O Engenhoqueiro

Arton já foi um bom mundo para se viver. Um mundo de problemas, claro, mas um bom mundo mesmo assim. Havia lá uma aliança de bárbaros goblinóides invadindo do continente sul, um ou outro dragão folgado exigindo tributos de pobres vilas indefesas, e mesmo todos aqueles conflitos, intrigas e conspirações típicas de qualquer lugar com um mínimo de organização política. Mas havia também aqueles que faziam um mundo assim valer a pena – grandes e valorosos heróis, que enfrentavam os perigos e males do mundo, e enchiam de esperança os corações e almas das pessoas comuns.

Mas isso foi há muito tempo, numa época distante, lembrada, se tanto, como se lembra da infância, se não apenas como um sonho bobo. Uma época anterior aos Lordes, às chuvas que queimam, aos demônios com rosto de inseto. Uma época em que ainda era possível ter esperança e fé. Hoje Arton não passa de um grande e inóspito deserto; quilômetros e quilômetros sem fim de vazio e desolação, entrecortados por uma ou outra montanha invencível e, se você tiver sorte, alguma velha ruína precariamente ocupável.

Meu nome é Max. Já fui chamado de louco, numa época em que ser louco fazia alguma diferença. Mas quando é o próprio mundo que enlouqueceu, a verdadeira loucura não é tentar manter-se são? Hoje ninguém mais se importa, de qualquer forma.

E por que me chamavam de louco? Eu sou um engenhoqueiro, e a minha classe nunca foi exatamente muito festejada. Num mundo onde é possível explodir castelos com um estalar de dedos e piscar os olhos em uma cidade para abri-los em outra, que diferença faz a força de engrenagens e motores? Era preciso ser um tanto inapto para as artes arcanas, como sempre foi bastante comum entre meus irmãos de raça, para que esse tipo de habilidade fosse valorizada.

Ironicamente, hoje é justamente graças a estas habilidades que muitos de nós conseguem sobreviver. Resta pouca magia no mundo, e aqueles capazes de manipulá-la certamente não estão interessados em dividi-la, ou mesmo, com certa freqüência, não sabem muito bem porque são capazes de fazê-lo. Goblins como eu, assim, passaram de praga a esperança: somos os magos destes tempos difíceis, aqueles cujo conhecimento pode salvar vidas e gerar algum tipo de conforto. Muitos de nós alcançam postos de alto prestígio nas poucas grandes comunidades que ainda ousam existir, servindo como conselheiros e engenheiros oficiais de seus líderes e tiranos.

Eu não. Prefiro manter minha liberdade, vagando pelo mundo, explorando ruínas e cavernas atrás de materiais para meus experimentos e inventos. Viajo em uma pequena carroça mecânica; um belo invento, sem dúvida, provavelmente minha obra-prima: uma carroça aparentemente comum, puxada por um veículo de ferro com rodas que se move através de um pequeno motor à vapor; dentro dele, uma fogueira aquece uma panela cheia de água, transformando-a em gás que é liberado por alguns canos laterais, e no caminho move uma série de alavancas, pistões e engrenagens, que fazem as rodas girarem. Não é tão rápido quanto uma carroça a cavalo, mas hoje em dia é mais fácil achar combustível para manter a fogueira acesa do que cavalos.

Outros também perceberam a praticidade da minha invenção: esta é a segunda carroça; a primeira foi roubada tempos atrás, por algum bando de salteadores errantes. Levei meses para reunir material e construir outra. Para evitar ser roubado novamente, além de construir e me treinar no uso alguns armamentos mecânicos, também procuro sempre encontrar viajantes que pareçam ser de boa índole, e aceitem uma carona para onde quer que estejam indo em troca de proteção. Gente como aquele homem, enfim.

Ainda lembro bem de quando o encontrei. Vi sua silhueta vagando pelo deserto, seus ombros largos e cabelos negros e compridos. Vestia trapos e pedaços do que um dia deve ter sido uma bela armadura de placas; nas costas, com a lâmina envolta em um pano, levava uma grande espada de duas mãos. Com alguma desconfiança, guiei a carroça até ele e tentei puxar uma conversa.

– Bom dia, viajante.

A resposta foi apenas um olhar.

– Vai para algum lugar?

