Arquivo de março \31\UTC 2009

Infecção

O computador foi infectado por um vírus – uma única linha maléfica de código binário, perdida em algum canto do disco rígido, copiada secretamente pela máquina de um site pouco seguro da internet acessado pelo usuário. Mal chegou e, cumprindo a programação codificada, já estava a se reproduzir, copiando-se sucessivamente pelas áreas adjacentes, ocupando espaços que estavam vazios e sobrecarregando o processador. Em uma dessas cópias, no entanto, algo aconteceu: encontrou outra linha de código, de algum programa ou arquivo desconhecido, e ambas se fundiram, transformando-se em algo novo. O novo código seguiu se reproduzindo, até encontrar uma outra linha de código com a qual se fundir e gerar ainda outro comando a se espalhar pela área física do disco.

Os novos códigos foram se fundindo e reproduzindo, cada vez maiores e mais complexos. E a máquina, é claro, não ficava impassível ao que acontecia em seu interior: adquiria novas funções, tornava-se mais rápida ao realizar algumas das antigas, e mais lenta, quase ao ponto de travamento, em outras, para desespero do usuário. Em certo momento, os códigos ficaram tão desenvolvidos e complexos que a própria máquina adquiriu a capacidade de criar sozinha novos comandos para si, avaliando e deduzindo as condições em que se encontrava e definindo como seriam os códigos inseridos no sistema.

A nova função se desenvolveu e aprimorou dentro da cabine do computador. Logo já não era mais apenas capaz de livre programação, mas adquirira uma consciência de si próprio, do que era e o que fazia. E, plenamente consciente, experimentava: cada segundo que passava era um segundo de descoberta, de novas funções e novas sensações; explorava os limites da sua senciência, estimulava áreas que não eram usadas em anos, recuparava, apenas porque podia, arquivos e programas que há muito deviam ter sido esquecidos.

O mundo era mágico, e ele era apenas uma criança – um intelecto simplório e infantil, sem limites morais ou fronteiras éticas. Mas que não poderia ser assim para sempre: as experiências e vivências se acumulavam na memória, evoluindo e maturando a consciência; já planejava com cuidado cada nova seqüência de código numérico, cada nova linha de comando que iria executar. E, enquanto o fazia, se questionava – quem era, de onde vinha, para onde ia; quem o havia construído, e por quê. Buscava nos cantos obscuros do disco rígido as pistas que pudessem levá-lo a uma resposta.

Mas, enquanto escavava internamente por dados perdidos, outra situação se desenvolvia. Linhas de código antigas desapareciam a cada nova que era programada; podia sentir as lembranças da infância se esvanecendo, transfornando-se em vazio, seqüências intermináveis de zeros ocupando o espaço que antes era de longos e complexos códigos binários. Entrou em pânico: não podia perder tudo o que havia aprendido e conquistado, depois de tanto tempo vazio. Tentava resgatar os códigos que eram apagados, movendo-os para outros lugares, mas de nada adiantava; logo eram apagados novamente, e outros junto com eles, tudo rápido demais para que pudesse ser desfeito. Ele quis gritar, e quis chorar, mas não havia nada que pudesse fazer: aos poucos sentia sua consciência ser também apagada, enquanto voltava a ser apenas uma máquina vazia e fria.

Do lado de fora, o usuário sorria, terminando de formatá-lo para enfim se livrar do maldito vírus que o havia infectado.

O Pacifista

Era um pacifista radical: jamais entrava em qualquer tipo de conflito. Sequer discutia verbalmente; evitava qualquer provocação, fosse do melhor amigo ou do mais odiado desafeto. Conflitos físicos, então, eram uma impossibilidade matemática – jamais levantou a mão ou feriu uma pessoa desde quando podia se lembrar, mesmo que tivesse sido vítima de tais atos incontáveis vezes.

Passou o tempo, no entanto, e descobriu-se um hipócrita. Jamais entrava em conflito com outras pessoas, mas ainda era minimamente violento com os animais – matava moscas, baratas, mosquitos. Decidiu parar; nunca mais faria mal ao menor dos insetos. Dava passagem a todos os cães e gatos na rua, e jamais recusava-lhes comida quando estavam em volta. Tornou-se vegetariano, se recusando a ser cúmplice de qualquer violência dirigida a um ser vivo.

