Textos categorizados 'contos de fada'

Annabel & Sarah

Quando resenhei A Viagem de Chihiro, tempos atrás, gastei a maior parte do texto em uma longa digressão sobre os filmes mágicos que assistimos na infância e acabam virando memórias muito vívidas da vida adulta, praticamente bombas de nostalgia prontas para explodir à menor menção. Clássicos Disney, filmes de fantasia, desenhos animados orientais – tanto faz, na verdade, e cada época há de possuir os seus, ou será uma época muito triste no fim das contas. Annabel & Sarah, romance de estréia do escritor mineiro Jim Anotsu, conseguiu a façanha de me remeter praticamente desde a primeira linha a esses momentos, e me lembrar com os seus animais falantes e cenários surreais as horas e dias passados em frente à televisão e ao videocassete.

As protagonista deste conto de fadas pós-moderno são as irmãs adolescentes Annabel e Sarah (de onde o leitor astuto perceberá que veio o título do livro), que, apesar de serem gêmeas, não possuem praticamente nada em comum. A primeira é cheia de atitude e sarcasmo, veste jeans surrados e tênis All-Star, enquanto a segunda, ao contrário, é alegre e apaixonada por moda, e sonha mesmo em se tornar uma top model. Como seria de esperar, ambas também se odeiam mutuamente. As coisas mudam, no entanto, quando Sarah é seqüestrada por uma mão monstruosa que sai de dentro de uma TV, e resta à irmã ir atrás da flor Amor-Perfeito que poderá libertá-la.

A partir daí o livro se divide em dois, contando em capítulos alternados as aventuras pelas quais cada uma delas passa, os perigos que enfrentam, e como aprendem eventualmente o quanto precisam realmente uma da outra. Sarah vai parar em um mundo onde a felicidade é a lei, literalmente, e quem não a obedece corre o risco de sumir da sociedade; e Annabel, na sua busca para salvar a irmã, se alia com um lobo detetive particular em um mundo de animais falantes inspirado na literatura noir. E a história segue assim, um misto de Lewis Carrol e George Orwell de um lado e Jack Kerouac e Dashiell Hammett do outro; perdidas no meio do caminho, dúzias de referências literárias e ao universo pop, de nomes de músicas e bandas a personagens e autores, que adicionam toda uma camada extra muito bacana à leitura.

Jim possui um estilo muito gostoso de se ler, dando muita vida e expressividade às personagens. Não há como não ser cativado pela personalidade das duas irmãs, bem como todos os coadjuvantes surreais que encontram pelo caminho, sejam mímicas com problemas de dicção ou raposas, lobos e gatas falantes. Há apenas alguns problemas menores em alguns momentos,  coisas que talvez pudessem ser ajeitadas em uma última revisão, mas na maior parte do tempo o texto é fluido e impecável. De defeito mesmo, acho que só o fato de ser um livro curto – não necessariamente pequeno, mas o roteiro é bastante linear e direto ao ponto, e é uma leitura simplesmente tão deliciosa que é difícil não chegar no final querendo mais.

Em todo caso, Annabel & Sarah é um excelente livro, e um dos começos de carreira mais promissores da literatura nacional recente. Recomendo muito.

Rei Rato

Rei Rato traz de volta um velho conhecido do blog, mas de quem eu não falava fazia algum tempo – o escritor britânico China Miéville. Trata-se, no caso, do seu romance de estréia, e também o primeiro a ser traduzido para o português e lançado no Brasil pela Tarja Editorial, que, dizem os boatos, está trabalhando em uma edição nacional do clássico Perdido Street Station.

O livro conta a história de Saul Garamond, um jovem londrino que um dia é acordado pela polícia para descobrir que o seu pai está morto depois de cair da janela do apartamento. É claro que não foi um simples acidente, e esse é o estopim que o colocará em contato com todo o mundo estranho e fantástico que existe sob as ruas de Londres, bem como lhe revelar detalhes obscuros sobre o seu nascimento e ascendência.

Em alguns aspectos, o cenário e a história lembram bastante Lugar-Nenhum, do Neil Gaiman – ambos lidam, afinal, com universos escondidos sob as ruas londrinas, e a queda de alguém “de cima” até eles. Se Gaiman cria um mundo colorido e cheio de magia, no entanto, Miéville é muito mais duro na sua caracterização, enchendo a sua anti-Londres de sujeira e podridão, e até mesmo fazendo os seus protagonistas se alimentarem dela. Por outro lado, achei o cenário do primeiro muito mais vivo e pulsante, repleto de personagens únicos e ambientes envolventes, o que me levou mesmo mesmo a refletir algumas coisas sobre o nosso próprio mundo; o universo mágico de Miéville, ao contrário, parece mais simples e objetivo, quase um cenário teatral mesmo, apenas um pano de fundo para o seu roteiro se desenvolver. Muito mais viva são as suas descrições da Londres original, e da cultura urbana do drum and bass que permeia a narrativa.