Novamente, apenas um olhar.

– Bem, eu estou indo para Valkaria, ou o que restou dela. – pausei para esperar alguma reação do viajante. Nenhuma; um pouco contrariado, continuei: – Mas estas regiões podem ser perigosas, seria bom ter um companheiro armado comigo.

– Os revólveres não bastam?

Olhei para ele com espanto, surpreso não tanto pelo fato de ele ter falado como por ter notado as armas que tentava esconder sob o manto.

– Nunca se pode estar seguro demais, certo? Então, não quer uma carona? Posso levá-lo aonde quiser ir, depois de passar por Valkaria.

Ele parou de caminhar, afinal, e olhou profundamente nos meus olhos. Fiquei um tanto inquieto: era como se os cantos mais obscuros da minha alma estivessem em julgamento naquele instante. Então, com um gesto, pediu para subir na carroça.

– Que bom que chegamos a um acordo. – falei, tentando sorrir de forma simpática, enquanto o ajudava a entrar e acomodar sua espada. – Qual é o seu nome?

– Khalmyr.

Olhei para ele espantado mais uma vez.

– Como o velho deus? – perguntei.

– Isso. – ele respondeu. – Como o velho deus. – a segunda frase soou quase como um sussurro.

Seguimos viagem por vários dias. Meu companheiro pouco falava, mesmo quando eu tentava puxar algum assunto. Quando lhe perguntei de onde vinha e para onde ia, respondeu apenas “qualquer lugar”, e voltou ao seu silêncio típico. Tive uma ou duas oportunidades de ver sua poderosa espada em ação, contra alguns salteadores com quem cruzamos eventualmente; era uma bela arma, com jóias incrustadas no seu cabo que brilhavam a cada golpe, destroçando quem quer que acertasse – provavelmente fosse uma espada mágica, coisa rara de se ver hoje em dia. Preferi não perguntar onde a havia conseguido. Também reparei que Khalmyr era, ele próprio, capaz de alguns belos feitos de feitiçaria: observei bastante curioso a forma como manteve afastado de nós um grupo de zumbis durante a noite, e agradeci a qualquer deus que ainda estivesse vivo por colocá-lo no meu caminho.

Eventualmente chegamos ao nosso destino. Em tempos mais prósperos, Valkaria era conhecida pela grande estátua da deusa de quem emprestava o nome; diziam que fora construída pelos próprios deuses, e que nenhum mortal seria capaz de destruí-la. Não é de se admirar, portanto, que, quando os Lordes vieram e de fato a derrubaram, tenha sido um choque tão grande: aquela era a prova definitiva de que eram maiores que os deuses, e que para nós não havia qualquer esperança. Eles haviam vencido, nossa realidade fora conquistada.

Seguiu-se o que não se pode chamar de outra coisa que não inferno, embora muitos ainda defendam que o inferno teria sido mais suportável. A vida era uma paródia grotesca de si mesma: trabalhávamos sem objetivo, pastávamos a nós mesmos, comíamos nossos próprios membros, que então cresciam novamente para nos alimentar no dia seguinte. Os que ousavam dormir tinham pesadelos ainda piores que a realidade. E a morte, o descanso definitivo que todos esperávamos, nunca vinha, a não ser quando os próprios Lordes decidiam que viesse.

Não há como saber quanto tempo passou; o tempo simplesmente não fazia diferença. Não havia dias ou noites, e as estações se misturavam e revezavam a cada minuto. Crianças envelheciam em horas, e velhos rejuvenesciam até virarem bebês. Talvez os Lordes nos tenham governado por mil anos, ou talvez tenha sido apenas um mês. Um dia, no entanto, simplesmente se cansaram, e, entediados, decidiram partir, seguindo atrás de um outro mundo que pudessem conquistar e torturar. E deixaram estes trapos para trás: quilômetros e quilômetros de vazio e desolação, um mundo morto, mas que seguiu adiante.

Lembrava de tudo a cada pedaço da estátua da deusa que encontrava pelo chão, e, me esforçando para esquecer, entendia porque esta era uma das poucas ruínas de cidades antigas que não havia sido convertida em abrigo de sobreviventes. Era doloroso demais; eu mesmo, apenas de passagem, precisava de muita força de vontade para não me encolher aos prantos em algum canto despedaçado. Khalmyr parecia impassível, mas eu percebia que se esforçava tanto quanto eu para passar essa impressão.

