Publicidade e Infância

hemanAcho que era o Nelson Rodrigues que dizia que toda unanimidade é burra. Eu rebateria dizendo que toda generalização é burra, ou pelo menos certamente mais do que as unanimidades. Mas aí eu também estaria generalizando. Em todo caso, aprendi a desconfiar de unanimidades: discordar faz parte do debate, e me sinto desconfortável quando ele é tão pendente para um único lado. No momento, nada é mais unânime nas internets do que a condenação da proibição à publicidade infantil; e bem, acho que dessa vez eu posso ser a voz discordante aqui no meu bloguinho merreca de trinta visitas por dia.

Veja bem, eu vou ser o primeiro a desconfiar também de uma proibição radical, pura e simples. Meu espírito de rebelde adolescente gostaria de sempre gritar o bordão de 68, aquele sobre ser proibido proibir. Mas se a coisa chega nesse ponto, talvez seja uma oportunidade também dos afetados pararem um pouco para refletir como isso aconteceu. Quer dizer, pode ser um bom momento para uma autocrítica, e tentar entender por que foi necessário algo desse nível. No caso, acho que já seria um bom começo se publicitários, conglomerados de entretenimento infantil e afins analisassem suas consciências parassem para se perguntar: eu quero mesmo ganhar a vida enganando crianças de dez anos?

Ok, não precisa ser algo tão extremado, e eu mesmo não acredito totalmente no que eu acabei de dizer. Um professor meu dizia que o publicitário é um profissional que ganha salário para mentir, mas é claro que era um exagero jocoso, feito para forçar a reflexão. Todo exagero parte de algum ponto de verdade, no entanto, e no fundo, se você a despir de toda pompa e glamourização – não trocar “receber para mentir” por “vender sonhos” ou qualquer bobagem pseudo-poética do tipo -, verá que esta não é uma afirmação tão ridícula assim. O publicitário ainda é aquele cara que vai tentar te convencer que usar o desodorante certo vai te transformar em um ímã do sexo oposto; que comprar um carro é a mesma coisa que comprar sucesso pessoal (pra mim uma das mentiras publicitárias mais perversas, por todas as implicações urbanas e sociais); ou que aquele suco na caixinha colorida com o mascote fofinho não é 50% composto de açúcar e corantes. E é claro que eu sei diferenciar o que é jogo da publicidade do que é informação verdadeira, mas eu sou um marmanjo de trinta anos, e não um moleque de dez. Quando eu tinha dez anos eu realmente achava que podia ser um Power Ranger (ok, na verdade um Changeman, mas só outros marmanjos de trinta anos ou mais saberão do que se trata), e um produto que me prometesse isso facilmente teria a minha atenção.

Aí vamos para os argumentos que tentam protestar contra uma proibição, ahem, arbitrária. Falam que deviam é investir em educação, por exemplo. Claro que deviam, isso não é excluído com ou sem proibição. Mas não é isso que justifica a falta de regulação ou de controle, que valha tudo na hora de anunciar um produto e a criança que use a sua, ahem, capacidade de discernimento para determinar o que vale ou não a pena pegar birra contra os pais. Proibir talvez seja um exagero, mas é uma medida concreta de um controle que no fundo é necessário em algum nível, sim - e quem não concordar, sinto muito, mas só pode ser alguém não convive com nenhuma criança de verdade.

Sobre o fim da programação cultural infantil, que, como tudo na televisão, sempre se sustentou na publicidade, eu pessoalmente acho que é um problema mais complicado. Tipo, é claro que eu adorava He-Man e Thundercats, como todo mundo, mas hoje eu sei reconhecer a armadilha que eles eram. Continuo achando séries legais, mas que talvez não valessem as úlceras que tive porque um amigo tinha o Castelo de Greyskull e eu não. Aí dizem que as crianças serão “privadas” de assistir essas obras-primas da cultura contemporânea, e eu, historiador, tenho que esquecer que é a mesma coisa que os adultos de outrora diziam quando nós mesmos às assistíamos, ao invés de estarmos na rua jogando bola como crianças normais e saudáveis…

