Pacific Rim – Tales From Year Zero

Pacific_Rim_Tales_from_Year_ZeroAcho que não preciso falar mais de como me apaixonei por Pacific Rim / Círculo de Fogo logo à primeira assistida. Talvez não seja o filme perfeito em todos os menores detalhes, com um ou outro buraco de roteiro ou desenvolvimento de personagem que poderia ter sido mais trabalho… Mas francamente, quem se importa com isso quando você tem um robô gigante batendo com um barco em um monstro do mesmo tamanho? E não também que o filme não seja nada além de pornografia para nerds, claro – há sim um bocado de coisas legais para ver nele além da simples (e, na minha nem tão modesta opinião, satisfatória em si mesma) pancadaria colossal.

Uma dessas coisas é todo o universo que o filme sugere existir além do que foi apresentado nesta história. É possível ver isso em todos os jaeger e kaiju que recebem nomes e são meramente mencionados, nas tatuagens do cientista interpretado por Charlie Day sugerindo uma espécie de kaijumania apesar de toda a destruição que causam, no mercado negro administrado por Ron Perlman, e em um punhado de outros pequenos detalhes e pormenores que passam rapidamente por uma cena ou outra; é um universo em que você tem vontade de mergulhar, jogar campanhas de RPG (e teria também de jogar videogame, se o jogo correspondente não fosse melhor deixar esquecido), e o que mais for possível. Na verdade, você tem mesmo a impressão de que o filme é um pouco como uma história de origem, que conta apenas o primeiro episódio do que poderia ser uma saga bem maior – o ato final mesmo, com aquela correria para explodir a fenda dimensional que traz os monstros gigantes para o nosso mundo, rola um pouco como overkill, com o papel único de oferecer uma resolução final que não necessite (mas também não necessariamente exclua) uma seqüência direta.

A graphic novel Pacific Rim: Tales From Year Zero tenta explorar um pouco mais deste universo, funcionando como uma introdução ao mundo do filme. Usando como deixa uma repórter que entrevista certos personagens chave a respeito do começo da invasão dos monstros e dos projetos de construção dos jaeger, ela resgata um tanto da história não contada na tela grande, bem como aprofunda um pouco mais certos personagens que vemos apenas de relance na trama maior. São três pequenos contos que resgatam o início da invasão dos monstros, o desenvolvimento dos primeiros jaeger, e o começo da carreira de certos personagens importantes para o filme.

Um dos pontos que achei mais interessante é notar como a pilotagem dividida, com dois pilotos que devem entrar em conexão neural para movimentar o jaeger, é bastante explorada. O diretor Guillermo del Toro sempre destacou em entrevistas antes do lançamento como foi este elemento que o fez acreditar de vez no projeto, por tornar possível que uma história sobre robôs combatendo monstros gigantes subitamente se tornasse também uma história sobre relacionamentos; mas a verdade é que, mesmo que bastante usada para mover o enredo e desenvolver personagens, ela acaba ficando bastante obscurecida atrás dos, bem, combates entre robôs e monstros gigantes. Aqui, no entanto, o conceito é explorado com mais profundidade, e você é capaz de ver como a conexão, mais do que fazer o robozão correspondente andar, une e separa os seus pilotos, e modifica os seus relacionamentos entre si e com as outras pessoas.

Não vou dizer que seja uma graphic novel imperdível, ou que as histórias sejam especialmente tocantes e envolventes. É um volume bastante curto, afinal – apenas 112 páginas -, e ainda divide este espaço entre três relatos distintos. Por isso, não funciona exatamente como um produto independente, mas, como acessório ao filme, cumpre muito bem o seu papel, e traz um pouco mais de camadas e elementos para quem já estava cativado pelo seu universo.

Universos Paralelos (2)

de_leonTodos os anos, após a última rodada do campeonato, o físico quântico soltava uma bateria de fogos de artifício.