E foi um esforço que valeu a pena, afinal – encontrei e recolhi muita coisa útil, de grandes pedaços de metal até uma boa quantidade de carvão, suficiente para manter minha carroça andando por muito tempo. Encontrei até mesmo, espantado, algumas velhas moedas de prata, o equivalente a uma pequena fortuna em mantimentos assim que chegasse a uma cidade onde trocá-las. Achando que já havia pilhado o suficiente da velha capital, disse a Khalmyr que se preparasse para partir. Foi quando escutamos o som de passos descuidados, e nos colocamos de prontidão. A origem dos passos não demorou em se revelar.

Lefenitas.

Quando os Lordes decidiram partir, pondo fim à sua era de terror e pesadelo, não o fizeram sem deixar sua marca, uma cicatriz terrível que nos lembraria para sempre do período em que éramos seus brinquedos e fantoches. A marca da corrupção: ela ainda é forte no mundo, atingindo muitos recém-nascidos, e mesmo, algumas vezes, afetando e consumindo qualquer um sem razão aparente, criando do nada mutações grotescas e aberrações monstruosas; são estes mutantes corruptos a quem chamamos lefenitas. Muitos não chegam realmente a se importar com a mutação, e seguem vivendo de forma relativamente normal, até mesmo aproveitando suas novas características como forma de obter vantagens e habilidades que outras pessoas não podem possuir. Outros, no entanto, se deixam consumir por inteiro por ela, perdendo qualquer vestígio de inteligência ou racionalidade que possuíam, passando a viver como pouco mais do que animais selvagens nas terras desoladas que compõem o mundo.

Eram deste último grupo os que nos cercavam por todos os lados, monstros  disfomes cobertos de carapaças e garras insetóides, e se aproximavam e urravam em tom de ameaça. Khalmyr não esperou que estivessem perto demais: levantou a espada e partiu para cima de um grupo deles, separando membros e dividindo corpos. Saquei também os revólveres que escondia sob o manto e comecei a atirar; não era capaz de causar tanto dano quanto meu companheiro, mas pelo menos conseguia mantê-los afastados.

Mas eles eram muitos, e minha munição não era ilimitada. Quando reparei que Khalmyr começava a se cansar, gritei para que me seguisse, e fui abrindo caminho a tiros tentando chegar em uma velha casa de mármore que ainda estava razoavelmente intacta. Quase chegávamos ao nosso objetivo quando um dos lefenitas me acertou com força, abrindo um grande corte de um lado a outro da minha barriga; em um surto de energia, consegui correr para dentro da casa, seguido por Khalmyr. Ele fechou a porta atrás de si e armou uma barricada de móveis para impedir que fosse derrubada – sua espada, no entanto, ficou do lado de fora.

Desabei de costas sobre uma parede, e observei o ferimento aberto no abdômen: vísceras transbordavam para fora do corpo, junto com uma quantidade assustadora de sangue ainda quente. Não resistiria muito tempo; a visão já começava a se turvar e falhar. Terminando de selar a porta, Khalmyr se aproximou.

– Deixe-me ver isso. – disse, e fez algo que eu jamais imaginaria ver acontecer outra vez.

Colocando as vísceras que já estavam fora de volta para dentro, desenhou suavemente com a mão direita uma pequena linha que ia de um lado a outro do local do ferimento. A linha se preencheu de luz branca, e no instante seguinte o corte fechou, encerrando até mesmo a dor lacerante que ele causava.

Era um feito extraordinário! Por mais que ainda houvesse resquícios de magia sobrando no mundo, feitiços de cura eram extremamente raros. Mesmo os magos e feiticeiros mais poderosos freqüentemente não eram capazes de usá-los; nos tempos antigos, antes da chegada dos Lordes, quem detinha tal capacidade geralmente não eram místicos e acadêmicos, mas devotos e sacerdotes, que recebiam seus poderes de conjuração não de estudo e treinamento, mas da fé, como uma dádiva direta dos…

Deuses. E, de repente, como quem é acordado por uma rocha, entendi.

