O Futebol é o Rock do Brasil

veneno-remedioAproveitei o último fim de ano para ler um livro que havia comprado há algum tempo já, Veneno Remédio – O Futebol e O Brasil, de José Miguel Wisnik, cuja capa ilustra este texto e que trata da história do esporte e do esporte no Brasil, visando explicar o país a partir do futebol e o futebol a partir do país. É uma obra interessante, sem dúvida, até porque trata de um tema que eu mesmo tenho interesse e vez por outra trabalho; ele parte de obras clássicas de análise do caso brasileiro, como as de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda, somadas ainda a leituras de Machado de Assis e Lima Barreto e outras referências que vão de cineastas italianos a filósofos tchecos, oferecendo uma visão intelectualizada e culta, mas nem por isso depreciativa, do esporte e do mundo que existe na sua volta. Em alguns momentos o autor até chega a exagerar um pouco nessa visão, na verdade, atirando interpretações e citações shakespereanas que parecem um pouco bestas e despropositadas, do tipo que parece estar lá apenas para exibir erudição, mas de maneira geral eu diria que é um bom livro, recomendado para qualquer um com interesse pelo tema e que não tenha dificuldades em ler obras ensaísticas mais carregadas nas análises e referências, pra fugir daquela mesmice e superficialidade de jornalistas e cronistas esportivos tradicionais.

De qualquer forma, me chamou um pouco a atenção as suas teses a respeito do “estilo brasileiro” de jogar, que pegou um jogo bruto e reto de origem britânica trazido até aqui por membros da elite e o converteu em um estilo fluido e repleto de ginga e elipses (pra usar os termos do próprio livro), tomado pelas massas e praticado por todas as raças e classes sociais. O livro discute bastante a idéia da origem do futebol à brasileira a partir da nossa raíz mestiça, da mistura de raças e aquela história toda que boa parte da crônica esportiva repete pelo menos desde O Negro no Futebol Brasileiro, de Mário Filho, já uns bons 60 anos atrás. É a tese de que o nosso jeito de jogar surge a partir da apropriação do jogo inglês pelas massas de negros e mestiços, que lhe imbuem elementos da sua própria cultura sincrética, misturando-o, por exemplo, à ginga e às fintas da capoeira, com a sua luta que se disfarça de dança e dança que se finge de luta, com chutes e golpes falsos que lembram os toques falsos de uma pedalada sobre a bola. Por lugar-comum e clichê que seja, no entanto, não há como negar a esta tese algum crédito, sobretudo à luz de todos os jogadores mulatos e negros que deram forma ao estilo que se tornaria característico do país, desde Friedenreich, Leônidas e Domingos da Guia nos anos 20 e 30 até os Ronaldinhos e Robinhos mais atuais. E há ainda um outro paralelo interessante que se pode tratar a partir daí, com um outro tema de meu interesse que já me rendeu também horas de pesquisa no passado.

O blues norte-americano também surgiu a partir da mistura de povos, dos cantos religiosos europeus apropriados e alterados pelos escravos africanos a partir da sua própria cultura musical. A blue note, nota que caracteriza o estilo, nada mais é que uma distorção dos semi-tons da escala européia para se adequar ao ouvido acostumado à escala de tons inteiros da música africana. E é certamente digno de nota que o blues tenha uma influência marcante em toda a cultura musical dos Estados Unidos – ele está na origem do jazz e do rock, e não deixa de se fazer presente mesmo no pop radiofônico mais contemporâneo. Não é exatamente à toa que a escala do blues é considerada a principal contribuição norte-americana à música de forma geral; a sua onipresença na música popular local é facilmente comparável à do futebol na cultura popular brasileira.

As duas histórias são ainda repletas de outros elementos coincidentes. É difícil não notar, por exemplo, que ambos começam de forma amadora na cultura popular, e se profissionalizam velozmente em seus respectivos países a partir dos anos 20 – no caso do blues, ainda que já houvesse uma cultura de espetáculos e apresentações musicais profissionais anterior, é a partir deste período que surgem as gravações em disco, dando início à indústria fonográfica e criando um novo meio de ganhar a vida que atrairá trabalhadores rurais à cidade; e no caso futebol brasileiro, este período corresponde ao “profissionalismo marrom”, em que os jogadores eram pagos extra-oficialmente por dirigentes de clubes para disputar as ligas amadoras, criando também um novo tipo de ganha-pão que atrairá jogadores das periferias para os grandes times. Mesmo alguns dos seus principais nomes, por vezes, parecem se espelhar – desde os trágicos pioneiros, como Charlie Patton e Robert Johnson ou Leônidas da Silva e Garrincha, até os filósofos e intelectuais, de Dylan e Zappa a Tostão e Sócrates.

Não posso deixar de comentar, é claro, os pontos em que as duas histórias divergem. É importante destacar, principalmente, as diferenças entre o Brasil e os Estados Unidos ao tratar a sua questão da raça e da mestiçagem, que têm influência sobre a forma como os dois elementos se desenvolvem nas suas culturas. Os EUA são um país multirracial/étnico, mas não um país mestiço – ele foi formado e colonizado por etnias diversas, mas freqüentemente isoladas, sem se misturar com as demais. Isso fez com que o blues, por exemplo, fosse desenvolvido fundamentalmente em um ambiente negro, ainda que aberto a outras influências. E, uma vez que o estilo, já a partir dos primeiros rocks dos anos 50 mas principalmente com o rock inglês nos anos 60 e 70, foi apropriado pelas elites brancas, ele foi gradualmente abandonado por esses guetos de afro-descendentes, substituído primeiramente pelo funk e, posteriormente, pelo rap.

