Textos categorizados 'new weird'

A Situação

A Situação é o primeiro livro do norte-americano Jeff VanderMeer publicado no Brasil, pela Tarja Editorial, que, lançando-o em conjunto com Rei Rato, tem tentado trazer para cá alguns nomes importantes do movimento conhecido como new weird, que fez algum barulho no mercado editorial lá fora nos últimos dez anos. Diferente do livro de estréia de China Miéville, no entanto, este aqui é uma obra bem mais modesta, tanto em tamanho quanto em pretensões. Ao invés de um grande romance, trata-se de uma pequena novela, não muito mais do que um conto alongado, desses que você consegue ler tranqüilamente em uma sentada ou duas.

O tema central do livro é o mundo corporativo e as suas normas e burocracias, mas extrapolados ao nível do caos absoluto, enquanto um determinado funcionário é gradualmente isolado na empresa pelos seus colegas de trabalho sem motivo aparente. Pense nos personagens e histórias em quadrinhos do Dilbert, mas jogados em meio a um cenário surreal repleto de horrores biomecânicos e criaturas monstruosas. O resultado final lembra algo dos Laundry Files do Charles Stross, com os seus horrores cósmicos perambulando em meio aos corredores de um órgão público; e muito dos pesadelos clássicos de Franz Kafka, tendo me remetido durante a leitura tanto às transformações psicológicas de A Metamorfose como aos labirintos normativos de O Processo.

Não sei exatamente como classificar o livro. É sim um trabalho de fantasia, certamente, mas me parece um pouco vazio querer classificá-lo com o mesmo rótulo de um Tolkien ou George Martin, por exemplo. Ele parte muito mais da nossa própria realidade, adicionando elementos fantásticos em situações pontuais; mesmo assim, não acho também que realismo fantástico seja uma boa classificação – não é a mesma cosia que fazem um Gabriel García Marquez ou Haruki Murakami, afinal. As imagens que me vinham a cabeça durante a leitura eram muito mais as das pinturas de artistas como Salvador Dali e Max Ernst: a fantasia usada não como justificativa de todo o enredo, e nem como ferramenta dele; mas sim como subversão da realidade, formando uma espécie de lente de aumento em que os absurdos da rotina em um escritório se tornam mais claros e evidentes. Por isso, acho que talvez a melhor classificação para ele seja mesmo o de surrealista.

Uma coisa que torna a leitura um tanto maçante, em todo caso, é justamente a forma como essa lente parece se aplicar a praticamente tudo. O TVTropes tem uma denominação própria para isso: Our Dragons Are Different (ou Nossos Dragões São Diferentes); é a tentativa de fazer com que uma coisa familiar e clichê fique subitamente original simplesmente trocando algum elemento dela por outro completamente diferente. Então se dragões normalmente cospem fogo, você irá fazer os seus cuspirem relâmpagos; e se arquivos geralmente são grandes armários repletos de papéis e pastas, você os fará como, hum, um tipo de mamífero exótico em estado de decomposição. VanderMeer faz isso o tempo todo neste livro, e depois de encontrar com besouros-espiões, lesma-elevadores e baratas-revólveres, é difícil se impressionar muito.

É interessante também destacar o trabalho gráfico feito pela editora. Até para dar um pouco mais de volume para uma obra que não é assim tão grande em primeiro lugar, foram adicionadas algumas imagens na abertura de cada segmento, sempre acompanhada de versão em negativo no verso da página. Misturando desenhos das criaturas descritas no livro com colagens de fontes, elas conseguem reforçar bem o clima de estranhamento e surrealismo da história, criando um efeito bem interessante como resultado final. Só a fonte escolhida talvez pudesse ter sido menos exagerada (podem ver ela na capa aí em cima), acho, mas aqui é só o meu designer amador interno dando palpites mesmo.

Em todo caso, A Situação é sim uma leitura bem interessante, que usa a fantasia como forma de nos fazer pensar e refletir sobre o nosso próprio mundo um pouco, além dar alguns sorrisos com algumas piadas de humor negro aqui e ali. Mas bacana mesmo seria ver uma obra como Veniss Undergroud, essa sim mostrando tudo que o autor é capaz de fazer, lançada por aqui.