- Mas o seu time perdeu! – diziam os amigos. – Foi rebaixado! Nem chegou à final!

A todos, ele calmamente respondia:

- Ah, mas em algum universo paralelo…

The Star Wars / A Fortaleza Escondida

the star warsRecentemente a nerdosfera entrou em polvorosa com o lançamento do trailer do sétimo episódio de Guerra nas Estrelas (ou, para quem prefere se manter fiel as determinações marquetícias, Star Wars). Claymores de luz à parte, no momento em que a saga se volta (finalmente, diga-se) para o futuro, talvez seja uma oportunidade bacana para voltar ao passado dela, e conhecer um pouco das guerras estelares que nunca tivemos.

Estou falando especificamente de The Star Wars, uma série de quadrinhos de 2013 que faz uma adaptação dos primeiros rascunhos de George Lucas para o seu famoso universo. Trata-se de uma história bastante diferente da que viemos a conhecer e amar: Luke Skywalker não era ainda um garoto de fazenda que sonhava em pilotar uma X-Wing contra o Império, mas um general veterano protegendo o legado dos jedi e muito mais; Han Solo, no lugar de um contrabandista e mercenário, era um soldado veterano bombado e, er, verde; e há mesmo a presença de um certo Annikin Starkiller, um aprendiz jedi (ou padawan, como preferir) sob a tutela de Luke.

As diferenças, é claro, vão muito além do que a situação de apenas alguns personagens. O que primeiro chama a atenção é quando você vê um certo robô com aparência de lata de lixo se comunicar com palavras, ao invés de assobios. Mas logo você perceberá também que sabres de luz não parecem ser exclusividade de jedi ou sith – você o vê na mão de praticamente todos os stormtroopers genéricos pelo caminho. A própria Força é também menos evidente: não parece haver muitos deus ex machinas associados, e ela surge mais como uma citação semi-religiosa recorrente à “Força dos Outros.”

Os artistas também aproveitaram para incluir algumas referências mais específicas, como no design de C3PO, que se antes já era claramente inspirado no clássico Metrópolis de Fritz Lang, agora passou a ser escancaradamente inspirado. E a nova (velha?) aparência de Luke Skywalker, com barba e topete grisalhos, também lembra de forma muito suspeita o próprio George Lucas, dando a ele um ar de Mary Sue muito curioso.

O roteiro em si parte de uma premissa semelhante daquele que ficou conhecido como Uma Nova Esperança, o primeiro filme da saga – ainda temos uma princesa em perigo que deve recorrer a um velho jedi e seu recém aceito aprendiz para combater um Império personificado em uma estação espacial do tamanho de uma lua. Isso acontece porque, em realidade, ele ainda se inspira na mesma fonte, do qual falarei com mais detalhes um pouco mais adiante. Muitos dos pormenores, no entanto, bem como os próprios personagens, diferem bastante: o resgate de Leia na “Estrela da Morte,” por exemplo, aqui é o desfecho, e não o começo; o sub-enredo romântico da princesa com o aprendiz jedi é muito mais evidente; e os droides possuem um papel de fato muito reduzido em evoluir o enredo. Aliás, em alguns momentos ele chega mesmo a lembrar mais Spaceballs / Tem Um Louco Solto no Espaço, a paródia de Mel Brooks da série, o que me fez pensar se ele não teve de alguma forma acesso a esse roteiro quando a estava escrevendo…

Não vou dizer que não seja uma história legal, que diverte e possui alguns bons méritos próprios. Mas, com o desenvolvimento dos quadrinhos, me pareceu sim que ela não teria a mesma força da história que conhecemos. Ainda que seja interessante da sua própria forma, o arrogante Annikin Starkiller não é um protagonista tão empático quanto o jovem Luke Skywalker, que com a sua história de garoto comum elevado a herói da galáxia cativou com grande força o público jovem da sua época e além. Momentos marcantes como a morte de Obi-wan Kenobi fazem falta, ainda que hajam algumas tentativas de substituí-la, e mesmo os antagonistas aqui também não possuem o mesmo carisma dos que conhecemos no cinema, a começar pelo próprio Darth Vader convertido em mero general imperial. Não é uma história ruim, enfim, mas acredito que as mudanças realizadas realmente a tornaram mais empolgante e interessante.