(Em um adendo, lembro de uma entrevista anos atrás com a Angélica, na época ainda apresentadora infantil. Ela dizia que não achava o que fazia ruim, mas, se tivesse filhos, faria eles assistirem a outro canal, conhecido pela programação infantil de qualidade mas sem apelo publicitário. Imagino se ela pensa o mesmo hoje que de fato tem filhos, sendo casada com quem é…)

O problema começa bem antes disso, na verdade. O fim da publicidade vai terminar de sepultar a programação infantil nacional? Pra mim isso é muito mais culpa de um modelo de sociedade tão voltado para o consumo que seja simplesmente impossível manter vivo um produto cultural que não o promova de alguma forma. O Castelo Rá-Tim-Bum que não vendia bonecos do Nino. Ou o Up que vai ser esquecido pelas crianças, enquanto o insosso Aviões recebe continuação porque é mais fácil vender um modelo de avião falante do que um boneco de velho ranzinza.

“Ah, mas assim é o capitalismo. Tu que está sendo idealista demais, seu petralha esquerdopata ateu pagão satanista.” Sinceramente, estou mesmo. Se vocês dizem valorizar tanto a imaginação construída com bonecos de ação de noventa reais, deixem eu usar a minha também. Talvez seja ingenuidade querer sonhar com um mundo tão melhor que o nosso. Mesmo assim, sempre que alguém vem chamar a publicidade de direito (inclusive alguns ícones nacionais que eu tentava admirar), como o direito que todos têm à vida ou à educação, ou que uma revista semanal escreve que ela é “uma das maiores conquistas da humanidade,” a verdade é que uma parte dessa criança supostamente feliz que eu fui apodrece e morre mais um pouco dentro de mim.

A Guerra dos Tronos: Card Game

Jogo-Guerra-dos-TronosQue a série A Song of Ice and Fire / As Crônicas de Gelo e Fogo / Game of Thrones / Guerra dos Tronos / como quer que você prefira chamá-la é um sucesso, é difícil negar. E como qualquer produto que faça sucesso em alguma mídia (e em especial a televisão), logo surgirão as dúzias de derivados: quadrinhos, videogames, RPGs, etc. De todos estes, dois parecem ter uma aceitação especial entre os fãs: o jogo de tabuleiro, que ainda não tive a oportunidade de experimentar (apesar dos comentários de alguns amigos não serem exatamente muito animadores), e o jogo de cartas, que ganhei de presente no último natal. Ambos foram lançados em edição nacional, em português, pela Galápagos Jogos.

A caixa básica do jogo de cartas contém quatro baralhos distintos, representando as principais casas que disputam o poder em Westeros: Baratheon, Lannister, Stark e Targaryen. Ela é o suficiente para jogar com até quatro participantes, mas há também algumas expansões que complic… Digo, oferecem novas opções, incluindo novas casas (Reis dos Mares traz os piratas Greyjoy, e Príncipes do Sol os dorneses Martell), novas cartas para as casas já apresentadas (Reis da Tempestade expandem as opções para os Baratheon, Leões do Rochedo para os Lannister, Senhores do Inverno para os Stark, e Rainha dos Dragões para os Targaryen), e outras que tratam de eventos específicos da série (como A Guerra dos Cinco Reis ou A Batalha de Vau Rubi, entre outras). Além destes, completam o jogo também um pequeno tabuleiro, peças representando os diversos títulos do Pequeno Conselho (o Rei, o Mão do Rei, Mestre da Moeda…), e diversas fichas representando os dragões de ouro e pontos de poder conquistados.

Se a quantidade de elementos parece indicar um jogo complicado, é porque ele é mesmo. Pode-se dizer que ele é muito bem sucedido em emular a série: bastarão algumas rodadas e nenhum jogador saberá mais quem está ganhando, exceto que muito provavelmente não serão os Stark. O próprio fato de ser um jogo de cartas expansível (embora felizmente não colecionáveis, a quantidade de expansões à venda à parte) já o torna excessivamente dinâmico, já que cada carta possui elementos e regras próprias a serem seguidas; mas então você adiciona uma carta de plano para cada rodada, fazendo variar os recursos disponíveis e ordem de iniciativa; três formas de conflito diferentes; os títulos do Pequeno Conselho, cada um com bônus e regras próprias…