Rei Rato

Rei Rato traz de volta um velho conhecido do blog, mas de quem eu não falava fazia algum tempo – o escritor britânico China Miéville. Trata-se, no caso, do seu romance de estréia, e também o primeiro a ser traduzido para o português e lançado no Brasil pela Tarja Editorial, que, dizem os boatos, está trabalhando em uma edição nacional do clássico Perdido Street Station.

O livro conta a história de Saul Garamond, um jovem londrino que um dia é acordado pela polícia para descobrir que o seu pai está morto depois de cair da janela do apartamento. É claro que não foi um simples acidente, e esse é o estopim que o colocará em contato com todo o mundo estranho e fantástico que existe sob as ruas de Londres, bem como lhe revelar detalhes obscuros sobre o seu nascimento e ascendência.

Em alguns aspectos, o cenário e a história lembram bastante Lugar-Nenhum, do Neil Gaiman – ambos lidam, afinal, com universos escondidos sob as ruas londrinas, e a queda de alguém “de cima” até eles. Se Gaiman cria um mundo colorido e cheio de magia, no entanto, Miéville é muito mais duro na sua caracterização, enchendo a sua anti-Londres de sujeira e podridão, e até mesmo fazendo os seus protagonistas se alimentarem dela. Por outro lado, achei o cenário do primeiro muito mais vivo e pulsante, repleto de personagens únicos e ambientes envolventes, o que me levou mesmo mesmo a refletir algumas coisas sobre o nosso próprio mundo; o universo mágico de Miéville, ao contrário, parece mais simples e objetivo, quase um cenário teatral mesmo, apenas um pano de fundo para o seu roteiro se desenvolver. Muito mais viva são as suas descrições da Londres original, e da cultura urbana do drum and bass que permeia a narrativa.

Já no roteiro propriamente dito, Miéville é de fato muito mais eficiente do que o Gaiman. Trata-se de uma história de jornada do herói, auto-descoberta e amadurecimento bastante simples, a bem da verdade, mas muito bem executada. Ela reconta e atualiza um conto de fadas clássico – O Flautista de Hamelin -, trazendo-o para a Londres moderna, recheando-o com drum and bass e transformando-o, em alguns momentos, quase em uma história de super-heróis, ou mesmo em um mangá shonen, desses em que personagens super-poderosos se debatem por sobre os prédios da cidade. Longe de ser uma história juvenil, no entanto, ela é também pesada e forte, sem se furtar de descrever mortes e amputações de forma bastante gráfica, e com um quê de romance policial em alguns momentos.

Considerando o meu conhecimento de obras posteriores do autor, é interessante notar também a sua evolução enquanto escritor. Pode-se ver bem que se trata do seu primeiro romance, pela forma como ele organiza as descrições e o roteiro, e também como tateia um tanto receoso em algumas delas. A sua ideologia política assumida também se faz presente, embora raramente de forma panfletária – apenas a cena final quase me fez rir em voz alta, pelo seu exagero intrínseco.

A tradução de Alexandre Mandarino também merece todos os méritos. Pela apresentação já dá pra perceber que se trata de uma obra difícil – muitas passagens e diálogos são escritos no dialeto cockney, que é falado pela classe trabalhadora em alguns locais de Londres, o que torna uma tradução e adaptação bastante complicadas. O uso de gírias comuns acabou funcionando bem, acho eu, e o resultado é uma leitura fluida e fácil. O uso extensivo de notas de tradução, algo com a qual eu geralmente tenho algumas reservas, também serviu bem pra elucidar as poucas dúvidas que surgiram, e o seu posicionamento no fim dos capítulos não atrapalha o fluxo da narrativa – você pode facilmente ignorá-las por completo se assim quiser.