– Você é o próprio Khalmyr, não é?

Não houve resposta, o que foi resposta suficiente.

– O que aconteceu? Onde estão os outros deuses? Eles estão vivos? Vocês eram vinte, não eram? – tantas perguntas, tanta coisa a saber, mas, sabia bem, tão pouco tempo.

– Já fomos. – ele hesitou por um momento, então continuou. – Muitos morreram no combate aos Lordes. Os que tiveram sorte, pelo menos; os que restaram em geral enlouqueceram com as eras de tortura que se seguiram. Hoje vagam pelo mundo, ou o que restou dele, em corpos mortais como este, incapazes de envelhecer.

– E por que não fazem nada? Por que não retomam o mundo agora que os Lordes se foram?

– Você não vê? – o tom era de incredulidade, e eu podia perceber as lágrimas se formando sob seus olhos. – Está tudo errado! Está tudo fora do lugar! Nada é como devia ser!

Agora era eu que olhava incrédulo para o deus, impressionado com a intensidade da reação. Ele se recompôs, e, mais calmo, continuou.

– Foi culpa nossa, sabe? Deixamos que os Lordes entrassem. Sabíamos que era perigoso, mas Glórien nos convenceu. Ela era tão pequena, tão fraca… Tão… Frágil. Não havia como negar isso a ela. E além do mais, nós éramos deuses! Podíamos intervir e resolver qualquer problema, se fosse necessário! Éramos tão tolos… Alguns de nós ainda caçam a elfa pelo mundo, para torturá-la e puni-la. Acho que Keenn e Tenebra, talvez Azgher. Eu deixei de me importar há muito tempo… Que diferença pode fazer, hoje? Depois de tudo que aconteceu?

– Mas os Lordes foram embora! E vocês são deuses, ainda devem ser capazes de fazer alguma coisa!

– Um deus que perdeu a fé dos seus seguidores não é capaz de nada. Com muito esforço, consigo fazer pequenos truques como fechar cicatrizes e outros que você viu.

A conversa foi interrompida pelo som dos lefenitas batendo do lado de fora da porta. A barricada provavelmente não resistira muito tempo.

– Droga, você é um deus! O maior de todos! Tem que ser capaz de fazer alguma coisa! – repeti, as palavras saindo em um tom de súplica mais do que bravata.

– Eu… Eu não posso. – Khalmyr virou o rosto para o chão, fugindo do peso do meu olhar.

As batidas do lado de fora eram mais fortes; a barricada começava a se desfazer.

– Você precisa que acreditem em você? Está certo! Eu acredito em você! – e realmente acreditava, pois não havia outra opção.

Ele levantou os olhos na minha direção, e os virou para a barricada que se desfazia. Uma ponta de resolução e decisão parecia se formar no seu rosto. Por um instante, voltei a sentir a esperança preenchendo minha alma; ele recuperaria seu poder, seu status, e nos salvaria dos lefenitas. E então se revelaria ao mundo, e o restauraria. Tudo voltaria ao normal, tudo voltaria a ser como antes. Antes dos Lordes.

Mas ele se voltou novamente para o chão.

– Eu não posso. – disse, e se encolheu em um dos cantos da casa, abraçando os joelhos. Repetia suas últimas palavras como um mantra, enquanto uma poça de lágrimas se formava aos seus pés.

Eu olhava apático para aquele deus aos prantos, incapaz de qualquer reação. Então o barulho da barricada se desfazendo tomou novamente minha atenção; logo os lefenitas estarão aqui, sobre nós dois, nos destroçando e devorando. Arton já foi um bom mundo para se viver, é verdade, mas isso foi há muito tempo. Hoje, talvez seja este mesmo o melhor destino que eu posso esperar.

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3 Responses to “O Engenhoqueiro”


  1. 1 Lord Seph 20/07/2010 às 14:23

    putz, adorei o conto e quero ver esse mundo em ação (apesar que eu já ter feito o fim de Arton em minha mesa XD)

  2. 2 Gabriel Pime (@PimeT800) 19/05/2015 às 23:37

    Que texto, amigo! Que texto! Gostei demais. Esse conto poderia se transformar em uma HQ.


  1. 1 Pastichagem – Inominattus Trackback em 22/08/2009 às 11:11

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