Meu Doce Bebê Dragão

Era o meu tipo favorito de inverno – aquele que está acabando. Assim me diria o calendário, ao menos, se eu tivesse um calendário. Um do ano corrente, quer dizer. O do ano anterior que estava na parede não me diria muita coisa. Mas eu deixava ele lá do mesmo jeito. Não era como se houvesse algo melhor para pôr no lugar. Pelo menos assim eu podia esquentar minhas noites olhando para a jovem de orelhas pontudas, cabelos púrpuras e dotes generosos que ilustrava o último mês. Tanya, é o nome que eu dei para ela. Minha rotina se resumia a olhar para seus olhos pentrantes por longas horas, um exercício diário de caça de baratas, e tirar o pó da pequena plaqueta que havia sobre a mesa, onde se liam as palavras Gary Abas-Largas, Detetive Particular.

Esse é o meu nome. Gary Abas-Largas. Não tem nada a ver com o meu chapéu. Peculiaridades dos nomes halflings, vai entender. Detetive particular é a minha profissão. Não é a melhor delas, mas paga as contas. Às vezes. Não é como se eu soubesse fazer algo melhor. Em anos viajando pelo mundo, explorando masmorras e enfrentando monstros não existe uma variedade muito grande de habilidades a se aprender. Então um dia você está arriscando a vida em um combate contra uma família de gigantes para salvar uma vila ingrata, e no outro está investigando um caso de adultério entre casais goblins no bairro mais nojento de Valkaria. Coisas da vida.

Vida, por sinal, que não estava indo muito bem naquele inverno. Tempos difíceis. Poucos casos. Nenhuma esposa goblin pulando a cerca. Pelo menos isso significava que eu não precisava sair muito e enfrentar o frio lá fora. Era o que pensava então, tentando adormecer sobre a cadeira, quando um bam-bam-bam forte como um martelo me acordou e tirou em um pulo repentino o meu traseiro do seu repouso relaxante.

Ouvi o bam-bam-bam mais uma vez e me virei para o único lugar de onde ele poderia vir: a porta de entrada. Caminhei até lá sem pressa, posicionei o banco que uso para ficar na altura da portinhola, anotando mentalmente pela sexta vez na semana que precisava trocá-la por uma de altura mais adequada às minhas proporções, e a abri para ver quem estava do outro lado. Fechei a portinhola, esfreguei bem os olhos, e a abri de novo: não, eu não tinha visto errado.

Do outro lado estavam dois objetos grandes e redondos, apertados um contra o outro por um tecido vermelho em forma de V. Desci do banco e abri a porta, sendo imediatamente tomado por uma onda de calor que invadiu a sala quando a dona daquele par se pôs para dentro. Tinha quase dois metros de um corpo soberbamente esculpido em proporções generosas sem ser exageradas, e apertado de forma insinuante em um longo vestido vermelho. Seus cabelos também eram vermelhos, parecendo emanar todo aquele calor improvável para o inverno que se abatia sobre o lado de fora, e os olhos cor de mel brilhavam tão intensamente que quase tornavam desnecessárias as velas dos candelabros que iluminavam a sala. Completava o conjunto um par de lábios carnudos como morangos silvestres, emoldurados em uma pele suave e rosada como a de um anjo flamejante.

– Me ajude! Por favor, me ajude! – dizia, aos prantos, enquanto me levantava e apertava contra o belo e caloroso par de seios que me chamara a atenção pela portinhola. Então notou que eu não conseguia falar naquela posição, e me soltou. Não que eu desse qualquer sinal de estar desconfortável.

– Em que posso ajudá-la, senhorita…? – perguntei, deixando espaço para que se apresentasse e lhe oferecendo uma cadeira para sentar. Meus olhos subiam indiscretamente pela sua perna esquerda exposta em uma longa abertura do vestido, terminando apenas poucos centímetros antes de chegar nos quadris. O calor que tomava o meu escritório era intenso, e era um feito e tanto de força de vontade que eu me contivesse e não me despisse ali mesmo, na sua frente.