fortalezza escondidaO que mais chama atenção, no entanto, é quando comparamos este roteiro com o de outra história, esta mais antiga e referência confessa do próprio George Lucas: o filme A Fortaleza Escondida, de Akira Kurosawa, que recentemente foi relançado em uma Edição Definitiva pela Versátil. Se as semelhanças já eram bastante visíveis no próprio filme original – na história da princesa escoltada por um guerreiro veterano e companheiros por entre as linhas inimigas, ou na dupla de personagens de nível mais baixo (droides ou ladrões) de cujo ponto de vista a trama é contada -, elas acabam ficando bem mais evidentes nesta versão do roteiro. É mais fácil traçar um paralelo entre os generais Luke Skywalker e Makabe Rokurota do que era entre o segundo e Obi-wan Kenobi, por exemplo; além de que de fato há uma fortaleza escondida com função e destino muito semelhantes aos do filme de Kurosawa. Certas cenas e reviravoltas do roteiro – como a virada de casaca de um certo inimigo no ato final, permitindo que os heróis saiam vitoriosos – também lembram muito as da versão com samurais, e a impressão final que fica é que Lucas apenas partiu do roteiro de Kurosawa e começou a adicionar personagens, a começar por um protagonista masculino jovem com quem certa parte do público poderia se identificar.

Claro, há muito mais no filme de Kurosawa do que apenas uma versão inicial do que viria a ser uma das maiores sagas de ficção da nossa época. Trata-se de uma aventura muito bem dirigida e envolvente, que consegue combinar momentos divertidos e tensos de uma forma bastante satisfatória, como tantos blockbusters de hoje em dia tentam fazer e nem sempre conseguem. É um filme muito recomendado para quem gosta da temática samurai, ou apenas quer um filme interessante para passar o tempo numa tarde de sábado. Mas, consciente de que há uma parcela do público que se interessaria pelo filme apenas por isso, a nova edição contém comentários do próprio George Lucas, falando da relação do filme com o seu universo mais famoso.

The Star Wars, enfim, é uma curiosidade muito interessante para os fãs da saga, um retrato da história que poderia ter sido mas nunca teve a oportunidade de virar uma trilogia e angariar milhões de dólares em merchandising. E A Fortaleza Escondida, além de ter o mesmo valor para os fãs de Star Wars, ainda vale muito para fãs de cinema de maneira geral, e da história do Japão dos samurais em particular.

Aniquilação

aniquilaçãoJeff VanderMeer tem um problema com fungos. Não se tratam de micoses ou pés-de-atleta, claro (ou pelo menos até onde eu posso falar); mas é uma fixação tão constante na sua obra que chega a ser curioso, no mínimo. O ciclo de histórias de Ambergris, por exemplo, que são as suas obras mais conhecidas, possui como elemento central uma civilização de cogumelos que existiria sob a cidade, influenciando de alguma toda a sua história repleta de mistérios – algo assim como um gritty reboot de Super Mario Bros., digamos. E também na sua trilogia do Comando Sul, cujo primeiro volume, Aniquilação, foi lançado recentemente em português, o tema volta a ser recorrente.

Mas vamos por partes. Segundo a sinopse do livro, décadas atrás algum tipo de catástrofe ambiental se abateu sobre uma região do planeta, cuja localização exata nunca sabemos realmente, isolando-a do resto do mundo. Aos poucos a natureza foi tomando os últimos vestígios da presença humana, dando origem a uma fauna e flora exótica e surpreendente. Para entender exatamente o que aconteceu, uma série de expedições foram organizadas e enviadas para lá. Nem todas retornaram; algumas tiveram mesmo resultados catastróficos, com o desaparecimento, morte ou mudança de todos os membros enviados.