Enfim, Rei Rato é um livro muito interessante, o livro de estréia de um dos principais e mais premiados autores de fantasia atuais, finalmente publicado em português. Para os que liam o blog e ficavam curiosos a respeito mas não entendem o suficiente de inglês para ir atrás dos originais, essa é a chance de vocês.

Veniss Underground

Jeff VanderMeer é, junto com China Miéville, um dos principais nomes do movimento new weird, que teve algum destaque na literatura de gênero internacional no início do século mas só agora começa a aportar por aqui através de alguns lançamentos recentemente anunciados pela Tarja Editorial. É dele alguns dos principais títulos do movimento, em especial o premiado City of Saints and Madmen, um livro tão complexo que, apesar de já ter lido, eu simplesmente não tive coragem de resenhar. E além de autor ele também é reconhecido pelo seu trabalho na organização de coletâneas, como The New Weird, reunindo alguns dos principais nomes associados ao rótulo, e o Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditas, no qual eu tive a honra de ser selecionado para participar na edição portuguesa.

Veniss Underground foi o seu primeiro romance publicado, uma vez que mesmo seus lançamentos anteriores, como o próprio City of Saints…, eram na verdade antologias de contos e novelas. Nele acompanhamos a história de Nicholas e Nicola, gêmeos ligados intimamente desde o nascimento, e de Shadrach, ex-amante e ainda apaixonado pela segunda, na cidade sombria de Veniss, que algumas dicas dispersas pela narrativa levam a crer ser localizada na própria Terra alguns séculos no futuro, quando algum tipo de desastre a transformou em um vasto deserto inabitável exceto por pequenos enclaves e cidades-estado. Apesar disso, no entanto, não podemos dizer que se trate de uma ficção científica pura – há espaço, é claro, para especulação e extrapolação científicas, em especial com respeito à cibernética e a engenharia genética, mas de maneira geral o cenário se encontra muito mais naquele território nebuloso onde a FC se confunde com a fantasia e o terror, e que é tão característico do new weird.

Em todo caso, os problemas e relacionamentos entre os três eventualmente os levarão atrás de Quin, uma figura poderosa e enigmática comparada nas sinopses ao próprio demônio, e a uma jornada pelos subterrâneos da cidade com fortes ecos d’A Divina Comédia e do mito de Orfeu e Eurídice. VanderMeer narra toda a história com muita habilidade, fazendo um jogo em que cada um dos personagens é protagonista em uma parte da história, que são mesmo escritas em pessoas diferentes e vão aumentando em tamanho até chegar ao desfecho. Nesse meio tempo, conhecemos o universo surrealista do autor, repleto de paisagens caóticas e criaturas maravilhosas capazes de encantar e assustar com praticamente a mesma força, como em uma pintura do artista medieval Hieronymus Bosch.

Além da narrativa principal, o livro também conta com um apêndice chamado Veniss Stories, que inclui três contos (The Sea, Mendeho, and the Moonlight, Detectives and Cadavers e A Heart for Lucretia) e uma novela (Balzac’s War), todos situados no mesmo universo. Com histórias mais simples, mas não menos envolventes, o autor retoma elementos marcantes do cenário, muitas vezes com fins trágicos. Apesar de serem tecnicamente independentes, um olhar atento pode mesmo reparar em uma certa continuidade, com o cumprimento ao fim da última história de acontecimentos previstos ainda da primeira parte do livro.

Veniss Underground, enfim, é um livro excelente, repleto de momentos cativantes e envolventes, o new weird no que ele tem de melhor. Recomendo muito, para quem não tiver problemas com a língua inglesa.

Escape From Hell!

