Futebol, Arte e Espetáculo

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Algum tempo atrás, estava eu a assistir os programas de comentários de esportes (leia-se futebol) da TV a cabo, mais especificamente da SporTV, comentando sobre as finais dos campeonatos estaduais, apesar de que o meu próprio time mal foi citado uma ou duas vezes, por razões que não me vem ao caso no momento. Em um dado momento, no entanto, o comentarista Paulo César Vasconcelos, que pessoalmente eu acho um dos mais antipáticos da TV nacional (só perde para o gaúcho Maurício Saraiva), disparou, acho que durante o comentário do jogo do Flamengo, aquela pérola do senso comum: futebol é espetáculo. Houve lá um ou outro comentário irônico e cômico sobre a afirmação dos outros jornalistas da bancada, mas em geral todos concordaram com ele.

Pois bem… Eu discordo. Dizer que o futebol é um espetáculo, que é uma forma de entretenimento artístico, é uma leitura muito superficial de todo o universo do esporte, e simplesmente não prestar direito a atenção no que acontece no campo e em volta dele. Não digo que o futebol não seja alguma forma de entretenimento, no sentido em que, para o torcedor (ou a maioria deles), certamente não é um trabalho; no entanto, se ele fosse realmente um espetáculo, como uma peça de teatro ou apresentação musical, ninguém vaiaria um time que joga bem, mesmo quando ele humilha a equipe da casa, nem aplaudiria um time que ganha um jogo de 1 a 0, na retranca, com gol de bola parada aos 40 minutos do segundo tempo. Pouca gente, se é que há qualquer um, vai ao estádio ou assiste pela TV um jogo de futebol para se divertir; e quem diz isso não sou eu, mas o inglês Nick Hornby, naquela que é, na minha opinião, a obra que melhor explica a visão de um torcedor sobre o futebol: o livro Febre de Bola, sua autobiografia enquanto torcedor do Arsenal de Londres. Como ele bem destaca já nos primeiros textos, uma das coisas que mais o surpreendeu nas primeiras partidas que compareceu foi a forma como ninguém no estádio parecia estar apreciando o tempo que estava lá; todos xingavam os jogadores, os juízes, os torcedores rivais, e mesmo uns aos outros, como se odiassem aquela situação, odiassem ter que estar lá, e ainda assim o faziam toda semana.

Na verdade, o futebol, enquanto espetáculo, é muito ruim. O ritmo de jogo é inconstante, normalmente há pouquíssimos gols e momentos de brilho, e não há como prever que o desfecho seja aquele que todos querem ver, com a vitória do time preferido, mesmo quando este possui uma equipe visivelmente superior à do adversário. Assim, não é de se admirar que muitas pessoas não vejam graça no futebol; tentar vender ele como espetáculo é como tentar vender grãos de areia no deserto, e ainda assim é a forma como TV e os meios de comunicação em geral tentam fazê-lo, em parte por ser mais fácil do que a outra opção.

Mas tio BURP, se futebol não é um espetáculo, então o que ele é? Bem, aí entramos num assunto que pode ser um pouco polêmico e complicado. Pessoalmente, sou adepto da visão do Nelson Rodrigues e do Eduardo Galeano: futebol, muito mais do que um espetáculo ou qualquer tipo de entretenimento, é uma mitologia, e, em certo sentido, uma religião. Posso até dar algum embasamento acadêmico para essa afirmação, na verdade: analisando o desenrolar de um campeonato, é muito fácil fazer um paralelo com a jornada do herói mitológico proposta por Joseph Campbell no seu clássico Herói de Mil Faces, com a passagem por um limiar (o início do campeonato), diversas provas heróicas (os jogos do campeonato), e um momento apoteótico no final (a partida da final e, se tudo correr bem, o título de campeão); e, da mesma forma, Richard Giulianotti, em Sociologia do Futebol, também não deixou de notar que a forma como a torcida se comporta durante uma partida, com cantos e movimentos em uníssono, tem todos os elementos de um ritual xamânico.

Claro, não vou afirmar que o futebol seja de fato um substituto completo para a religião; dizer isso seria ignorar o fato de que com certa freqüência os torcedores são, também, devotos bastante dedicados de seus cultos. No entanto, as razões que levam alguém a torcer para um time de futebol e a comparecer aos jogos, mesmo quando o seu time de preferência não está passando por um bom momento, são muito semelhantes as razões que levam alguém a seguir uma religião e cumprir todos os seus rituais e preceitos: é a necessidade de se sentir parte de algo maior, de se reconhecer em uma coletividade única em meio a um grupo de indivíduos aparentemente diferentes, e de ter um sentido de vida e, mais importante que isso, a experiência e vivência de um sentido.

Enfim, da próxima vez que quiser assistir um espetáculo, vá a um teatro ou show de música, que você estará ganhando muito mais.

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