Posts Tagged 'grêmio'



Celso Roth, Felipão e o Populismo Tático no Futebol

celso-roth2Então eu volto de viagem no início da semana e encontro meu time sem técnico. Nada muito surpreendente – muitos já cobravam que isso acontecesse há algum tempo, e não foi uma demissão de todo injusta. Eu, no entanto, não sei se estou mais aliviado por ela, ou preocupado quanto a quem deve ser contratado para o cargo; não vejo muitas boas opções disponíveis, a menos que a diretoria realmente abra o cofre pra trazer alguém de fora. E é uma decisão muito importante pra simplesmente pegar qualquer um – o time, afinal, vai ser o time desse técnico escolhido.

É um pouco curioso isso, mas realmente se pode perceber que, nos times atuais, especialmente no Brasil, é muito mais fácil associar um time ao seu técnico do que aos jogadores, com poucas e honráveis exceções. Quando se fala dos grandes times do passado, é comum relacioná-los aos seus principais ídolos, como o Santos de Pelé e o Botafogo do Garrincha nos anos 60, o Inter do Falcão nos anos 70, ou o Grêmio do Renato e o Flamengo do Zico nos anos 80; desde os anos 90, no entanto, o que se percebe é cada vez mais essa evidência do técnico: o São Paulo bi-campeão mundial não foi o do Raí, mas o do Telê; da mesma forma, o grande Grêmio do meio dos anos 90 não foi o do Jardel ou do Paulo Nunes, mas o do Felipão, e a Copa de 94 pode ter sido a Copa do Romário, mas a seleção de 94 era a seleção do Parreira, assim como a de 2002 foi incotestavelmente a do Felipão. E não é exatamente uma associação gratuita – de fato, são hoje os técnicos que respondem pela maior parte do time; basta ver qualquer entrevista coletiva após os jogos, sempre encabeçadas por eles, para só depois serem escolhidos os dois ou três outros jogadores que participarão, e mesmo estes muitas vezes não exatamente com grande atenção, relegados ao papel de meras peças movimentadas pelo verdadeiro agente ativo na partida.

Muito se fala já há algum tempo, em alguns estudos e livros mais acadêmicos, dessa tendência à coisificação do jogador de futebol, que deixa de ser propriamente um atleta para se tornar uma espécie de peça de xadrez, um soldado anônimo de um regimento militar, subordinado às ordens de um comandante. Acho que se pode notar esse tipo de noção desde os próprios princípios do esporte, quando as propostas de regras que valorizavam o jogo coletivo de passes foram mais bem sucedidas do que aquelas do jogo individualista de dribles; e ele ainda passa certamente pela sua massificação na Inglaterra no fim do século XIX, quando esteve fortemente associado aos times de operários de fábricas que acabaram, por diversas razões, impregnando o jogo de uma mecanização tática derivada das formas vigentes de divisão do trabalho. Muitas das tensões e conflitos históricos entre clubes e atletas, bem como os respectivos regulamentos que surgiram para lidar com eles, tem a ver com isso, em especial famosa lei do passe, que transforma o jogador legalmente em uma propriedade; e certamente há evidências muito fortes disso em toda a política e mesmo o vocabulário próprio do mercado do futebol recente, aquele que agrupa os jogadores em safras a serem cultivadas e mantidas a salvo do resto do mundo.

Isso se relaciona ainda com toda aquela visão cientificista do futebol que cada vez mais predomina entre fãs e especialistas – basta ver todos os comentários de técnicos e cronistas, recheados de termos específicos, teorizações e formualações abstratas, às vezes quase esquecendo dos jogadores que deverão executá-las. E daí provavelmente vem, em um primeiro momento, essa evidência recente em que se coloca o papel do técnico; é ele, afinal, o responsável por lidar com esse tipo de questão, que vai ter a visão panorâmica do time, não restrita à função de um único jogador ou dois, e que deve organizá-lo com esse fim. E que não reclame se for ele o despedido quando o time vai mal, é claro – afinal, um jogador de xadrez que perde uma partida também não pode colocar a culpa nas peças.