Já no roteiro propriamente dito, Miéville é de fato muito mais eficiente do que o Gaiman. Trata-se de uma história de jornada do herói, auto-descoberta e amadurecimento bastante simples, a bem da verdade, mas muito bem executada. Ela reconta e atualiza um conto de fadas clássico – O Flautista de Hamelin -, trazendo-o para a Londres moderna, recheando-o com drum and bass e transformando-o, em alguns momentos, quase em uma história de super-heróis, ou mesmo em um mangá shonen, desses em que personagens super-poderosos se debatem por sobre os prédios da cidade. Longe de ser uma história juvenil, no entanto, ela é também pesada e forte, sem se furtar de descrever mortes e amputações de forma bastante gráfica, e com um quê de romance policial em alguns momentos.

Considerando o meu conhecimento de obras posteriores do autor, é interessante notar também a sua evolução enquanto escritor. Pode-se ver bem que se trata do seu primeiro romance, pela forma como ele organiza as descrições e o roteiro, e também como tateia um tanto receoso em algumas delas. A sua ideologia política assumida também se faz presente, embora raramente de forma panfletária – apenas a cena final quase me fez rir em voz alta, pelo seu exagero intrínseco.

A tradução de Alexandre Mandarino também merece todos os méritos. Pela apresentação já dá pra perceber que se trata de uma obra difícil – muitas passagens e diálogos são escritos no dialeto cockney, que é falado pela classe trabalhadora em alguns locais de Londres, o que torna uma tradução e adaptação bastante complicadas. O uso de gírias comuns acabou funcionando bem, acho eu, e o resultado é uma leitura fluida e fácil. O uso extensivo de notas de tradução, algo com a qual eu geralmente tenho algumas reservas, também serviu bem pra elucidar as poucas dúvidas que surgiram, e o seu posicionamento no fim dos capítulos não atrapalha o fluxo da narrativa – você pode facilmente ignorá-las por completo se assim quiser.

Enfim, Rei Rato é um livro muito interessante, o livro de estréia de um dos principais e mais premiados autores de fantasia atuais, finalmente publicado em português. Para os que liam o blog e ficavam curiosos a respeito mas não entendem o suficiente de inglês para ir atrás dos originais, essa é a chance de vocês.

The Wind-Up Bird Chronicle

Qualquer um com um interesse um pouco mais do que básico em literatura certamente já ouviu falar na jornada do herói. Descrita no clássico O Herói de Mil Faces, de Joseph Campbell, trata-se de uma estrutura básica que, segundo ele, estaria em todas as histórias criadas pela humanidade, de qualquer época ou civilização – desde os mitos religiosos até os filmes de Hollywood, passando por contos de fadas, clássicos da literatura, e o que mais houver aí no meio. A forma como ela foi adotada por alguns escritores e roteiristas, inclusive, tem algo de polêmica, pelo seu potencial para virar uma “receita de bolo” fácil, em que você só põe os ingredientes na ordem certa e pronto, tem um épico literário instantâneo.

Não cabe a mim fazer aqui uma crítica ou defesa da jornada em si, é claro, exceto para ressaltar que, quando feita por um cozinheiro habilidoso, que sabe como temperar e tirar o melhor de cada ingrediente, mesmo uma receita manjada ainda pode ser saborosa e única no seu resultado final. Esse é o caso de Haruki Murakami, que, em The Wind-Up Bird Chronicle, nos oferece a sua abordagem da jornada do herói temperada com bastante shoyu e teriyaki, em uma das suas formas mais puras, qual seja, a do conto de fadas.

Claro que estamos falando de um Murakami, e não de um filme Disney, então deve-se entender uma concepção bem particular de conto de fadas. O cenário é o Japão contemporâneo e globalizado, e os seus personagens e problemas iniciais também – Toru Okada, o protagonista, não é nenhum príncipe perdido, mas um mero adulto desempregado que passa seus dias bebendo cerveja e ouvindo discos de jazz na casa que divide com a esposa; e a sua jornada começa com a busca por um gato perdido, e não qualquer tipo de encontro sobrenatural. E cada ajudante místico que ele encontra pelo caminho possui uma história mais singular e única do que o anterior, muitas vezes envolvendo acontecimentos violentos e, em particular, a ocupação japonesa da região da Manchúria durante a Segunda Guerra Mundial.

Mais do que uma paródia, o que o livro faz realmente é uma releitura e ressignificação dos símbolos e arquétipos tradicionais da jornada do herói e dos contos de fadas. Você possui lá o fiel escudeiro (e tanto faz se ele é uma colegial problemática ao invés de um garoto empolgado), a princesa enfeitiçada (presa em um quarto de hotel ao invés de uma torre inalcançável) e o feiticeiro maligno (que usa terno e gravata ao invés de mantos escuros); e nada disso está fora do lugar, em um ambiente sem contexto, ou meramente para constar.