No livro conhecemos o destino da décima segunda destas expedições, formada por quatro mulheres: uma antropóloga, uma topógrafa, uma psicóloga, que é também a líder da missão, e uma bióloga, a narradora da história. Não sabemos, a princípio, quase nada sobre seus passados, apenas que foram escolhidas por critérios obscuros e enviadas para lá de uma maneira misteriosa. Aos poucos, no entanto, o que ocultam sobre suas vidas é justamente o que vai semear a catástrofe na missão, sobretudo na medida em que elas se depararem com situações imprevisíveis e encontros que desafiam a sua sanidade e o seu entendimento sobre o mundo.

VanderMeer domina como poucos a narrativa de suspense. Há algo de tenso e sombrio na sua escrita praticamente desde a primeira frase – você consegue perceber logo de início que algo muito errado acontecerá, e a tensão sobre o que o desencadeará o acompanha a cada virada de página. Essa sensação se intensifica a cada novo encontro com os horrores impossíveis que se escondem na Área X. Para quem joga videogames, a história lembra um jogo do auge dos survival horrors, como Silent Hill ou os primeiros Resident Evil: há um ambiente misterioso e perigoso, em que você nunca sabe ao certo o que está acontecendo; e a ansiedade a cada parágrafo de não saber se ele será seguido um novo confronto aberrante ou uma revelação perturbadora sobre aquilo que o cerca. Cada solução encontrada se abre em dez novos mistérios, porém sem a garantia de que tudo acabará bem no final.

Uma coisa muito pontual, apenas, acaba quebrando o clima que o autor constrói com tanta habilidade no resto do tempo. Há um papel muito grande dado aos efeitos da hipnose sobre as personagens, usado como deus ex machina para garantir certos desenvolvimentos em alguns momentos importantes. Para os céticos (como eu), é preciso forçar um pouco a suspensão de descrença e passar por cima deste detalhe. (Por outro lado, estamos falando de um livro de horror cósmico de ascendência lovecraftiana, então há quem vá dizer que este é o elemento menos fantástico da história de qualquer forma…)

Em todo caso, Aniquilação ainda é uma história de suspense e horror cósmico muito bem escrita e executada, recomendadíssima. Aguardo com bastante ansiedade pelos próximos livros da trilogia, que lancem mais luzes (e consequentemente tragam mais mistérios) sobre o que se esconde afinal sob a assustadora Área X.

Relatos Selvagens

relatos cartazJá faz um bom tempo que o cinema argentino tem lançado filmes de sucesso, tanto de crítica como público. Em comparação, o cinema brasileiro em geral é bem vexatório, apesar de um ou outro filme do Jorge Furtado ou outro diretor eventual que fuja dos chavões Globo Filmes / filme de arte pra ganhar subsídio governamental. Se nem sempre um Wagner Moura é sinônimo de um bom filme, um Ricardo Darín no pôster consegue ser sim um bom indicativo de que você passará umas duas horas muito bem aproveitadas.

Relatos Selvagens se insere muito bem nessa tradição dos nossos hermanos. O filme é composto, na verdade, por seis histórias curtas, coladas por um mesmo tema: pessoas comuns que simplesmente perdem a paciência, e por um momento cruzam a linha tênue que separa a civilização da barbárie. Da história introdutória que lembra uma música do Chumbawamba à festa de casamento que acaba por dar certo de um jeito bem errado, as histórias tentam explorar um pouco desse absurdo que há no cotidiano, e o quanto ele é em realidade bastante frágil e fácil de se quebrar por motivos que podem ser tão banais quanto uma ofensa no trânsito ou tão sérios quanto uma propina policial.