Veja bem, não estou reclamando do dinamismo do jogo, que normalmente é uma característica positiva – nada mais entediante do que passar duas horas jogando War sem nada mudar no equilíbrio de poder entre os jogadores. Mas AGdT:CG em algum momento cruza a linha do meramente dinâmico para o ridiculamente dinâmico. Não estamos falando de um jogo que é diferente a cada partida; mas de um que é completamente diferente a cada rodada. Mesmo as regras específicas das cartas não ajudam muito – uma determinada carta de plano dos Stark, por exemplo, faz com que todos os personagens em jogo sejam enviados para o cemitério; não é um evento ou carta especial que você pode escolher usar ou não, mas um plano que você obrigatoriamente utilizará no máximo a cada sete rodadas (uma vez que você deve obrigatoriamente usar todas as suas cartas de plano antes de poder repeti-las). Isso quer dizer que, se houver um jogador com o baralho Stark, a partida praticamente recomeçará do zero a cada sete rodadas.

O resultado é que você provavelmente ficará perdido em meio a tantos bônus e modificadores em efeito a qualquer momento. Perdi a conta de quantas vezes esqueci de contar o bônus do título escolhido para aquela rodada, por exemplo; e uma partida literalmente acabou quando um dos participantes lembrou que estava esquecendo de contar um bônus de um personagem nos seus pontos de poder, que o permitiram atingir o valor necessário para a vitória (e, cansados, nenhum dos demais reclamou). Este não é um jogo para quem possui qualquer nível de déficit de atenção.

Há também alguns problemas no quesito equilíbrio entre os baralhos. Os Lannister, por exemplo, me pareceram um tanto roubados: são a casa que recebe maior quantidade de dragões de ouro em todas as suas cartas de plano, e há pelo menos um personagem que permite acumular pontos de poder com grande velocidade. Do outro lado, os Stark parecem ficar em desvantagem devido à sua fraqueza em conflitos de intriga – se me lembro bem, apenas dois personagens possuem pontos neste tipo de conflito, nenhum deles muito alto; é muito fácil tirar pontos do jogador que escolhê-los desta forma (mas ok, pelo menos o combo Jon + Ghost é quase imbatível em conflitos militares).

No fim, no entanto, não dá pra dizer que A Guerra dos Tronos – Card Game seja realmente um jogo ruim. É dinâmico (até demais), e oferece sim de alguma forma a sensação de estar dentro da série (tanto no aspecto positivo como no negativo). Tem o seu lado divertido para quem não tiver problema em manter nota de todos os modificadores; sou só eu que tenho preferido jogos mais intuitivos mesmo, onde eu não corro risco de perder pontos por ter esquecido de contabilizar meu bônus de +3 em conflitos militares por ser o Comandante da Guarda Real nesta rodada. Mas é também uma forma de se manter ligado ao cenário de Westeros neste hiato entre-livros e -temporadas (e uma vez que o Martin está atrasado até na série secundária ambientada no cenário), o que para os fãs pode ser mesmo o mais importante.

R. I. P.

Yukikaze

yukikazeYukikaze, de Chohei Kambayashi, é outro da lista de maiores romances da ficção científica japonesa escolhida pelos leitores da revista SF Magazine, a mesma que elegeu Ten Billion Days and One Hundred Billion Nights, de Ryu Mitsuse, como o maior romance de FC japonesa de todos os tempos. Trinta anos após uma fenda dimensional na Antártida trazer para a Terra os alienígenas conhecidos como JAM, a contra-ofensiva unida das nações terrestres explora o planeta estranho que há do outro lado. É nele que o tenente Rei Fukai passa os seus dias em missões de reconhecimento, tendo como única companheira constante a aeronave Yukikaze, equipada com uma das mais avançadas inteligências artificiais já desenvolvidas.