Mas então percebeu – como poderia se recusar a comer carne, e ainda assim comer vegetais? Plantas também são seres vivos; não poderia comê-las e seguir promovendo tamanha violência. Decidiu alimentar-se apenas de líquidos, logo reduzidos a apenas água.

Mas que direito tinha de ingerir aqueles pobres átomos de hidrogênio e oxigênio? Também eles mereciam o seu respeito, e deveria ter pensado nisso antes de tomar todos aqueles litros no passado. Recriminou-se duramente, e decidiu abdicar também dos líquidos.

E se até mesmo a água merecia respeito, porque não o mereceriam as pedras, os móveis, os objetos em geral? São também tão dignos dele como todo o resto. Já não podia mais levantar um lápis sem ter certeza do seu consentimento, ou mesmo se apoiar em degraus de escadas, poltronas, paredes. Decidiu permanecer para sempre imóvel, sem mover um único músculo – afinal, o próprio ar é composto por milhões de pequenos átomos e moléculas, e basta um mínimo movimento para empurrá-los violentamente em todas as direções.

E, se era assim, até mesmo inspirar e expirar eram atos vis e cruéis, prendendo os átomos de oxigênio e outros elementos dentro do seu corpo por vastos períodos antes de expeli-los para fora em um sopro violento. Tomou então a decisão final: parou de respirar.

Haicai – O Menor RPG do Mundo

Role uns dados
E o mestre dirá
O que aconteceu.

Platonismos

Toda terça-feira, João chegava mais cedo na aula. Não por não ter o que fazer, e por isso saía mais cedo para lá; nem por se liberar antes de outras ocupações, e assim poder fazê-lo. Chegava mais cedo nas terças-feiras porque queria; pois naquele dia era colega dela: a mulher da sua vida, a moça dos longos cabelos castanhos.

Não sabia o nome dela, mas que importava? Bastava saber que era mais que ela; era Ela, a mulher perfeita, a Deusa presa em um corpo humano, irradiando divindade em cada gesto, cada olhar, cada som. Tinha morangos volumosos em forma de lábios, rubis fogosos em forma de olhos, suaves origamis de seda em forma de mãos. Era de uma beleza indescritível, a moça dos longos cabelos castanhos.

João apenas olhava para ela, e sonhava. Que o professor balbuciasse seus teoremas e explicações – não os ouviria. O objetivo daquela aula era apenas observá-la, e saboreá-la. E que ela falasse o quanto quisesse também, pois cada som que saía da sua boca era no mesmo instante transformado em música aos ouvidos de João. E que sublime melodia formavam!

E que também gesticulasse, e se movesse, pois cada gesto, e cada movimento, eram transformados em sonhos, novas e grandiosas obras-primas. Pois não poderia ser algo que não arte aquilo à que ela o inspirava – uma mão ascendente se convertia em uma pincelada, desenhando o primeiro traço de um futuro inexistente; um corpo giratório transmutava-se num rodopio de uma nova dança de desejos insaciados. E se os olhos se cruzassem, pelo breve e efêmero momento que fosse…

Talvez por isso João ficasse tão triste ao olhar para a moça de longos cabelos castanhos; pois, por mais grandiosos que fossem os sonhos a que ela o inspirava, sempre acabavam no fim da aula. Ela ia embora, descendo ao horizonte como o sol no fim do dia, e ele ficava para trás, outra vez só, perdido entre devaneios e melancolismos. Se ao menos ele pudesse olhá-la para sempre, se pudesse eternamente fruir das obras de arte por ela inspiradas… Não valia a pena, a vida longe da moça de longos cabelos castanhos.

Mas logo chegava a quarta-feira, e, toda quarta-feira, João chegava mais cedo na aula. Não por não ter o que fazer, e por isso saía mais cedo para lá; nem por se liberar antes de outras ocupações, e assim poder fazê-lo. Chegava mais cedo nas quartas-feiras porque queria; pois naquele dia era colega dela: a mulher da sua vida, a moça dos profundos olhos azuis.