Damián Szifron, o diretor, conduz cada uma das histórias com grande maestria, lançando mão de uma bela gama de recursos narrativos e visuais. Há uma influência tarantinesca bem evidente nos enquadramentos e na trilha sonora; mas, muito mais, há um quê kafkiano em algumas das tramas, e muito de tragédia grega na forma como elas sempre descambam rapidamente para o desespero generalizado dos personagens.

Subjaz, é claro, uma crítica não muito velada ao mundo moderno e às hipocrisias que permitem que ele funcione. Você pode sair da sessão refletindo sobre o absurdo das burocracias governamentais, os preconceitos do sucesso financeiro que te permitem comprar o carro do ano, ou o papel da fidelidade conjugal. Mas, mais do que tudo, há apenas o prazer de se contar e ouvir uma boa história: você com certeza sairá da sessão após dar muitas risadas de um humor negro que consegue ser crítico sem ser preconceituoso, e inteligente sem ser obscuro.

Assistam Relatos Selvagens, enfim. Posso dizer sem medo de errar que é o filme mais engraçado, e um dos mais imperdíveis, de 2014.

The World of Ice and Fire

world of ice and fireThe World of Ice and Fire é um livrão. Tipo, literalmente: tamanho grande, capa dura, mais de trezentas páginas de papel cartonado totalmente colorido. Folheando-o, você se sente folheando um daqueles tomos majestosos e empoeirados que aparecem na série; é até um pouco incômodo lê-lo no banheiro, por exemplo, enquanto ele parece ficar bem à vontade aberto em cima de uma mesa, para ser estudado como um encadernado de documentos históricos do século XIII. O fundo das folhas mesmo parece feito para emular o amarelamento do papel com o passar do tempo, e há um certa brincadeira já na dedicatória nas primeiras páginas – tente adivinhar os nomes que aparecem, meio apagados, por trás do rei Tommen…

É nesse livrão, enfim, que conhecemos a história do mundo de Westeros e além, nos aprofundando naquilo que foi apresentado superficialmente nos livros propriamente ditos da série. Ele foi escrito não apenas pelo George R. R. Martin, mas também com a ajuda de Elio M. García Jr. e Linda Antonsson, criadores do site Westeros.org, o maior portal de fãs da série, dois fãs tão ardorosos que o próprio autor os consulta quando está em dúvida sobre alguma coisa que escreveu duas ou três mil páginas (e vinte anos) atrás. Para acompanhar, foram comissionadas cerca de 170 ilustrações originais de momentos e personagens históricos, todas belíssimas e muito bem executadas, dobrando o valor do livro como um livro de artes.

Enfim, antes de continuar, o aviso de praxe: sim, aqui pode haver spoilers. Esteje ciente.

O livro propriamente é dividido em duas partes fundamentais, ainda que cada uma delas se estenda por vários “capítulos.” Primeiro, somos apresentados à história do mundo da série, com um foco óbvio no continente de Westeros onde se passa a sua ação principal. A narrativa vai desde a aurora dos tempos, quando ele era habitado por seres míticos como os gigantes e as crianças da floresta, passando pela chegada dos primeiros homens, e então as sucessivas ondas migratórias que o ocuparam até a chegada dos Targaryen do império de Valyria; e então se desenvolve como uma crônica da conquista do continente e todos os reis do clã que o governaram a partir daí, até a sua queda e o começo dos livros.

Algumas coisas se sobressaem dessa primeira parte. É bem fácil fazer alguns paralelos em certos momentos com a história do nosso próprio mundo: os First Men, por exemplo, são claramente colonizadores neolíticos, anteriores à invenção da escrita (ainda que sejam citadas algumas vezes que eles possuíam uma escrita rúnica rudimentar); e você consegue facilmente comparar a chegada dos Andals a Westeros com as invasões germânicas do Império Romano, ainda que com certas licenças poéticas (por exemplo, o fato de terem sido eles os disseminadores da fé nos Sete, o correlato local do cristianismo). No fundo, no entanto, e isso fica bem mais evidente com a leitura deste livro, Westeros não é realmente uma versão fantástica da nossa idade média, mas sim um cenário fantástico livremente inspirado nela. Você pode reconhecer algumas inspirações, como o certo tempero mouro da região de Dorne ou os conflitos das “cidades livres” claramente inspirados nas cidades italianas, mas de maneira geral tentar encontrar uma relação exata de cada elemento do cenário com um momento ou situação histórica real será na maior parte das vezes infrutífero.