Tão grande, e tão surpreendentemente contemporânea (para um livro publicado originalmente em 1984), é a miríade de significados do livro, que às vezes os mais óbvios podem ser os mais fáceis de deixar passar. Terminada a leitura, por exemplo, é preciso um exercício consciente de reflexão para se dar conta dos nomes: Faery, o planeta alienígena, e as Sílfides, o modelo de jato supersônico de última geração usado pela Força Aérea local, indicam um certo quê de conto de fadas no conflito, ou pelo menos na forma como ele é percebido para os terráqueos do lado de cá da fenda dimensional. O tema aparece desde o prólogo, com o excerto de uma obra de não-ficção fictícia (trocadalho intencional), até dois episódios em que jornalistas terrestres tentam entender algumas verdades por trás da guerra; e levam a uma discussão superficial, mas bastante instigante, sobre a guerra e o papel dos guerreiros. Ao se dar conta disso, é difícil não se pegar pensando nas guerras televisionadas que temos hoje, e a consequente idealização de conflitos e “guerras justas” que ocorrem tão distantes do público.

O tema que realmente domina o livro, no entanto, ainda que explorado dentro desse contexto militar, é o das inteligências artificiais, e o papel que sobra para a humanidade na medida em que o seu desenvolvimento avança. O ponto curioso é notar que ele vai na contramão das histórias que normalmente exploram o assunto: ao invés de humanizar as máquinas, e se questionar sobre a humanidade e a “alma” existente em um construto consciente, ela faz justamente o contrário, e se pergunta a respeito da desumanização das pessoas em um ambiente cada vez mais dominado pela tecnologia, em que a tomada de decisões é cada vez mais automatizada. Personagens constantemente se perguntam se, em meio à guerra contra um inimigo do qual sabem tão pouco, não estão de fato se tornando máquinas; ao mesmo tempo, na ponta inversa da balança, acabam desenvolvendo relacionamentos fortemente humanos com as máquinas que pilotam, incluindo sentimentos como ciúmes e desconfiança.

Além de parecer mais verossímil (convenhamos, um robô com consciência e sentimentos verdadeiros ainda parece muito fantástico para ser encarado sem estranhamento), há de se admitir que essa abordagem foi um golpe de sorte e tanto do autor: trinta anos depois, com o desenvolvimento atualmente promissor de drones e outras tecnologias militares desumanizadas, parece algo sobre o qual ainda vale a pena refletir e discutir. Ele próprio admite no posfácio, no entanto, que o livro representa idéias suas bastante datadas, e que, ao invés de mudá-las completamente em uma revisão, ele preferiu atualizar em uma continuação (Good Luck, Yukikaze, publicada em 1999).

A história é contada em um modelo episódico, em que cada capítulo contém os acontecimentos de uma determinada missão com início, meio e fim, como se fossem na verdade contos. Aos poucos, no entanto, pistas são jogadas para o leitor, formando uma trama maior, e também um tema maior, na medida em que as verdades ocultas sobre os JAM e quem eles realmente estão enfrentando começam a ser pincelados. O formato parece bastante com uma série de animação japonesa, na verdade – e não por acaso, a história foi de fato adaptada em uma série de filmes para vídeo (os populares OVAs – Original Video Animations) entre 2002 e 2005. Como texto, no entanto, é difícil não se confundir um pouco com a quantidade de siglas e termos militares específicos; mas não é algo também que dificulte demais a leitura.

De maneira geral, Yukikaze é uma obra muito instigante e provocante. Em meio a tantas obras de fantasia que parecem ser a preferência do público atualmente, mostra ainda o que pode haver de envolvente em uma ficção científica mais hard. E é um excelente cartão de visitas para a ficção científica japonesa como um todo também, fazendo parte da já mencionada (e extensamente resenhada) coleção de livros de gênero traduzidas para o inglês pelo selo Haikasoru.

Jazz After Midnight

bass

Desde quando sou capaz de me lembrar, sempre fui apaixonado pelo Japão e a cultura japonesa. Amo sushi e saquê. Escrevo haicais eventualmente. Adoro assistir vídeos e competições de artes marciais, e até aprendi as regras básicas do beisebol. O Japão domina mesmo resto dos meus gostos pessoais, desde a música da Carmen Maki e Yoko Kano até os livros do Yasunori Kawabata e Haruki Murakami, e mesmo, vá lá, do Kazuo Ishiguro, ainda que ele seja mais inglês do que japonês. Talvez a principal exceção nesse quesito seja o jazz, que aprendi a apreciar e a amar depois adulto, mas mesmo ele provavelmente se deva muito mais à curiosidade despertada após vê-lo descrito com tanta paixão nas histórias de Murakami-sama. Acho que foram os anos assistindo desenhos animados e lendo histórias em quadrinhos, ou talvez as horas perdidas nos videogames vindos de lá, não sei. Não sou descendente de imigrantes nem tive amigos que fossem na minha infância e adolescência. Como não achar que há algo do Jaspion e dos Cavaleiros do Zodíaco aí no meio?