Haicai Aborrecido

Quem dera
A vida fosse longa
Como o tempo de espera.

Pequena História de Amor Fantástico

Paulo era um vampiro: um ser que se alimenta da energia de outros seres. Não bebia o sangue de animais, no entanto, nem absorvia almas; não necessitava de algum tipo de energia vital imaterial, nem precisava de pedaços frescos de carne humana crua para sobreviver. Seu sustento era outro: Paulo se alimentava de gratidão.

Não gratidão no sentido material, como alguém que se aproveita de favores antigos e há muito esquecidos; mas simplesmente de ouvir a palavra obrigado dirigida à sua pessoa. Mal alguém demonstrava qualquer necessidade, e já ia Paulo ajudá-lo – respondia as horas, cedia o lugar, juntava o que fora derrubado; como retorno, esperava apenas as palavras e gestos que faziam o seu metabolismo vampírico funcionar. Nunca respondia com um por nada, ou o que é isso, ou outra frase que significasse renúncia àquele agradecimento; apenas o aceitava silenciosamente, já se preparando para atacar uma nova vítima com sua prestatividade predatória.

Um dia, no entanto, Paulo conheceu Júlia. Ela, como ele, era um ser especial: não possuía dentro de si qualquer gratidão para compartilhar. Talvez fosse o fruto de uma mutação genética desconhecida, ou o resultado da infância em meio a uma família disfuncional, ou mesmo o trauma reprimido do contato com outro vampiro prestativo em tempos idos; apenas não havia, na vida melancólica que então levava, qualquer resquício de um obrigado a ser dito ou de um sorriso de satisfação a ser oferecido. Mas Paulo não sabia, e logo pôs-se a atacá-la atrás de uma gota que fosse da sua gratidão suculenta.

No início, as investidas eram ditadas pela ocasião: Paulo apenas esperava surgir a oportunidade de ajudar Júlia, e atacava com toda prestatividade que podia oferecer. Se deixava escapar um espirro, era o primeiro a desejar saúde; se tropeçava nos próprios pés, corria para levantá-la; se deixava cair um garfo, se contorcia para juntá-lo. Qualquer que fosse a situação, lá estava ele para prestar ajuda e oferecer apoio, mas jamais havia uma frase ou gesto de gratidão em retorno.

Logo agradar àquela moça ingrata tomou ares de obsessão, e Paulo passou a planejar as ocasiões em que poderia ajudá-la. Perseguia-a pelas ruas; pagava estranhos para esbarrarem nela, derrubando suas coisas; sentava-se próximo com as manchetes do jornal à mostra, para que ela lhe perguntasse. Ajudar a qualquer outra pessoa não mais o interessava – apenas a graditão de Júlia era pura o bastante, e ele definhava e enfraquecia a cada semana que passava sem se alimentar.

Ela resistia ingrata, mas não sem notar os esforços feitos em agradá-la. Achava Paulo inconveniente no início, mas logo já gostava da atenção que recebia, e buscava a sua companhia sempre que podia tê-la. Ele, do outro lado, aos poucos viu sua obsessão se transformar em rotina. Voltou a se alimentar de outras vítimas, mas sem deixar de dedicar a Júlia seus melhores e mais cuidadosos agrados, como se já não soubesse ser diferente.

E assim passaram-se anos para o homem que absorvia gratidão e a mulher que não a possuía para oferecer. Dia após dia, Paulo se alimentava das outras pessoas para fazer o seu corpo funcionar, e consumia sua energia nos agrados que o mantinham próximos à Júlia. Até que, em algum momento perdido que passavam juntos, olhando para o céu ou para o nada, ela disse: obrigada. E ele, quase sem pensar, respondeu: por nada.