Isso fica bem evidente quando você para para analisar o escopo da história contada. Para um historiador, é um pouco difícil engolir que tenha transcorrido tanto tempo sem muitas mudanças consideráveis no modo de viver e fazer política do povo de Westeros, ainda mais quando você considera o dinamismo destas relações de poder nos próprios livros da saga. Pelo que se pode inferir, os First Men já se organizaram espontaneamente com modos de governo e sociedade semelhantes ao nosso feudalismo; e esse modo de organização sobreviveu à chegada dos Andals, Rhoynar e mesmo Targaryen. Mas, de novo, é algo que você acaba aceitando como parte da fantasia do autor – trata-se de um mundo em que o feudalismo durou dez mil anos, ao invés de apenas mil. Ou talvez as fontes que chegaram até nós não sejam tão confiáveis assim (mas falarei mais disso adiante). Em outros pontos você consegue claramente perceber as sensibilidades mais contemporâneas de Martin; talvez o elemento mais marcante nesse aspecto seja o papel reduzido que cabe à religião (que, como ficamos sabendo, perdeu uma queda de braço contra o poder secular logo no começo dos reinados Targaryen, e nunca se recuperou – muito mais rápido do que isso ocorreu no nosso próprio mundo), mas há mais.

Outro ponto interessante diz respeito à “voz” escolhida para nos contar a história do mundo. O Maester Yandel não é exatamente uma fonte isenta, e isso fica bastante claro já na dedicatória e os seus desejos e elogios ao rei atual de Westeros (bem como aquele pequeno detalhe já mencionado anteriormente). Isso ajuda a dar bastante cor ao relato, e torna ele de maneira geral mais envolvente e divertido, sobretudo em certas passagens que lidam com o sobrenatural em lendas e histórias antigas – coisas que você sabe que são verdadeiras devido a acontecimentos dos livros da saga, mas que ele próprio tenta racionalizar e encontrar uma explicação mundana. Por outro lado, quando você chega à crônica do reinado de Aerys II, o Rei Louco, e se depara com todos os elogios rasgados à atuação de Tywin Lannister como Mão do Rei, apenas para perceber que elas são baseadas no relato do Maester Pycelle… Bem, é difícil não rir um pouco internamente.

Terminada a história do mundo, enfim, o livro vai para a sua segunda parte, que é a história de cada uma das suas várias regiões. Os Sete Reinos de Westeros (que na verdade são oito…) recebem descrições detalhadas em subcapítulos próprios, com toda a sua história contada desde a chegada dos First Men, passando pela invasão dos Andals e a conquista final pelas mãos dos Targaryen. O foco, no entanto, continua sendo muito mais o aspecto histórico do que o descritivo – ainda que você possa pegar certos aspectos da situação contemporânea de cada região, o livro se dedica muito mais a contar a sua história, as suas linhagens de reis e guerras do que nisso propriamente. A única exceção é o Norte, onde ocorre justamente o contrário: há menos relatos históricos, e mais descrições dos diferentes povos que o compõem, incluindo a Night’s Watch, os clãs bárbaros das montanhas e os cranogmen dos pântanos. Assim, ainda que certamente seja um livro muito recomendado para os jogadores do RPG oficial da série, não me parece que ele simplesmente substitua o (espera-se) vindouro Guia de Campanha do jogo.

