The Refugee All-Stars – Um Drama Musicado

allstar2Lembro de algumas conversas com certos amigos em que não raramente o assunto acaba desviado para o tema da música, interesse comum que temos de forma mais ou menos aprofundada. Falamos de coisas como descobertas de antropologia musical, pagação de pau pura e simples, oposições entre saudosismo e inovações, e o que mais vier na telha discutir; às vezes acho que falamos tanto, e com tanto interesse e paixão, que acabamos por perder de vista a real dimensão do assunto que discutimos, e nos deixamos levar por devaneios que exageram muito a importância e o papel da música no mundo. E acredito que, provavelmente, o que mais me tocou em The Refugee All-Stars – Um Drama Musicado foi a forma como ele me ajudou a recuperar um pouco a noção dessa dimensão, me atingindo com um contundente choque de realidade.

O documentário fala da banda The Refugee All-Stars, formada por refugiados da guerra civil que aconteceu entre 1991 e 2002 em Serra Leoa, país da costa ocidental africana. Juntaram-se para dar uma opção de entretenimento aos demais habitantes do campo de refugiados onde viviam em Guiné-Bissau, que muitas vezes não tinham mais o que fazer com seus dias do que esperar a hora de comer e dormir, cantando sobre a sua situação e a forma como tentam seguir a vida. É uma música simples, claro; pode-se ver alguma influência forte do reggae jamaicano e também do rap contemporâneo, mas o estilo de fato é, aqui, o elemento menos relevante – trata-se, antes de qualquer outra coisa, de música espontânea, legitimamente popular, sem qualquer pretensão pseudo-artística ou interesse por normas rígidas de classificação (ou rotulação), composição e execução. São como bardos (ou melhor, griots) que cantam aquilo que vêem e vivem, mais do que eruditos e teóricos que lêem partituras em papel escritas em salas fechadas e mal-iluminadas.

O filme, é claro, não é focado apenas na música da banda. Ele fala bastante da trajetórias dos músicos, da forma como se reuniram, das suas apresentações em diversos campos de refugiados, e, principalmente, da sua volta a Serra Leoa, após a pacificação do país, para gravar um disco em estúdio. Mas não é um documentário narrativo – ele é todo centrado nas entrevistas e depoimentos dos seus personagens, entrecortados por trechos de apresentações e da gravação do disco, o que o ajuda a manter o foco; é um filme sobre esperança, acima de qualquer outra coisa, dando uma nova dimensão não só sobre a música, mas também sobre a religiosidade, o cotidiano e outras características dos refugiados dos conflitos africanos. Não digo ainda que alguém mais bem-informado e embasado sobre a situação política e social africana  não poderia questionar e discordar de muitas das opiniões ditas pelos músicos e outros entrevistados; no entanto, esse não é o ponto fundamental do filme, que é muito mais o de registrar e documentar o contexto da banda do que propriamente fazer um manifesto político de qualquer tipo.

Li certa vez uma resenha que falava sobre ser difícil avaliar objetivamente um documentário, pois a nossa opinião em geral depende muito mais do nosso interesse pelo assunto abordado do que da sua qualidade técnica de fato. Acho que isso é verdade – e é inegável eu tenho grande interesse sobre todos os assuntos aqui presentes, de antropologia musical à geopolítica contemporânea. No entanto, é certamente digno de nota que The Refugee All-Stars – Um Drama Musicado é um documentário bem produzido e executado sobre a região, e que consegue chamar a atenção para ela sem cair naquele chavão repetitivo e (infelizmente) já enfadonho de adesismo à causa africana, nem qualquer outro clichê bono-voxiano do tipo.

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1 Response to “The Refugee All-Stars – Um Drama Musicado”



  1. 1 Mali to Memphis « Rodapé do Horizonte Trackback em 19/04/2012 às 21:09

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