– Larina. Meu nome é Larina. – ela disse, olhando firme nos meus olhos. Por pouco não me verti naquele mesmo instante em uma poça de suor sobre o chão. – Meus bebês… Meus pobres bebês… Eles… Eles… –  o pranto voltou incontrolável, e eu me aproximei para consolá-la. De pé ficava mais ou menos na altura do seus seios quando sentada, e era impossível não reparar na generosidade do decote que os sustentava porcamente, como se pudesse explodir a qualquer instante. Ela me agarrou e apertou outra vez contra eles. Me deixei envolver por aquele calor ardente, desejando passar ali o resto da estação. Mas logo me soltou novamente, e, entre lágrimas e soluços, terminou de explicar o caso.

Alguém havia seqüestrado os seus bebês, e ela queria que eu os encontrasse. Por que alguém faria algo assim com uma dama tão obviamente respeitável é algo que não pude entender, ou ela explicar. Mas aceitei o caso. O que mais podia fazer? Baixinhos como eu não resistem aos charmes e às pernas das mulheres altas. Ainda mais altas e ruivas.

E quentes. Muito quentes.

***

Resistindo aos pedidos suplicantes dos meus olhos azuis, Larina foi embora e me deixou sozinho com Tanya, as baratas e o frio da noite que chegava. Não me disse onde encontrá-la, mas prometeu voltar para saber do andamento do serviço. Algo que eu só podia torcer para acontecer logo. Agora, no entanto, era hora de dar início à investigação. Sem lugar melhor por onde começar, só havia um para onde ir: o Kobold Sarnento, provavelmente a pior estalagem da cidade, salvo por algumas encontradas nos cantos mais imundos da Favela Goblin. Mas não todas.

Peguei meu casaco e meu chapéu e saí em direção à ela. Eram apenas algumas quadras de caminhada do meu escritório. Não era uma área muito nobre, mas era o que eu podia pagar. Quando eu podia pagar. As ruas eram sujas e escuras, as poucas lamparinas no caminho pouco ajudando a enxergar mais do que alguns centímetros adiante. Mendigos e outras criaturas urbanas se encolhiam pelos becos, rodeados por ratos e kobolds. Dois garotos humanos se puseram no meu encalço, provavelmente esperando tirar algum lucro do meu tamanho diminuto, mas hesitantes demais para se arriscar de fato. Senti também que havia outra pessoa me seguindo, mas sempre que virava para ver quem era não estava mais lá. Não pude deixar de pensar que, enquanto os regentes e nobres se preocupavam com suas Tormentas e exércitos goblinóides, os subúrbios da cidade eram deixados para apodrecer à própria sorte. Mas o que se podia fazer? Assim era Valkaria, o coração do Reinado, a metrópole fantástica da aventura e das oportunidades.

Sim, claro. Se você for um aventureiro atrás de oportunidades.

As luzes e o barulho crescentes anunciaram a aproximação da estalagem. Entrei e avaliei o ambiente. Garçonetes gordas corriam das mesas para a cozinha e de volta para as mesas, tentando equilibrar bandejas com pratos e canecos entre espaços estreitos e mãos indiscretas. Humanos, anões, goblins, até mesmo um ogro e um minotauro, se espremiam e acomodavam pelo espaço disponível. Kobolds se esgueiravam entre as pernas dos clientes, aproveitando os restos de comida que caíam no chão. No palco, a cantora da noite se insinuava atrás do pedestal mágico de projeção da voz, lançando olhares convidativos para aqueles nas mesas próximas. A pele esverdeada sob o vestido vermelho, o rosto salpicado de pústulas e cicatrizes, e as presas no lábio inferior não deixavam dúvidas quanto à sua ascendência impura. Mas isso pouco importava: sob o feitiço daquela voz potente como ondas quebrando na costa em uma tempestade, e com gestos cuidadosos chamando a atenção para as partes certas, era impossível não se deixar fisgar pelo movimento hipnótico do seu corpo, com quadris que balançavam vagarosamente de um lado para o outro, e de novo, e de novo…

– Gary! – a voz que me libertou do transe era justamente uma das que eu esperava ouvir. Virei-me para encontrar um homenzinho da minha altura vestindo trapos de tecido remendados, com pele acizentada sem pêlos, orelhas pontudas e olhos negros que me fitavam com um ar de surpresa.

– Klaus, velho amigo! – respondi, caminhando na direção do goblin.

– Achei que ficaria o inverno inteiro hibernando no seu casulo.