Não estou, é claro, desdenhando daqueles que vêem no futebol um jogo tático, até porque não é uma visão de todo errada; é inegável que há uma dimensão tática e estratégica muito evidente no futebol, e bastante acentuada nos últimos anos. Há muitos bons técnicos capazes realmente de decidir a partida com a escalação ou substituição de um jogador, dando o famoso nó tático no adversário – o Mano Menezes é o exemplo mais atual que me vem a mente, mas há muitos casos. O próprio Celso Roth demitido pelo Grêmio tem no seu currículo uma boa quantidade deles, e já demonstrou que sabe ser inteligente na hora do aperto, quando não está tão confortável e seguro no seu cargo a ponto das suas convicções o levarem a ignorar o grupo de jogares que possui, e assim se sentir com liberdade para inventar aberrações como o 3-6-1, o time com quatro zagueiros, e todas as surubas de volantes pela qual é conhecido. Mas há algo mais aí que não pode ser ignorado, no momento em que um jogador de futebol não é uma peça fria e sem personalidade; é algo que vai além da simples lógica da diferença a que muitos querem reduzi-lo.

É curioso, também, que essa centralização do time em volta do técnico se dê com muito mais evidência no Brasil do que na Europa. Não digo que não hajam lá técnicos famosos; temos o Alex Ferguson, há vinte anos na frente do Manchester United, o Arsène Wenger, há quase tanto tempo no Arsenal, e mesmo o José Mourinho, talvez aquele com um estilo mais centralizador entre eles. Mas ainda há lá a idéia do time do jogador, muito mais do que do técnico, até por uma questão de marketing – o Manchester atual é o Manchester do Cristiano Ronaldo, como há não muito tempo atrás era o do Beckham; o Barcelona já foi o Barcelona do Ronaldinho, e hoje provavelmente é o do Messi ou o do Eto’o; e o Milan é hoje, sem a menor dúvida, o Milan do Kaká. Não sei até que ponto pode ser eu também que não acompanho com tanto afinco toda a imprensa e a mídia dos países europeus, apesar de certamente me manter informado, mas não vejo tanto os técnicos de lá justificando suas escolhas e explicando suas estratégias da mesma forma que fazem no Brasil, com toda aquela pompa semi-científica comentada anteriormente.

Em parte, acho que isso se explica pela própria situação atual do país como exportador de matéria-prima, assumindo aí de vez os termos econômicos no vocabulário do futebol. É aquele tema já chavão de debate em programas esportivos: o fato de que os clubes nacionais não conseguem mais manter seus ídolos, que vão para o exterior em apenas um ano ou dois depois de entrar para o time, às vezes em questão de meses ou mesmo sem sequer estrear profissionalmente. Uma vez que há toda essa diáspora dos principais jogadores, a grande constante de um determinado time acaba sendo representada justamente pelo técnico, que é quem deve remontar a equipe a partir dos que restam cada vez que um sai, e com isso é ele que acaba mais exposto e identificado aos sucessos e fracassos, e as questões que o envolvem se tornam mais fundamentais e difundidas. Imagino que algo semelhante talvez aconteça em outros países sul-americanos, como a Argentina, que também tem um mercado formador e exportador, bem como alguns times de sucesso recentes fortemente associados aos seus técnicos, em especial o Boca Juniors do Carlos Bianchi; no entanto, não me considero suficientemente informado a esse respeito para poder fazer a afirmação.

Além desse ponto, eu, como estudante de História, tenho ainda a mania de procurar as raízes históricas de qualquer questão, e nesse caso não é diferente, e muito menos difícil de se encontrar. O Brasil tem uma tradição muito forte de paternalismo e personalismo nas relações sociais, que vem desde a época em que o ainda era um país predominantemente rural, com o coronelismo e a relação quase familiar que ele empregava no tratamento dos subordinados mais leais. Uma vez que a industrialização e a urbanização nacionais se intensificam a partir dos anos 30 isso também passa a ocorrer nas cidades, em um primeiro momento porque as massas que passam a habitá-la e a trabalhar nas indústrias vêm justamente dessas áreas rurais; no entanto, junto com a centralização política por que passa o país nesse momento, esse paternalismo é voltado mais para uma única figura central, que é a do presidente (e depois ditador) da repúlica, Getúlio Vargas – o pai dos pobres, vejam só, como viria a ser chamado (ainda que, para alguns estudiosos, ele também tenha sido uma mãe dos ricos, mas isso é outra história).

Esse é o período em que começa o chamado populismo no país, que é certamente bem mais complexo do que isso, mas que tem, entre outras características marcantes, essa relação de paternalismo do poder central com as massas que garantem legitimidade à sua atuação, bem como a centralização da atenção política em uma figura simbólica forte. É um fenômeno típico de países em processo de desenvolvimento e industrialização tardias, como foi o caso então de quase toda a América Latina; e ainda se pode ver alguns ecos desse pensamento hoje, em todos os programas assistencialistas do governo Lula e tentativas de apelo às massas em discursos e comícios políticos.