O Brasil, por outro lado, se destaca pela sua formação mais profundamente mestiça, de brancos, negros e índios, mais do que convivendo, se misturando. Alguns dos grandes nomes da literatura brasileira já no século XIX e começo do XX, por exemplo, eram mulatos, a destacar Machado de Assis e Lima Barreto, e o mito sociológico do “caldeirão racial” já foi invocado muitas vezes de forma tanto positiva como negativa, ao ponto de ser um chavão da interpretação do país. E também o futebol vai se desenvolver a partir desta lógica da mestiçagem, da mistura de culturas e elementos, de forma que nunca qualquer dos lados consegue se apropriar dele de forma exclusiva. Todas as grandes seleções nacionais foram formadas não apenas por negros ou mulatos, mas por estes jogando ao lado de brancos, e de jogadores pobres ao lado da classe média e da elite. Como Wisnik destaca no livro, é como se, ao menos no futebol, existisse realmente a democracia racial e social que tanto se alardeia mas nunca se cumpre de fato em outras áreas.

Há um ponto, no entanto, em que os dois se encontram de forma muito mais marcante e decisiva. O blues, como já destaquei antes, está na origem do rock, que é o paradigma principal da música popular no mundo ocidental-capitalista, para o bem ou para o mal. De uma forma ou de outra, a música pop contemporânea é freqüentemente comparada ao auge do rock, justamente o período em que a influência do blues era mais evidente, e não poucas vezes é lá que busca as suas referências formadoras. E o mesmo acontece com o futebol brasileiro – independente dos seus resultados mais recentes, é ele que é tomado como base de comparação para o resto do mundo. O futebol é o rock do Brasil: se os principais clássicos do rock são tocados em qualquer parte do mundo, os dribles dos jogadores brasileiros também são imitados em todos os lugares onde o futebol é conhecido; e se os Beatles são mais famosos que Jesus Cristo, Pelé também é.

É fácil ver as evidências dessa onipresença brasileira em termos de futebol. Está nos milhares de jogadores que saem do país para o exterior todo ano, e nem mais apenas para os grandes centros econômicos – há jogadores brasileiros na China e na Coréia, na Tailândia e na Arábia. Está nos principais craques nacionais reconhecidos em qualquer parte do mundo, de Kaká a Ronaldinho a Robinho, e tratados como astros do rock por fãs e paparazzi. E está no estilo de jogo dos próprios craques de outros países – independente de serem brasileiros ou não, o estilo de jogadores como Michael Owen ou Cristiano Ronaldo deve muito aos dribles de Pelé e Garrincha que tomaram de assalto o futebol a partir dos anos 60 e, principalmente, 70. (Aliás, é curioso que até Nick Hornby, em seu livro sobre a sua paixão pelo time do Arsenal, dedique-se a comentar as proezas da seleção de 70, destacando como ela mudou a visão de todos sobre como o esporte poderia ser jogado.)

Claro que eu não tenho a menor idéia se tal fato pode ter um significado mais profundo do que apenas nós sermos bons no futebol (o que nem é tão verdade recentemente) e os norte-americanos terem lá os seus méritos musicais. Talvez possa se tirar daí alguma teoria da globalização cultural, a partir do fato de que tanto o Brasil como os EUA já eram desde a sua formação nações a seu próprio modo globalizadas, resultantes de aldeias culturais diferentes interagindo num mesmo espaço físico; é possível, quem sabe, que as suas culturas tenham apelo amplo justamente por juntarem elementos familiares a diversos grupos, ao mesmo tempo que os misturam a características exóticas que não deixam de ser sedutoras. Wisnik ainda comenta bastante que a influência brasileira sobre o futebol mundial é uma influência espontânea, a que as pessoas aderem por vontade própria, diferente da influência cultural, inclusive musical, dos Estados Unidos, que muitas vezes é forçada sobre outros países por meio da economia – é curioso, aliás, que já se tenha tentado expandir essa influência para o campo esportivo, com a tentativa da Nike em meados dos anos 80 de transformar o basquete de raízes norte-americanas em esporte mundial, frustrada justamente devido à concorrência com o futebol. E é digno de nota também que os astros esportivos, sobretudo os do futebol, são os principais do imaginário popular atual, da mesma forma que os do rock já foram em outros momentos – são eles que, hoje, namoram modelos, ganham milhões a cada semana, e promovem campanhas e encontros beneficentes, na proporção em que músicos e roqueiros populares atuais têm sua relevância cultural progressivamente diminuída; e, dentre estes novos mega-astros, são justamente os brasileiros os mais destacados. Seria exagero imaginar aí relances de uma nova potência cultural emergente? Bem, possivelmente sim; no fim, talvez isso tudo não passe mesmo daquela citação a Shakespeare que Wisnik freqüentemente recorre no seu livro: som e fúria, significando nada.

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