia a lenda, um pássaro verdadeiro surgiu dos papéis, e lhe ofereceu um desejo. Ele, no entanto, estava indeciso; tão dedicado foi em fazer os pássaros de papel que não teve tempo para pensar no que queria desejar. Ponderou por alguns minutos, e então decidiu.

- Quero que todos esses desapareçam. – disse, apontando para os origamis que preenchiam a sua pequena casa.

Assim foi feito, e o pássaro se desfez em seguida.

Pedro ficou imóvel, olhando para o vazio. Foi dormir.

No dia seguinte, voltou a fazer seus pássaros de papel dobrado. “Mil desses e eu ganho um desejo”, pensava. “Qualquer desejo!”

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Sob um céu de blues...

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@bschlatter

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  • Tá tão quente que nem o ventilador na velocidade máxima faz vento... 3 days ago
  • Você é inefável, 2010? 4 days ago
  • Foda que hoje não abre absolutamente nada, e eu ainda tenho meia-dúzia de vale-presente do natal pra usar... 4 days ago
  • Em 2010, eu me sinto a mesma pessoa que fui em 2009, só um pouco mais velho. 4 days ago

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