O futebol, como espelho da sociedade, certamente não deixaria de englobar todos esses elementos, em especial a partir da sua profissionalização, em grande parte porque as massas de jogadores que se profissionalizam nesse primeiro momento vêm de origens muito semelhantes às das massas que se tornam a base do operariado industrial brasileiro. Há algumas histórias bastante emblemáticas desse processo a partir dos anos 20, como o caso do Vasco, que, para disputar os campeonatos amadores do Rio de Janeiro no início do século, que tinham como restrição que todos os jogadores fossem alfabetizados, contratava professores para ensinar os atletas a escrever o próprio nome, e assim serem capazes de assinar as súmulas das partidas. Talvez seja mesmo daí que vem toda essa bolha que em geral se cria em torno dos jogadores de futebol, vistos em certo sentido como meros mortais vigiados de cima pelos deuses durante o tempo mítico cíclico de uma partida – aliás, é curioso que, nos estádios, os preços de ingresso são progressivamente mais caros à medida que os lugares correspondentes são mais altos, como se fossem diferentes níveis de divindidade a observar e julgar os homens em campo. Provavelmente venha daí também toda a tendência em subestimar as capacidades de um jogador fora do jogo, evidente nas perguntas de repórteres esportivos na saída das partidas, que por vezes já respondem de antemão o próprio questionamento e reduzem a fala do atleta a um simples concordar ou discordar; e é certamente daí que vem também essa centralização da figura do técnico, visto como uma espécie de pai-protetor-responsável pelas atuações em campo, um líder populista do futebol.

Nenhum técnico atual encarna melhor esse fato, acredito, que o grande Felipão, que eu, como bom gremista que sou, não posso deixar de idolatrar incondicionalmente. Não sei se posso dizer que seja um grande técnico do ponto de vista mais objetivo – acho que foi o José Miguel Wisnick que, no seu livro de análise sobre o futebol brasileiro, ao discutir as frases e comentários do Felipão sobre as atuações da seleção na Copa de 2002, destacou a total generalidade das suas afirmações táticas, raramente saindo dos números mais abstratos de posicionamento e entrando nas funções mais específicas de cada jogador. E, de fato, o seu trabalho como treinador raramente possui um grande brilho estratégico, e ainda assim é de um sucesso inegável. Como é possível, então?

Felipão é um técnico populista, paternalista, cuja atuação é centrada principalmente na relação com os seus trabalhadores e operários – os jogadores. A sua grande virtude, antes do que na capacidade estratégica, está muito mais na forma como ele reúne os jogadores e forma fortes laços afetivos com eles, formando a família Scolari da vez, cuja denominação já é bastante clara quanto ao tipo de relacionamento que a mantém. Se as suas soluções táticas são simples e previsíveis, raramente indo muito além de idéias formadas que estejam em evidência no momento, mas sem, é claro, jamais serem por isso ruins, é na motivação e orientação dos jogadores para cada partida que ele se destaca. Basta ver a natureza das competições em que ele obteve sucesso – todos os seus grandes títulos são de torneios curtos ou com grandes fases eliminatórias, da Copa do Mundo à Libertadores da América, onde se pode motivar a equipe fortemente para um determinado jogo ou grupo pequeno de jogos sem exauri-la demais no longo prazo; mesmo no campeonato mais longo por ele vencido, o Brasileirão de 1996 com o Grêmio, na fase de pontos o time ficou em uma colocação mediana, e foi nas partidas eliminatórias que o título foi conquistado. E é daí que entendemos também o que houve com ele recentemente, quando sua passagem pelo Chelsea foi bastante contestada e de pouco sucesso – não é um estilo muito eficiente em competições de longo prazo como a Premier League inglesa, onde, por mais que se esforce, é difícil manter uma motivação tão forte jogando duas ou até três vezes por semana; situação agravada ainda pelo próprio estilo do futebol inglês, que em geral mantém uma relação mais fria e profissional entre os jogadores, o técnico e o clube, o que dificulta a criação do tipo de relação que ele precisa para se destacar.