Por isso, desde que me tornei independente e com uma fonte de renda que me permitisse alguns luxos, transformei em um ritual pessoal viajar até o país pelo menos uma vez por ano ou a cada dois anos. Começou, é claro, como simples turismo: após algum tempo economizando, juntei dinheiro para passar cerca de uma semana em Tóquio durante um período de férias. Conheci os principais pontos da cidade – a Torre de Tóquio, o Palácio Imperial, o Templo Meiji, além, é claro, de Akibahara e o Museu Osamu Tezuka -, mas não me senti satisfeito. Dois anos depois estava de volta, e desde então, sempre que possível, ou quando o stress por aqui ficava insuportável, eu comprava uma passagem aérea e ia passar alguns dias do outro lado do planeta.

É claro, uma cidade só tem tanto de novidades a oferecer a um visitante tão frequente. Mesmo um país, na verdade, ainda mais um de dimensões tão reduzidas. Mas não me interessava conhecer outros lugares; nunca fui um entusiasta do turismo pelo turismo, de gastar horas sem fim em aeroportos apenas para conhecer culturas exóticas e locais exuberantes. Só o Japão me interessava. Era algo no ar, ou nas pessoas, ou talvez no chão mesmo, que me despertava a vontade de voltar e voltar e voltar ainda outra vez.

Não foi o fato de ter conhecido todos os principais pontos turísticos do país, assim, que me fez parar de visitá-lo. Bem pelo contrário, na verdade: conhecê-lo tão bem reforçava a minha vontade de voltar, de revê-lo e senti-lo novamente. Se não haviam mais lugares a visitar, ainda havia a simples vida das ruas, a energia que emanava dos transeuntes e dos prédios e dos ideogramas luminosos nas placas de lojas e restaurantes.

Gostava de sair dos hotéis onde me hospedava sem um rumo definido e apenas vagar aleatoriamente pelas redondezas. Não me preocupava sequer em marcar o caminho que fazia, apenas dobrando aleatoriamente em ruas, dando voltas e voltas ao redor dos quarteirões. Outras vezes perseguia pessoas aleatórias, apenas para ver onde elas me levavam. Quando decidia retornar, bastava chamar um táxi e dar o endereço e pontos de referência – o idioma, depois de tanto tempo, certamente já não era mais problema. Aos poucos comecei também a aumentar o perímetro destas minhas andanças, me afastando cada vez mais do meu ponto de origem.

O resultado desta brincadeira foi que todo um Japão diferente começou a se revelar para mim. Ruas estreitas, prédios sujos, lojinhas de esquina; ao que parece, mesmo um país de primeiro mundo possui o seu lado pobre e sombrio, que não é exposto em guias de viagens. Se havia um pouco de medo em andar por lugares assim, também havia uma emoção particular em desbravá-los e descobrir um país que se ocultava aos demais visitantes.

Certa vez, comecei a perseguir uma moça que andava pelo centro de Tóquio. Ela se destacava com facilidade na multidão por ser mais alta que as mulheres ao redor, vestindo algo como uma versão moderna de um quimono da época dos xogunatos; por mais que não destoasse das vestimentas modernas que a rodeavam, evocava também uma certa aura de magia e mistério, como um brilho místico que emanava das suas estampas de flores e dragões. Seus cabelos eram longos e escuros como a noite, e terminavam próximos aos quadris modelados pelo vestido, balançando como um pêndulo de hipnotismo.