– Você me conhece. Sempre disposto a congelar os pés por uma boa caminhada. – não era um exagero. Halflings não usam botas. Pés grandes e peludos demais. Se tanto, nos damos ao luxo de sandálias, se o chão estiver muito frio. Como, aliás, seria o caso. Se eu tivesse sandálias para usar.

Sentei-me ao lado dele no balcão e pedi uma cerveja. O atendente me serviu sem demora, em uma caneca suja como a latrina de um acampamento militar. De orcs.

– E então, como vão as coisas? – perguntei.

– Como sempre. Você sabe, trabalhando duro. Pagando as contas. – “trabalho duro”, para um goblin, normalmente no sentido de “atividades ilícitas”.

Tomamos alguns goles e trocamos palavras e novidades, antes que eu decidisse prosseguir para o assunto principal. Mas não sem notar primeiro a presença de um homem encapuzado que nos observava de uma mesa próxima, com o braço direito oculto por uma capa enquanto usava o esquerdo para segurar a caneca de cerveja. Havia mais alguém nos observando, estava certo disso, mas não conseguia descobrir quem era.

– O que você sabe sobre desaparecimento de bebês? – perguntei, enfim.

– Desaparecimento de bebês? – ele respondeu entre um gole e outro.

– Você sabe, aquelas coisas pequenas e irritantes que saem das mulheres. Além de halflings. E goblins.

– Por que a pergunta?

– Curiosidade. Ouvi falar de alguns casos assim recentemente.

Klaus me observou, curioso, por vários segundos. A curiosidade logo se transfigurou em dúvida, e então espanto. Ele sabia de alguma coisa.

– Desembucha. – falei, tomando outro gole de cerveja.

– Não sei de nada, Gary.

– Vamos, Klaus, eu te conheço. Você sabe alguma coisa e não quer…

– Gary Abas-Largas. – a voz de trovão que me interrompeu vinha de trás, e eu me virei para dar de cara com um homem negro de mais de dois metros de altura, os músculos apertados visíveis sob um elegante sobretudo de couro de trobo, e uma cabeça de touro com uma prótese de prata substituindo o chifre esquerdo. Na sua volta estavam dois meio-orcs, um ogro e um meio-elfo, todos igualmente elegantes e olhando de forma séria e desconfiada para o ambiente da estalagem.

– Tony Um Chifre. – respondi. Tony era um dos chefões do crime de Valkaria, um ex-aventureiro minotauro que, após se aposentar, estabeleceu um pequeno império no submundo da cidade com o tesouro que acumulara. Drogas, prostituição, comércio de pólvora e as armas para usá-la – tudo estava dentro do seu portfólio. A prótese que usava na cabeça, diziam, era de prata maciça, e substituía um chifre perdido durante sua época de aventuras. O que diz muito sobre quanto os minos valorizam essas coisas. – Imagino o que o trouxe a um lugar como este? – Tony tem sua própria estalagem, em uma área mais nobre e muito melhor freqüentada que o Kobold Sarnento. Só uma coisa o faria vir até um buraco imundo como este.

– Negócios, Gary. Negócios. – é claro. Negócios discretos, digamos assim. Provavelmente envolvendo grupos de aventureiros contratados. Tony sempre faz questão de lidar pessoalmente com eles. Nostalgia da juventude, imagino. Sendo também um ex-aventureiro, posso entender o sentimento. Apesar de não compartilhar. – Klaus, onde podemos falar da ninhada?

“Ninhada?”, pensei, traindo com os olhos meu súbito interesse, “como em ‘conjunto de filhotes’?”

Klaus me lançou um olhar assustado. Tony percebeu, e virou-se também na minha direção.

“Merda”, completei meu raciocínio.

– Senhores, me desculpem, mas acho que exagerei nos líquidos. – disse, levantando. – Acho que vou visitar as latrinas.

Deixei algumas moedas no balcão e me dirigi apressado para as ditas cujas. No caminho olhei rapidamente sobre o ombro e notei Moe e Joe, os dois irmãos meio-orcs, me seguindo. Chefões do crime são criaturas previsíveis. Então virei de volta para frente, a tempo de bater de cara em alguém que atravessou a minha fuga. Era o homem encapuzado que observava minha conversa com Klaus.

– Gary Abas-Largas? Precisamos conversar. – ele disse.

– Sem problemas, passe no meu escritório pela manhã. – respondi, tentando abrir caminho.