Claro, não seria um conto de fadas deixando de lado a fantasia, e isso o livro também tem de sobra. É Murakami, afinal, e, como eu já disse em outro momento, há algo na forma como ele escreve que transforma a leitura em uma espécie de sonho, onde impera a lógica do surreal e do impossível, sempre andando em cima do muro entre o realismo e a magia. A linha entre os dois lados é muito sutil, e nunca há como saber com certeza até que ponto um diálogo é só um diálogo, ou uma metáfora é só uma metáfora.

Em todo caso, The Wind-Up Bird Chronicle é um livro excelente, um épico fantástico dentro dos seus próprios termos, e que utiliza a jornada do herói de uma forma bastante singular e cativante. Talvez seja o melhor livro do autor que eu li até o momento, o que não é exatamente pouco.

Stardust

Neil Gaiman é um autor um pouco complicado de resenhar, por causa de uma certa tendência que possui de formar aquele tipo de tiete chato que vai elogiar qualquer coisa que ele escreva antes mesmo de ler. Assim, se a resenha for positiva, pipocam comentários sobre como ele é o máximo e que sequer citam a obra que se está resenhando; e se for negativa, vai dar margem para começar uma daquelas discussões intermináveis de internet na qual nenhum dos lados está disposto a abrir mão do seu ponto de vista. Felizmente, no entanto, essa tietagem toda é justificada em boa parte dos casos, já que Gaiman é em geral um autor com mais acertos do que erros. No entanto, alguns de seus trabalhos, mesmo quando bons, acabam sendo valorizados um pouco além da conta. Stardust (que na edição nacional recebeu o subtítulo de O Mistério da Estrela) vai um pouco por este lado.

O livro narra as aventuras de Tristran Thorne, habitante de Wall, uma pequena vila inglesa de meados do século XIX, que parte em uma busca por uma estrela cadente para dar de presente à garota por quem ele nutre uma daquelas paixões platônicas típicas da adolescência, e acaba por isso indo parar em um mundo mágico repleto de seres maravilhosos. É uma história que se assume desde o princípio como juvenil, daquelas até um pouco bobinhas, do tipo em que um garoto aparentemente comum parte em uma jornada fantástica em direção, entre outras coisas, à maturidade – mas isso não chega a ser necessariamente um demérito, claro; apenas acho que seria uma história juvenil melhor não fosse o seu protagonista um personagem um tanto bobinho demais na maior parte do tempo, apesar de que isso também é um mal de heróis juvenis em geral.

Em todo caso, se a história em si deixa a desejar, o grande mérito do livro está no mundo fantástico que ele constrói como cenário. O ambiente de Stardust transborda magia e fantasia; é um mundo de contos de fadas completo, por vezes de forma bem exagerada e até cômica, onde todo animal é algum ser enfeitiçado e pequenas rimas infantis ganham status de informações privilegiadas. A própria leitura do livro lembra bastante certos filmes clássicos de fantasia dos anos 80, como Labirinto ou História Sem Fim, e não é por acaso que a versão cinematográfica da obra tenha sido bastante comparada a eles. É certo que algumas vezes esta magia toda parece passar do ponto, soando mais como desculpa para resolver situações em que o autor coloca os personagens e da qual não parece haver outra saída – o velho truque literário do deus ex machina; mas é justamente nas descrições deste ambiente fantástico, com suas bruxas ambiciosas e nobres traiçoeiros, que brilha a prosa de Gaiman, e justifica um pouco aquela tietagem toda que existe em cima dele.

Stardust é, enfim, um belo exemplar daquilo que os norte-americanos chamam de pageturner, ou vira-páginas, do tipo que você vai lendo página após página com tanta naturalidade que, quase sem perceber, já se vê chegando no final. Juvenil e bobinho que seja, até que é uma boa história juvenil e bobinha, que, acredito eu, tietes do Neil Gaiman e qualquer um com algum gosto pelo fantástico hão de achar no mínimo agradável.

Príncipe

Tudo parecia perfeito: do sofrimento anterior, rodeada de perigos no fundo mais sombrio do poço da alma, até o resgate heróico quando tudo parecia perdido, trazendo-a de volta à luz da vida. E tudo levava àquele momento: o abraço apertado, o queixo roçando no cabelo, a tensão aliviada em um único cruzar de olhares. Nada mais daria errado; o mundo era perfeito, e nele só havia esperança.

Os segundos pareciam não passar, e talvez ambos preferrissem que não passasse. Mas ele a segurou pela cabeça, e, olhando profundamente nos seus olhos, disse:

- Tudo bem agora? Então vamos logo que o táxi tá esperando.

O Jabuti e O Ornitorrinco

Vivia o jabuti nas matas brasileiras. Ele crescia, se alimentava e se reproduzia, se integrando harmonicamente ao seu ecossistema.

O ornitorrinco, por outro lado, vivia na Austrália. Também ele, no seu habitat, crescia, se alimentava e se reproduzia, se integrando harmonicamente ao ecossistema onde vivia.

Os dois nunca se conheceram, nem travaram qualquer tipo de diálogo moralmente edificante entre si.

Moral da história: o Brasil e a Austrália ficam longe demais um do outro para os seus animais nativos interagirem.

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Sob um céu de blues...

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@bschlatter

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