É interessante notar também alguns casos de meio-termos entre os dois extremos. Acho que um exemplo bem equilibrado aparece na figura do Tite, atual técnico do Inter mas que já demonstrava bem estas características quando treinava o Grêmio; é um técnico com uma boa visão tática, que sabe montar bem uma equipe do ponto de vista estratégico (o seu grande problema está em modificá-la durante o jogo, quando ele tende a cometer equívocos comprometedores, mas aí já é outra história), mas que também sabe adaptar suas convicções a um grupo de jogadores antes do contrário, bem como criar laços de relacionamento mais estreitos com eles. O Vágner Mancini, atualmente no Santos, também tem virtudes semelhantes, sabendo lidar com os jogadores mais do que comandá-los, e não concorrendo com eles pela atenção dos holofotes – o caso emblemático é a forma como ele não se intimidou em deixar jogar como titular o Neymar, ainda que seja apenas um jovem promissor de 17 anos (alguém imagina o Wanderley Luxemburgo fazendo o mesmo?); e é emblemático também que a sua saída do Grêmio no ano passado tenha se dado devido a um conflito com um dirigente quando tentava blindar e proteger os atletas da equipe em um momento complicado.

Enfim, não sei se é possível chegar a qualquer conclusão definitiva, mas acredito que são alguns pontos interessantes para uma reflexão mais aprofundada sobre o futebol, tanto do ponto de vista tático e técnico como, de uma forma mais ampla, dele enquanto fenômeno social e da sua relação de espelhamento com a sociedade na qual está inserido. Ou então,  e talvez até mais, apenas para uma boa conversa de bar regada a chope e batata frita mesmo…

Grêmio – Nada Pode Ser Maior

livro-nada-pode-ser-maiorFutebol-arte, todo mundo sabe, é coisa de veado. Não à toa, é chamado também de “futebol-bailarino”, como bem nos lembra Eduardo Bueno já no primeiro parágrado da introdução ao seu instigante ensaio sobre a história do Grêmio, o maior baluarte brasileiro (ou melhor, brasiliense) do futebol de verdade, aquele que é jogado com mãos e cotovelos, da formação tática 9-1 (a mais perfeita já utilizada no futebol mundial), dos volantes de contenção, do 0 x 0 com chuva e taça de campeão no armário, das goleadas de 1 x 0 com gol de bola parada aos 40 do segundo tempo.

Não é um ensaio sobre qualquer Grêmio, é bom destacar. É sobre o Grêmio como o autor o vê, bem como todos os outros Grêmios que pipocaram (ou melhor, permearam, porque pipocar é coisa de manés molóides praticantes do futebol-bailarino) durante o século XX – da celeste uruguaia que calou 100 mil amantes do futebol-arte no Maracanã em 1950, à camisa azul de listras brancas grega, que venceu, como de costume, o time vermelho de Portugal, no título que na época de lançamento do livro era o mais recente conquistado pelo Grêmio, esta entidade metafísica do chamado futebol-força – apesar de esta ser uma expressão redundante (se futebol não é força, é o quê?) -, a Eurocopa de 2004.

Peninha pode não ser exatamente o melhor dos historiadores – bem longe disso, na verdade – mas há de se admitir que é um excelente escritor. Com uma ironia sutil como um volante brucutu, relata todos os grandes momentos da história tricolor, todas as injustiças que sofreu durante os seus gloriosos anos de existência, todas as vitórias que apenas um praticante do futebol de verdade poderia conquistar, e todos os comentários invejosos da crônica esportiva do país vizinho, aquele dos manés molóides que acham que futebol é arte (só se for marcial). Eleva nomes como Lara e Foguinho ao status de heróis mitológicos, e narra brilhantemente conquistas como a das Libertadores de 83 e 95 e o Mundial de 83 como as epopéias que foram. Uma verdadeira crônica do verdadeiro futebol, escrita por uma espécie de Nelson Rodrigues que não era míope e podia de fato enxergar o que se passava em campo.

Enfim, Grêmio – Nada Pode Se Maior é um manifesto em favor do verdadeiro futebol, e merece ser lido por todos aqueles que entendem a real natureza do esporte bretão, bem como os que apreciam uma boa e irreverente leitura sobre o tema e sabem diferenciar ironia e deboche de provocação. Hoje, cerca de cinco anos depois da sua primeira publicação, ele pode até parecer incompleto, sem fazer menção a alguns feitos épicos realizados nos anos seguintes pela esquadra tricolor; no entanto, a sua mensagem para os apreciadores do futebol-arte, do futebol-bailarino, enfim, do futebol-perdedor, continua clara: o Grêmio pode até passar por percalços, quedas temporárias, momentos turbulentos; mas no fim, que é quando realmente importa, ele sempre ganha, e, se não ganhou, é só porque o fim ainda não chegou.


Sob um céu de blues...

Categorias

@bschlatter

Estatísticas

  • 169,282 visitas

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.