Ele tirou para fora da capa o braço direito, que vestia uma espécie de armadura metálica. Quanto o colocou sobre o meu ombro, no entanto, senti que tinha o peso de um item de ferro maciço.

Arkam Braço de Ferro! Olhei para cima, fitando assustado por longos segundos a sombra do seu rosto oculta pelo capuz. Então lembrei dos meus perseguidores e virei de volta para trás, bem a tempo de vê-los se aproximar em uma carga rápida. Arkam também os notou, e eu aproveitei o momento para me soltar e fugir por entre suas pernas. Corri até as latrinas, subi pela janela e pulei para o lado de fora. Em um último olhar para dentro da estalagem, vi Arkam bloqueando o ataque de um dos meio-orcs, enquanto rapidamente se colocava em posição de atacar o outro com o braço metálico. Não gostaria de estar na pele deles.

Uma vez em segurança, era hora de refletir alguns instantes. O que exatamente estava acontecendo aqui? Até mesmo o líder do Protetorado, o grupo de aventureiros particular do governo do reino, estava interessado. Precisava ser alguma coisa grande. E não só do meu ponto de vista halfling. Será que eu queria mesmo descobrir?

Tony, no entanto, mencionou uma “ninhada”. O que deixou Klaus assustado com a minha presença. Depois de ter me ouvido perguntar sobre seqüestros de bebês. Poderiam ser os bebês de Larina? O que Tony podia querer com eles? Não podia ir embora sem ter certeza. Devia isso à minha cliente. E eu posso não ser o maior defensor da moral, da tradição e dos bons costumes, mas eu tenho alguma ética no meu trabalho. Ou tento ter. Ainda mais quando a cliente é uma mulher. Alta. E ruiva. E quente.

Após um suspiro profundo, comecei a revirar o lixo no beco ao lado da estalagem.

***

Kobolds são uma praga. Ninguém, em Valkaria ou qualquer outro lugar onde eles existam, vai negar isso. Espalham-se por todos os cantos, vivendo na sujeira e espalhando doenças. Como ratos. Aliás, piores que ratos. Ratos são estúpidos. Kobolds podem não ser grandes gênios e intelectuais, mas são espertos o bastante para saber as vantagens que têm. E sabem usar armas. Nunca vi um rato com uma lança de pedra.

Por outro lado, eles têm suas utilidades. Para sobreviver e atacar estoques de casas e estalagens, cavam túneis e passagens entre elas. Pequenos demais para um humano ou elfo, até mesmo um anão. Para um halfling, no entanto, basta se ajoelhar e apoiar sobre as mãos e eles são perfeitamente utilizáveis. Sujos, apertados e nojentos, mas utilizáveis.

Agora tente dizer isso para o meu sobretudo. Iam ser dias até ele ficar utilizável de novo.

O túnel por onde segui terminava na sala de estoque do Kobold Sarnento. O lugar onde, eu esperava, Tony fosse pegar a sua ninhada, o que quer que ela fosse. Saí em meio a um conjunto de sacos de batatas e me escondi entre eles, em uma posição de onde pudesse ver a área central do aposento. Três pessoas já estavam lá – um elfo e dois humanos, um homem e uma mulher. O elfo tinha cabelos longos e loiros, vestia um manto esverdeado com um capuz abaixado atrás do rosto, e carregava um arco na mão e uma espada curta na cintura. O homem tinha cabelos castanhos curtos e um cavanhaque, vestia um conjunto de mantos acizentados, e carregava um cajado com uma espécie de jóia na ponta. A mulher era alta e morena, usava uma placa de metal sobre uma camisa de tecido, com uma espada presa na cintura, um pequeno escudo nas costas e uma caixa de madeira nas mãos. Notei que não havia nada das redondezas remotamente parecido com bebês, ou que pudesse escondê-los. Exceto, talvez, os sacos de batatas entre os quais me escondia.

Não parecia muito promissor. Pensava já em voltar pelo túnel dos kobolds, quando ouvi o barulho de uma porta se abrindo seguido de passos, e vi Tony, seus capangas e Klaus se juntando aos três. Trocaram algumas palavras que não pude ouvir, então a garota se aproximou e abriu a caixa. Subi discretamente sobre um dos sacos e me estiquei para tentar ver o seu conteúdo: envolto em alguns pedaços de panos chamuscados, estava um belo conjunto de meia-dúzia de…

Ovos?

