Rhythm & Blues & Rock n’ Roll

howlinwolfAlgum tempo atrás lembro de passar em uma loja de CDs e DVDs pra comprar um presente de aniversário pra minha mãe (um DVD do acústico do Eric Clapton, pra quem ficar curioso), e, enquanto dava uma olhada por lá, achei um CD do Howlin’ Wolf  (o negão aí de cima) com preço de ponta de estoque, e resolvi levar também. Howlin’ Wolf, para quem não sabe, foi um dos principais nomes do Rhythm & Blues do pós-guerra norte-americano, na segunda metade da década de 40, junto com Muddy Waters, Willie Dixon, T-Bone Walker e outros tantos. Ouvindo o disco, achei que seria interessante escrever algumas linhas a respeito desse R&B dos anos 40 e 50, que musicalmente pouco tem em comum com o que se chama de R&B hoje em dia, e que, ao contrário do diz o senso comum, artigos de enciclopédia e documentários de televisão em geral, são os legítimos pioneiros do rock ‘n roll que se consolidaria nas décadas seguintes.

Pois bem, comecemos do início então. Não estou muito certo de quando o termo Rhythm & Blues foi criado, mas o seu uso se consolidou e difundiu nos anos 40. Era, essencialmente, uma forma nova de se referir à música dos race records, os “discos de cor”, que eram discos de artistas negros gravados desde meados da década de 20 e destinados, principalmente, ao crescente público negro dos centros urbanos norte-americanos. Estamos na primeira metade do século XX, é bom lembrar, e, nos Estados Unidos, essa foi uma época de intensa segregação racial, o que nas décadas seguintes geraria diversos conflitos políticos e sociais pela igualdade de direitos civis; a própria busca de uma nova denominação para esses race records já ilustra bem o crescente poder que esse público negro começava a representar, já que era uma forma de tirar a óbvia conotação racial que o nome implicava. O tipo de música que foi associado a ele na época era, fundamentalmente, uma derivação do blues rural norte-americano, mas tocado com instrumentos elétricos e com um ritmo mais frenético – era uma música de festa, enfim, que buscava fazer as pessoas dançarem mais do que atingir qualquer tipo de mérito artístico.

Essas “músicas de festa” dos artistas negros já eram bem conhecidas do público urbano desde a década de 20, na era de ouro do jazz. Eram tocadas em clubes e festas bastante animados, com sexualidade latente e drogas e álcool sendo consumidos quase que livremente; fazendo um paralelo contemporâneo, era um ambiente muito semelhante com o imaginário que se tem hoje em dia sobre o funk carioca, e que chocava as elites conservadoras da época pelo menos tanto quanto esse funk choca as de hoje, se não mais pelo agravante da mistura racial que propiciavam, o que, nos Estados Unidos de então, era uma idéia absurdamente escandalosa. Robert Crumb retratou bem muitas das características desse ambiente na sua obra Blues, que, por sinal, foi o tema da minha monografia final na faculdade, e o que me motivou a fazer toda a pesquisa que levou a essas conclusões. E o R&B dos anos 40 herdou muito dessas características também, inclusive a antipatia e choque que causava nos conservadores, bem como o charme irresistível sobre as classes médias em busca de diversão, independente de cor da pele. E é claro que, eventualmente, essas elites seriam obrigadas a buscar outras estratégias de superar o problema dessa música – e é aí que entra o rock n’ roll dos anos 50.

Era lugar comum entre os empresários de então dizer que o segredo do sucesso naquele setor estava em encontrar um artista branco com alma negra. Essa era a idéia essencial do rock n’ roll: transformar aquela música negra e sensual em algo, se não plenamente aceitável, pelo menos mais palpável de ser consumido pelos públicos brancos mais conservadores. Fazendo novamente a comparação com o funk carioca, é mais o menos o que artistas como MC Leozinho tentam fazer – uma música limpinha e inocente, sem os temas e conteúdos moralmente chocantes que possuíam originalmente. Basta, no entanto, uma audição cuidadosa desses artistas do R&B para perceber o truque – a música que eles faziam já era esse rock n’ roll posterior, com o mesmo ritmo dançante e progressão típica de acordes, apenas em uma embalagem diferente, eu diria até mais autêntica.

E nem é preciso ouvir Muddy Waters e Howlin’ Wolf, na verdade, mas só dar uma olhada nos primeiros grandes sucessos do rock n’ roll: Hound Dog, Whole Lotta Shakin’ Going On, Great Balls of Fire, e muitas outras eram originalmente canções de artistas do R&B negro dos anos 40 até meados dos 50, regravadas pelos artistas brancos do rock n’ roll. É bom destacar também que mesmo os artistas negros mais conhecidos do gênero, como Little Richard ou Chuck Berry, só viriam a estourar em um momento posterior. E ainda entre os roqueiros ingleses dos anos 60 e 70 – talvez os principais responsávels pela consolidação definitiva do gênero, e maciçamente influenciados pelos artistas de blues, R&B e jazz norte-americanos que, desde fins dos anos 50, faziam constantes turnês européias atrás do público que os artistas do rock haviam tirado deles na América -, ainda havia muitas regravações e releituras de artistas dessa época ou anteriores, de Crossroads, do Cream, até Whole Lotta Love, do Led Zeppelin.

Enfim, eu sei que esse texto curto e superficial nem de longe encerra o assunto, que ainda é passível de muita discussão e aprofundamento posterior, que eu ainda pretendo fazer quando me for conveniente. No entanto, é um bom começo para o reconhecimento que merecem esses verdadeiros heróis da música, pioneiros legítimos do estilo que se tornaria o grande paradigma musical do mundo globalizado contemporâneo.

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