Ela passou por mim e eu fui fisgado por esse balanço, puxado como um peixe em um anzol através de ruas e avenidas. Mais do que na sua atração sobre mim, havia algo de mágico no seu próprio caminhar: os sinais estavam sempre verdes, ou, quando não estavam, eram as ruas que estavam vazias, e as pessoas desviavam do seu caminho antes que ela precisasse fazê-lo. Nada parecia capaz de interrompê-la. Eu, por outro lado, não tinha tanta sorte: esbarrava em transeuntes, e quase fui atropelado ao menos três vezes. Mesmo assim, não conseguia perdê-la de vista. Se era forçado a desviar o olhar por algum motivo, ela sempre estava lá quando retornava-o na sua direção.

Quando dei por mim estava em uma parte desconhecida da cidade, em uma rua da qual nunca ouvira falar, em um bairro que não me parecia de qualquer forma familiar. O local era mal-iluminado – sequer havia percebido que já era noite -, e parecia haver poeira por todos os cantos. Na minha frente estava um par de portas deslizantes tradicionais de bambu e papel de arroz, sob um grande letreiro luminoso com os ideogramas 河童バー. Kappa Bar. Sem parecer ter outra opção, entrei.

O lado de dentro era melhor iluminado e preenchido por diversas mesas redondas ocupadas pelos clientes, com eventuais vasos de plantas para completar a decoração. Eu era o único gaijin, aparentemente. Em um palco pequeno na outra extremidade um quarteto de saxofone, contrabaixo, piano e bateria tocava standards de jazz; Take the A Train estava terminando quando eu entrei, e logo já começavam St. James Infirmary.

Com alguma relutância, escolhi uma mesa vazia e me sentei. Pedi um drinque com saquê e uma porção de tempura a um garçom tão pequeno que parecia ser mesmo uma criança. Em seguida, comecei a olhar ao meu redor em busca de sinais da mulher que me trouxe até aqui. Não a encontrei em nenhuma mesa.

Decidi relaxar e apenas aproveitar o ambiente. A banda era bastante boa, assim como a comida. Quando reconheci as primeiras notas de Round Midnight, chequei meu relógio: além de bons, eram também pontuais. Acompanhei a execução da música, uma das minhas favoritas, balançando a cabeça e batendo os pés no chão no ritmo dos acordes. Chamei o garçom e pedi outra bebida. Por um instante achei estar sendo observado, mas, ao virar o rosto, tudo o que vi foi a parede de bambu e papel que estava ao lado da minha mesa.

A música seguinte foi Sophisticated Lady. Não havia como esquecê-la: além de tocada com uma maestria incomum, como se o próprio Duke Ellington tivesse descido dos céus para regê-la, bastou os primeiros acordes ressoarem pelo salão para que uma salva de palmas se espalhasse por todas as mesas. Uma mulher caminhava por entre elas em direção ao palco, então subiu e posicionou-se à frente da banda. Sim, era ela: a mesma que havia me hipnotizado na rua e trazido até o bar. Pude reparar com mais atenção as suas feições agora que a via de frente, a pele pálida como arroz, os traços delicados como se pincelados com nanquim. Seu rosto arredondado era modelado com um queixo fino, dando por vezes, se olhado por um ângulo específico, uma impressão de profundidade, como se eu estivesse olhando para o focinho de uma raposa.

Ela acompanhou em silêncio o fim da música, apenas balançando o corpo suavemente no seu ritmo, e então aproximou os lábios do microfone à sua frente, tocando-o com delicadeza. Quando a voz saiu, tinha a potência de uma onda quebrando na costa, uma força da natureza que invadia o mundo dos mortais.

- Once I lived the life of a millionaire…

Foi um choque: a sua aparência frágil em nada sugeria o vigor bruto que eu sentia ao ouvi-la. A força da sua voz me fazia até mesmo ignorar a sua beleza; eu fechava os olhos e me imaginava ouvindo a própria Bessie Smith ressucitada. Pela segunda vez me sentia hipnotizado, agora pela audição.

O set vocal foi pequeno, com apenas três músicas. Ao fim delas, acompanhada pelos olhares de todos os presentes, ela desceu do palco e voltou a caminhar pelo salão. Senti um calafrio percorrer a minha espinha: ela mantinha os olhos fixos nos meus, vindo devagar em direção à minha mesa.