Perdi meu equilíbrio e caí para trás entre os sacos de batatas, fazendo barulho suficiente para acordar um vampiro ao meio-dia. Me levantei apressadamente, xingando todo o Panteão e meia-dúzia de deuses menores de que me lembrei no momento, e me preparei para fugir, mas já era tarde: o meio-elfo capanga de Tony já havia me encontrado – como ele podia ser tão rápido? – e se preparava para me agarrar. Escapei com uma cambalhota por entre suas pernas e corri até a porta. Antes de alcançá-la, no entanto, fui parado pelo ogro, que me atirou com um tapa contra a parede. Ele então caminou até mim, me levantou e levou até Tony.

– Sr. Abas-Largas. – ele não parecia surpreso. – Imagino que errou o caminho das latrinas?

– Oh, elas não são por aqui? – fiz minha melhor cara falsa de bêbado. Que não era muito boa, exceto quando eu estava realmente bêbado. – Então me desculpem, já vou me retirar.

Tony ia responder alguma coisa, mas o elfo do grupo de aventureiros o interrompeu.

– Há mais alguém aqui. – disse, olhando com o canto do olho para o humano do grupo, que acenou com a cabeça e levantou o cajado com a mão direita enquanto gesticulava largamente com a esquerda e falava algumas palavras em voz baixa. A jóia na ponta do objeto emitiu um clarão de luz esverdeada, e em seguida todos se viraram na direção dos sacos de batatas. Lá estava uma mulher alta e ruiva, com um corpo generoso apertado de forma insinuante em um vestido vermelho, e olhos cor de mel surpresos com a súbita atenção que recebiam.

Larina. O que estava fazendo aqui?

– Meus b… – tentou dizer algo, mas antes de terminar o meio-elfo já estava atrás dela e a nocauteou com um golpe rápido sobre a nuca.

– Amarrem os dois. Depois descobriremos o que está acontecendo. – Tony falava com pressa, gesticulando para seus capangas. – Mort, pague os aventureiros e pegue a ninhada.

Klaus se aproximou e começou a amarrar meus pulsos, enquanto o meio-elfo trazia Larina para ser amarrada junto a eles. Só havia uma corda disponível.

– Você não imagina a encrenca em que se meteu, Gary.

– Você me conhece, Klaus. Sempre fiel à rotina. Suponho que não possa soltar um pouco as cordas sobre os meus pulsos?

– Sinto muito, Gary. Eu tenho uma família pra alimentar. E você sabe como famílias goblins são grandes.

– Bem, valia a pena tentar.

O goblin apertou bem os nós, e fomos empurrados para o lado dos sacos de batatas. Pelo menos podia me aquecer de novo no calor que vinha de Larina. Para minha surpresa, no entanto, ela parecia já estar recuperando a consciência. Garota durona.

– Não se preocupe. Eu vou tirar a gente dessa. – eu disse, mesmo sem acreditar. Tony ia querer uma boa explicação, e não achava que nossas afinidades enquanto ex-aventureiros me salvariam. Ou à Larina. Apesar de que ela teria outros meios de convencê-lo. Mas eu tinha que dizer alguma coisa, certo?

– Meus bebês! – foi tudo que ela respondeu, com força e intensidade suficientes para chamar a atenção de todos no aposento. Senti seu corpo esquentando ainda mais, e comecei a suar incontrolavelmente. Parecia que estava realmente derretendo. A corda que nos prendia queimou e se soltou, e eu me virei assustado para ver o que acontecia.

A pele de Larina fora tomada por escamas vermelhas, enquanto sua cabeça era substituída pela de um lagarto que expelia fumaça e chamas pelas narinas. Suas mãos agora possuíam garras, e um par de asas saía das suas costas. O corpo sinuoso e generoso converteu-se na figura quadrúpede de um dragão que cresceu até ocupar boa parte do espaço disponível.

A criatura avançou em direção à aventureira que segurava a caixa com os ovos, antes que qualquer um esboçasse uma reação. Os outros dois aventureiros tentaram contê-la, mas foram incinerados por uma baforada de chamas. O capanga ogro de Tony também tentou atacá-la e teve o tórax dilacerado por um golpe das garras. Tony, Klaus e o meio-elfo fugiram.