Imagine que Snake Plissken, o clássico herói de ação pós-apocalíptica interpretado por Kurt Russel, foi finalmente pego pelos seus inimigos e executado friamente. Não imagino, é claro, que ele fosse para o paraíso – bem pelo contrário, desceria diretamente a algum dos níveis mais baixos do inferno. Depois de fugir de Nova Iorque, Los Angeles e, hum, Valkaria, no entanto, certamente não seria o inferno que iria segurá-lo…

Esta é a premissa básica de Escape From Hell!, de Hal Duncan. O próprio Snake Plissken não chega a aparecer, claro, mas a inspiração é bastante óbvia, tanto no tema da fuga impossível como na própria descrição do inferno imaginada pelo autor, uma versão distorcida de Nova Iorque governada por demônios e anjos caídos. No lugar do brucutu, temos quatro protagonistas: um assassino de aluguel, uma prostituta, um homossexual e um suicida sem-teto (a hitman, a hooker, a homo and a hobo, como o próprio livro os descreve), que decidem que suas não-vidas não eram exatamente muito boas e resolvem se arriscar por uma esperança de melhora.

Estes personagens são, inclusive, o elo fraco do livro. Todos são mais “tipos” do que propriamente personagens; o assassino e o sem-teto, em especial, são bastante estereotipados, apesar de o primeiro ter alguns momentos interessantes quando demonstra não ter nem o mínimo de remorso que se esperaria de qualquer protagonista de ação hollywoodiano. Por outro lado, também estão longe de serem o foco principal da história, que é muito mais a fuga alucinante que empreendem, quase um roteiro de blockbuster explosivo pronto para ser filmado.

A visão do inferno do autor é outro ponto alto, reimaginando e atualizando de forma muito criativa todas as referências clichês, de Dante à mitologia greco-romana. Como já destaquei, ele é descrito como uma visão distorcida de Nova Iorque, com ruas sujas e população decadente, administrada por demônios bem mais mundanos do que aparentam e governada por um anjo caído. Quem tiver uma visão religiosa mais ortodoxa, no entanto, pode se incomodar com alguns elementos, que assumem como verdade certas doutrinas mais próximas do gnosticismo do que das vertentes mais tradicionais do cristianismo.

A narrativa também faz um jogo muito interessante, ao enganar durante a maior parte do livro sobre o ponto de vista de quem a história é contada, uma vez que ele só faz a sua entrada triunfal na metade final. E o final, aliás, é arrasador – fecha bem o tema proposto para este volume, mas te deixa com aquela vontade sacana de ver uma continuação.

Escape From Hell!, enfim, é um livro muito divertido. De ponto fraco mesmo, eu diria que é um pouco curto demais, uma novela pequena e direta ao ponto ao invés de um grande e complexo romance. No entanto, para quem for fã de ação ininterrupta, explosões, brucutus cascas-grossas e do Kurt Russel, não há do que se arrepender.

Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas

Entrei em contato pela primeira vez com o intrigante trabalho do Dr. Thackery T. Lambshead através de alguns escritos do Dr. China Miéville, onde constava o seu relato bastante curioso a respeito da Praga de Buscard, retirado do famoso Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas. Tendo meu interesse despertado, busquei saber mais a respeito, mas à época o volume era disponível apenas em poucas e esparsas cópias britânicas e norte-americanas, de forma que não obtive sucesso em adquiri-lo.

Recentemente, no entanto, através da intervenção de uma conhecida a quem sou por isso muito grato, soube que era iminente o lançamento de uma edição portuguesa da importante obra, de forma que fui atrás de informações. Descobrindo também que estavam atrás de relatos de terras lusófonas para adicionar ao material original, prontamente preparei um pequeno artigo a respeito do Cancro de Meme, esta odiosa doença que há anos tem ocupado minhas pesquisas. Para minha surpresa, o relato foi considerado digno de ser incluído junto aos demais, e assim me uni a nomes como o dos Drs. Alan Moore, Neil Gaiman, Michael Moorcock e outros nesta belíssima edição da editora lusitana Saída de Emergência.

Deixo, portanto, minhas sinceras recomendações a respeito deste lançamento, para aqueles que por ventura forem capazes de adquirir livros de além-mar.

The City & The City

the-city-and-the-cityThe City & The City é o último livro de China Miéville, que, acredito, dispensa maiores apresentações por aqui. Desta vez, no entanto, ao invés de outra viagem pelo mundo weird de Bas-Lag, temos uma espécie de romance policial “estranho”, bem próximo do conceito do lingüista búlgaro Tzvetan Todorov, passado em duas cidades fictícias do leste europeu.