Sentou-se ao meu lado sem pedir permissão, e sem que precisasse pedir um garçom colocou um drinque à sua frente. A banda voltara a tocar, alguma faixa do Kind of Blue do Miles Davis. Um turbilhão de coisas passava pela minha mente: lembrava da perseguição no centro, os seus quadris balançando, a entrada no bar, os olhos dos outros clientes virando-se na minha direção. Senti meu rosto enrubescer, sem saber o que ela diria a respeito. Quando falou alguma coisa, no entanto, parecia estar alheia a tudo isso.

- Gostou da apresentação?

Demorei alguns segundos para responder, o que não pareceu surpreendê-la. Balbuciei que sim com alguma dificuldade. Ela então tomou um gole da sua bebida e seguiu falando sobre a qualidade dos músicos, a acústica do salão, a execução de standards famosos. Eu balançava a cabeça eventualmente, e de vez em quando dava alguma resposta monossilábica apenas para continuar a conversa.

Não sei exatamente quando percebi que havia alguma coisa… Diferente naquele bar. Em algum momento, entre um comentário sobre a vida pessoal de Charlie Parker e um sobre os improvisos dissonantes do Thelonious Monk, eu me virei rapidamente para o palco e percebi que não haviam músicos sobre ele. Mas a música continuava a ser tocada – os instrumentos simplesmente o faziam sozinhos! O saxofone flutuava enquanto cantava as suas notas, e o contrabaixo vibrava as suas cordas sem que ninguém as tocasse. As teclas do piano se moviam sozinhas, da mesma forma que os pratos e tambores da bateria.

Olhei para o meu copo, me perguntando o quanto já havia bebido, mas a verdade é que não me sentia embriagado. Aos poucos, comecei a perceber os tipos que ocupavam as mesas ao meu redor: logo ao meu lado uma moça com duas bocas, uma delas no lado de trás da cabeça, no meio dos seus cabelos, devorava um combinado de sushi e sashimi; um grande pescoço se contorcia por trás dos clientes, terminando em uma cabeça que roubava batatas fritas de uma mesa vários metros distantes de onde estava o corpo da sua dona; um menino de um olho só molhava os lábios com um língua enorme, enquanto olhava com um sorriso assustador para um prato de torta de chocolate na sua frente.

Olhei para os vasos que decoravam o ambiente, e percebi que as plantas tinham frutos que pareciam cabeças humanas. Os quadrados de papel nas paredes de bambu tinham olhos que observavam tudo o que acontecia no salão. Em algum momento eu me desculpei com a minha acompanhante e disse que precisava ir ao banheiro; chegando lá, no entanto, dei de cara com um menino assustador de pele vermelha e apenas um dedo em cada pé. Dei meia-volta e resolvi voltar para minha mesa, mas no caminho acabei pisando sem querer em uma das caudas de um gato que se apoiava sobre duas patas em frente ao balcão do bar. Ele soltou um grito e eu tentei me desculpar, mas antes que percebesse já estava recebendo uma chuva de tapas das suas patas dianteiras.

Quando retornei encontrei a cantora conversando com o garçom, que só então reparei ter pele esverdeada e escamosa, com uma espécie de casco sobre as costas e um rosto alongado e reptiliano. Ela me disse que a conta estava paga e um táxi nos esperava do lado de fora. Consenti, e não questionei quando ela entrou comigo no carro e me acompanhou até o hotel.

Logo que entramos no meu quarto ela me jogou sobre a cama e começou a se despir. Não sei se era a minha imaginação ainda em choque pregando peças, mas na sua silhueta na escuridão eu podia jurar ver um par de caudas sendo soltas quando ela se desfez das peças inferiores. Só sei que ela veio por cima de mim e começou a morder o meu ombro suavemente com seus dentes afiados. Pouco depois eu me virei e fiquei sobre ela, deixando-a me abraçar e arranhar com unhas que pareciam garras. Seus gemidos soavam de alguma forma como uivos para o luar.

Acordei na manhã seguinte me sentindo cansado e fraco. Não havia qualquer sinal dela pelo quarto, exceto por uma profusão de pelos finos sobre a cama. Ao checar no espelho, ainda podia ver as marcas de onde ela me arranhara e mordera na noite anterior.