A aventureira largou a caixa com os ovos no chão e tentou atacar Larina, mas ela, sem hesitar, arrancou o tronco da inimiga com os dentes, cuspindo para fora a armadura metálica e espalhando sangue e tripas pelo chão. Então pegou os ovos entre as garras, lançou para o alto uma baforada que destruiu o teto, e saiu voando em direção às estrelas.

Eu estava ainda paralisado, assimilando a cena que acabara de assistir, quando ouvi passos apressados se aproximando e a porta se abrindo novamente. Arkam e outros membros do Protetorado, imaginei. Sem perder tempo, encontrei o túnel por onde havia entrado e fugi também da estalagem. Nunca é muito inteligente estar sozinho na mesma sala que dois corpos incinerados e outros dois mutilados quando o Protetorado faz uma entrada triunfal. Principalmente se estiverem atrasados.

***

Alguns dias depois foi entregue na porta do meu escritório um pacote contendo o pagamento pelos meus serviços, moedas de ouro e prata suficientes para me sustentar pelo resto do inverno e boa parte da primavera, e um bilhete. Aproveitei o dinheiro para comprar um calendário novo, mas ainda não o pendurei na parede. Não estou pronto para me despedir de Tanya.

O bilhete era assinado por Larina, e explicava todo o ocorrido. Ela era na verdade uma dragoa vermelha chamada Larinathrax, que se estabeleceu nos subterrâneos de Valkaria, próximo à Favela Goblin, onde se sentia segura após a época de acasalamento para chocar os ovos e cuidar dos filhotes durante seus primeiros anos. Pode não parecer, mas era uma idéia bastante inteligente – dragões são criaturas solitárias e territorialistas, e, indefesa enquanto cuidava dos bebês, ela seria presa fácil para algum que tentasse tomar o seu covil. Em Valkaria, no entanto, qualquer dragão que se aproximasse menos do que alguns quilômetros seria logo atacado pela milícia e o Protetorado, que o mataria ou expulsaria para longe. Bastava chegar na cidade sob forma humana e manter-se anônima até encontrar um local adequado, e então transferir aos poucos seu tesouro para lá.

Tony, no entanto, a descobriu, e contratou um grupo de aventureiros para roubar seus ovos. Provavelmente pretendia criá-los e treiná-los como guarda-costas de luxo, que lhe dariam uma vantagem considerável sobre seus concorrentes, além de permitir que desafiasse abertamente o governo da cidade. O que explica o interesse de Arkam Braço de Ferro e o Protetorado. Klaus, imagino, foi quem guiou os aventureiros até o covil. Ninguém conhece os os labirintos sob a cidade tão bem quanto um goblin, e ele próprio é um rastreador de destaque entre os seus.

Larina não estava lá quando o covil foi invadido, o que tornou a missão dos aventureiros bastante fácil. Quando retornou e encontrou o local esvaziado tentou rastreá-los de volta, mas não conseguiu encontrar uma trilha confiável. Imagino que o mago do grupo tivesse usado algum tipo de truque. Decidiu então contratar os serviços de um profissional para ajudá-la – que, é claro, só poderia ser o halfling ex-aventureiro de olhos azuis preferido deste lado da cidade. Ela apenas não me disse que meu trabalho seria apenas o de encontrar os responsáveis, enquanto ela própria lidaria com eles. Por isso me seguiu desde que saí do escritório em direção ao Kobold Sarnento, usando poderes mágicos para se manter invisível.

O final do bilhete continha ainda um convite para que eu conhecesse o seu covil e ela pudesse me agradecer devidamente… Bem, em particular. Disse que ela própria viria até mim, não fossem os ovos já terem chocado e ela não se sentir segura para deixar os filhotes sozinhos novamente. Acho que vou recusar, de qualquer forma. Não quero pegar fama de matador de dragão.

Os bebês, no entanto, são algo que eu gostaria de ver. Ouvi dizer que são uma graça logo que saem dos ovos. Isto é, quando não estão chorando ou defecando. O que deve ser o que fazem a maior parte do tempo.

Só não quero imaginar o que vai ser quando crescerem.

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1 Response to “Meu Doce Bebê Dragão”



  1. 1 Pastichagem – Inominattus Trackback em 22/08/2009 às 11:11

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