O livro começa, como é típico em histórias policiais, com um assassinato, e a investigação do inspetor Tyador Borlú, do Esquadrão de Crimes Extremos da cidade de Bèsz, para solucioná-lo. É claro, no entanto, que o que parecia um caso simples logo se revela bem mais complexo, envolvendo conspirações corporativas e políticas, bem como as complicadas relações de Bèsz com a cidade, podemos dizer, “vizinha”, Ul Qoma. A forma como essa questão é apresentada, aliás, é bastante interessante, sendo sugerida sutilmente nos primeiros capítulos e exposta de fato apenas quando as ligações da vítima com ambas as metrópoles se tornam evidentes; e é então que entendemos do que realmente trata o livro: uma fábula sobre cidades divididas, com ecos d’As Cidades Invisíveis de Calvino, se inspirando em algumas situações históricas, mas exagerando e extrapolando-as na melhor tradição da (boa) literatura fantástica.

Após quatro romances e uma coletânea de contos, alguns problemas do Miéville como autor já começam a ficar um pouco evidentes. Em especial, um que já aparecia em Iron Council, que é o pouco envolvimento pessoal de muitos personagens com a trama principal – o próprio protagonista, aqui, é pouco desenvolvido além da sua relação estritamente profissional com o caso que investiga, o que parece torná-lo muitas vezes distante dos acontecimentos, e nos leva a questionar seus interesses e motivações. The City & The City não tem tanto de romance psicológico quanto de metáfora política e social, o que não chega a ser necessariamente um defeito, é claro, mas há de diminuir o interesse de algumas pessoas.

O ritmo do livro também parece um pouco devagar, talvez justamente por esse distanciamento que se nota do personagem principal, com as revelações da investigação andando a passos lentos até os momentos finais, quando se aproxima mais de um filme de ação policial. Novamente, no entanto, este é um problema relativo – a revelação gradual e cuidadosa das pistas, somada ainda à situação peculiar das cidades onde a história se passa, é eficiente, e conseguem mantê-lo interessado na leitura e intrigado a respeito do mistério principal, cuja solução só começa a se desenhar de fato após as últimas reviravoltas.

Por outro lado, é possível notar alguma evolução e amadurecimento em comparação com os romances anteriores, tanto na linguagem do livro, mais acessível e necessitando de menos consultas a dicionários de inglês, bem como na estrutura da trama, mais redonda bem-acabada, sem excessos ou grandes experimentalismos. Apesar dos seus elementos de fantasia e surrealismo, The City & The City é um romance policial bem direto e objetivo, que, mesmo confundindo e blefando constantemente sobre a sua resolução, não chega a dar um nó no raciocínio. Apenas a forma como a história constrói certas expectativas só para poder quebrá-las por completo nos capítulos finais já começa a ficar um pouco manjada e previsível para quem leu outros livros do autor.

Para além da óbvia conotação política e todo o aspecto mais formal, ainda, é interessante notar como o livro, da mesma forma que Neverwhere, do Neil Gaiman, consegue, a partir da fantasia e do surrealismo, nos fazer refletir um pouco sobre a nossa própria realidade. É difícil, após entender como funcinam e se mantêm as fronteiras invisíveis de Bèsz e Ul Qoma, não se pegar pensando um pouco sobre as que existem nas nossas próprias vizinhanças, especialmente nas grandes cidades, e da forma como seletivamente escolhemos não ver ou ouvir pessoas que podem estar bem ao nosso lado, ignorando tudo o que foge aos nossos mundinhos fechados particulares.

Enfim, como saldo final, à parte de todos os poréns, The City & The City é uma obra bastante intrigante e envolvente, capaz de provocar a imaginação e nos fazer refletir longamente após o fim da leitura. Apresenta o amadurecimento de um grande autor, e é certamente uma recomendação.

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Sob um céu de blues...

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@bschlatter

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