Gastei o resto da viagem procurando aquele bar. Tentei refazer meus passos, lembrar de pontos de referência, até perguntar para nativos se o conheciam, mas nenhum jamais ouvira falar dele. Outras vezes apenas caminhava sem rumo pelo centro de Tóquio, esperando que a mesma mágica que me fez encontrá-la daquela vez acontecesse novamente.

Voltei para casa. Retomei minha rotina. Isso foi há… Dois anos? Três? Por algum motivo, no entanto, não tive coragem de retornar ao Japão desde então. Mais de uma vez busquei uma passagem na internet, mas sempre no último instante algo me fazia fechar o navegador sem completar a compra. Era como se tivesse perdido algo naquele dia – algo que, mais do que me fazer falta e motivasse a minha busca, na verdade me enchia de medo de ser recuperado.

Samurai X

Samurai-XO Japão tem uma filosofia curiosa de adaptações cinematográficas. No ocidente (ou, mais especificamente, Estados Unidos), um anúncio desses é um desespero para os fãs, sempre temerosos de quais mudanças o seu precioso material original sofrerá pelas exigências do estúdio, do público-alvo, e daí por diante; lá, ao contrário, me parece que esse tipo de temor é quase inexistente, ou no mínimo infundado. O objetivo parece ser muito mais o de fazer uma orgia de cosplayers, mantendo toda a identidade visual original quase que nos mínimos detalhes, e a maior parte da história, personagens e tramas também.

A adaptação da série de mangá e anime Samurai X segue muito bem essa tendência, caprichando na caracterização, figurino e no roteiro para que tudo o que for possível se mantenha fiel ao clássico de Nobuhiro Watsuki. Conhecemos nele a história de Kenshin Himura, um espadachim andarilho, sobrevivente das guerras da Restauração Meiji no Japão, mas que após o seu fim prometeu nunca mais matar um ser humano. Anos depois, quando um assassino começa a usar o seu antigo nome para cometer crimes, ele precisa confrontar novamente os fantasmas que deixou para trás.

Há desvios da trama original, claro, mas são na maioria das vezes inevitáveis – alguns pequenos ajustes na história, misturando alguns dos arcos iniciais, simplificando a introdução do Yahiko, colocando o vilão Jin-E no comando do grupo Oniwabanshuu, ao invés do anti-heroi Aoshi (que deve aparecer apenas na sequência), e coisas assim, eram necessários para dar coesão ao formato de um filme com seu par de horas de duração. De maneira geral, no entanto, são coisas pequenas, e que se encaixam bem com a trama geral.

O resultado é que o filme é muito mais uma festa para os fãs do que um blockbuster hollywoodiano. A série original sempre foi muito elogiada pelo pano de fundo histórico aprofundado, o que talvez tivesse algum apelo para fãs de um cinema mais tradicional, mas isso é perdido na estilização dos combates e personagens. E se eu acho isso ruim? Nem de longe! O que se perde, talvez, em realismo e verossimilhança, se ganha em combates impecavelmente dirigidos, que remetem aos quadrinhos e ao desenho animado sem perderem em emoção na sua versão de carne e osso. O único ponto negativo mesmo dessa estilização está na interpretação excessivamente caricata e afetada de alguns vilões, como o empresário Kanryu Takeda, mas é algo fácil de ignorar no fim das contas.

A edição nacional em DVD e blu-ray também tem alguns mimos muito legais para os fãs de longa data. A capa, por exemplo, possui dois lados – é vendida nas lojas com o título ocidental, mas possui no lado de dentro o nome original, Rurouni Kenshin (“Kenshin, o Andarilho,” lembrando que o personagem não é um samurai verdadeiro), bastando invertê-la se você preferir assim. E uma das opções de áudio é uma dublagem especial em português feita com os mesmos dubladores que fizeram a série quando ela foi exibida por aqui pela primeira vez. No entanto, há um problema sério no som também e na sincronização das legendas, deixando os consumidores até o momento na espera de um recall.

Em todo caso, é um filme muito legal sim, para os fãs da série original ou que gostem de filmes de ação e artes marciais. Apenas não esperem algum tipo de drama histórico do Akira Kurosawa, o que nem sequer é a proposta da produção.


Sob um céu de blues...

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@bschlatter

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