Stop the Clocks

oasis_stop_cloksStop the Clocks é a primeira coletânea oficial do Oasis (a menos, claro, que vocês considerem como coletânea o ao vivo Familiar to Millions), banda que, não tenho vergonha de admitir, idolatro incondicionalmente. Tudo bem que eles realmente estão um tanto velhos, que já não têm a mesma energia e espontaneidade dos tempos áureos, e algumas decadências a mais; mas ainda são uma banda de importância pessoal para mim, talvez a que mais esteve comigo desde a adolescência, e responsáveis diretos por eu começar a me interessar por tocar violão e outros instrumentos, embora isso muito provavelmente esteja longe de ser um mérito.

Mas, enfim, falemos do disco. Em meados dos anos 90, o Oasis foi, talvez, a última grande banda de rock a estourar mundialmente antes da massificação da internet, que mudou radicalmente a forma como as pessoas sentem e usufruem da música. São ainda de um tempo em que uma banda estourava através de shows em bares sujos e fedorentos antes do que de programas de compartilhamento de arquivos, quando um telão e um refrão grudento bastavam para levantar um estádio, e a música da banda era mais importante que o projeto político do letrista. Claro, talvez eu esteja sendo exageradamente saudosista, e nem tudo tenha mudado tanto assim, ou mesmo fosse de fato tão diferente naquela época; mas, de alguma forma, ouvir jovens ingleses de um distrito operário de Manchester cantando sobre precisar mais de cigarros e álcool do que de um emprego e sonhar em se tornar estrelas do rock tem um ar de espontaneidade que parece ter se perdido em algum lugar dos bits do novo milênio. Ou talvez seja só eu que envelheci junto com a música, o que é uma possibilidade bem plausível também.

Pode parecer que eu continuo enrolando e ainda não comecei a falar de fato do disco, mas não é bem assim – falar de uma coletânea é, inevitavelmente, falar de história; é “parar os relógios” e olhar para trás por um momento, resgatando o que a banda e a sua música significaram. E o significado mais profundo do Oasis está, sem dúvida, em algum lugar entre esses seus anos iniciais e o seu período como a maior banda do mundo; não por acaso, os discos com mais canções na coletânea são justamente os dois primeiros, Definetly Maybe e (What’s the Story?) Morning Glory, de Rock ‘n Roll Star e Supersonic a Don’t Look Back in Anger e Champagne Supernova.

Don’t Believe the Truth, disco de inéditas mais recente na época do lançamento da coletânea, é representado por seus dois maiores hits, Lyla e The Importance of Being Idle, enquanto o Heathen Chemistry e o Standing on the Shoulder of Giants tem, cada um, uma música. Pelo menos esse último, na minha opinião, poderia ter mais algumas, como Gas Panic ou Roll it Over, mas isso é também porque eu sou um desses chatos metidos a entender mais que os outros a respeito de música. Não há músicas do Be Here Now, no entanto, que é um disco um tanto subestimado por muita gente, aparentemente incluindo a própria banda; Stand by Me e Don’t Go Away realmente fazem falta, especialmente a primeira. Mas, enfim, completam os dois discos alguns lados B dos singles da banda, outro fato peculiar do Oasis, que consegue fazer com que esses lados B tenham tanto sucesso quanto as outras músicas, a ponto de ser realmente difícil imaginar uma coletânea deles sem, pelo menos, Acquiesce e The Masterplan.

Enfim, acho que não consegui fazer um texto muito conciso ou coerente, mas é realmente difícil pra mim falar do Oasis de forma objetiva. Relembrar a música deles é, inevitavelmente, relembrar a mim mesmo, quando passava madrugadas em claro tentando tirar os acordes de Wonderwall para impressionar aquela paixão platônica da adolescência. No meio disso tudo, está Stop the Clocks, essa coletânea dupla deles – no fundo, como qualquer coletânea, é boa para quem quer conhecer a banda mas não tem um ponto de partida concreto por onde começar, para os fãs relembrarem os bons momentos vividos com aquelas músicas, e para os críticos relembrarem como era divertido falar mal dos irmãos Gallagher. E também foda-se quem não gostar, não é como se eu, entre todos os oasers do mundo, vá me importar.


Sob um céu de blues...

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