E além dos Sete Reinos, é claro, há um último capítulo para as regiões além de Westeros, incluindo as Free Cities e os diferentes povos que habitam o continente de Essos. Aqui é onde o lado high fantasy do mundo se revela mais claramente, com civilizações exóticas e costumes estranhos, além de povos que parecem pertencer realmente a raças diferentes. Claro, há sempre a pitada de sal a se adicionar: na nossa própria idade média haviam muitos relatos de viagens extraordinárias para os extremos do mundo, muitos deles atribuídos mesmo a Alexandre o Grande e suas conquistas, onde viveriam povos estranhos onde os homens teriam cabeças de cachorro ou patas de cavalo. Se eles não eram exatamente corretos então, podemos assumir que provavelmente não sejam aqui também; mas internamente, para o próprio livro, eles são tidos como verdadeiros, e não há razão para tratá-los de forma diferente.

Como para os Sete Reinos, abundam também os paralelos com o nosso mundo. Os dothraki são claramente inspirados nas tribos nômades das estepes asiáticas, como os hunos e os mongóis, e há mesmo uma China genérica no extremo oriente. Mas, novamente, é importante não achar que se trata de uma mera recriação fantástica do nosso mundo, e que todos os povos e costumes necessariamente terão um equivalente real. Ao contrário, a referência que parece predominar sobre as demais é mesmo literária: há mais de um povo cuja história faz referência a “deuses antigos,” e há muitos relatos de civilizações misteriosas de homens-peixe e afins vindo do mar. Outros trechos escancaram a homenagem de vez, dando nome a locais misteriosos como Leng ou K’Dath.

(E há, claro, referências mais divertidas do que cultas também. O clã Jordayne of Tor é um muito conhecido, mas o nome de certos ancestrais da família Tully fará você pensar se a idéia de uma marionete ou joguete político não é um tanto literal no caso deles…)

Em uma avaliação geral, o livro todo é muito bonito e bem escrito. Não há muito o que os fãs podem reclamar, acredito. Talvez pudessem haver mais mapas – apenas as regiões de Westeros e as Summer Isles possuem mapas específicos, enquanto as descrições dos povos de Essos e além, com a localização de rios como o Rhoyne e outros, devem ficar apenas na imaginação. Bem, talvez fosse pedir demais, claro; é bom lembrar que eles possuem como outro produto licenciado um conjunto de mapas das várias de regiões do mundo, e certamente não gostariam de torná-lo desnecessário…

Também é importante que não se compre o livro achando que ele vai revelar todos os segredos da série e ajudá-lo a adivinhar o futuro da trama. Não há muito mais nele que não seja apenas uma expansão daquilo que já aparece na série original, e boa parte das informações novas, como os detalhes mais exóticos dos povos de Ib ou Yi Ti, provavelmente nem apareçam nos próximos livros se não como citações ao vento. A história de certas linhagens e reinos de Westeros vai bem além do que era conhecido, e há muitos novos personagens a se conhecer e com quem simpatizar, mas, se você é um leitor atento, é bem provável que já fosse capaz de inferir a maioria dos detalhes novos sobre aqueles que aparecem em ambas as obras. O livro também cuida de desviar dos momentos mais espinhosos que revelariam o futuro da história, não se perdendo muito nas profecias sobre os Others ou o Azhor Ahai (apesar de que os relatos sobre a Longa Noite e como ela foi vencida da primeira vez permitem alguns paralelos interessantes…), nem se estendendo demais nos eventos específicos que levaram à revolta de Robert Baratheon e o fim da dinastia Targaryen. Apenas os que acompanham a saga paralela de Dunk e Egg, que se passa cerca de noventa anos antes da principal, podem encontrar alguns spoilers, com certos eventos citados que parecem já ter sido feitos para serem desenvolvidos em histórias futuras.

Mesmo assim, em todo caso, não há como não recomendar o livro para fãs da série. É obrigatório.

R. I. P.

2014 tá um ano bem difícil…


Sob um céu de blues...

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