A Viagem

– Não vai tão rápido, meu filho, você vai se acidentar. – sempre dizia o pai de Paulo para o filho. Paulo gostava de velocidade desde que tinha dois anos, época em que ganhou o primeiro triciclo, e continuou com os primeiros patins, a primeira bicicleta, o primeiro carro. Sempre andava o mais rápido que podia; se tanto, tentava respeitar limites quando havia guardas ou radares por perto, para não se incomodar demais com multas e processos. Não importava o quanto o pai, a mãe, o irmão, os amigos avisassem: apenas gostava de andar rápido assim. Se começasse a maneirar na velocidade, o que iriam querer depois, que usasse cinto de segurança?

Um dia, no entanto, o invevitável aconteceu: Paulo se acidentou. Foi quando voltava do super-mercado, o porta-malas repleto de alimentos e mantimentos para ele e a família; tentou fazer uma curva fechada em alta velocidade, e o carro escapou pela calçada. Bateu no cordão e, com a forte aceleração, foi lançado aos céus, girando. Subiu, subiu, subiu… Até que venceu a gravidade terrestre e saiu em órbita pelo espaço.

Quando se recuperou do choque, Paulo olhou para o retrovisor e arregalou os olhos: a Terra, belíssima na sua imensidão azul, ficava para trás, cada vez menor. À sua frente a Lua se aproximava, e logo já passava dela também. Passou em seguida por Marte, e, no cinturão de asteróides que havia depois, quase foi acertado por uma dúzia de rochas espaciais – escapou graças ao pensamento rápido que teve, jogando o corpo para os lados e para baixo para fazer o carro virar naquela direção, e assim desviar dos objetos que se aproximavam.

Seguiu-se então Júpiter, Saturno, Urano… Paulo olhava cada um deles com um sorriso bobo no rosto, maravilhado com a beleza do universo que o circundava. Ao longe podia ver o brilho de diversas estrelas, mais fortes e luminosas do que nunca na escuridão do espaço. Imaginava quantos astrônomos renomados não o invejariam naquela situação. Em um dado momento um cometa passou rente ao carro, e em outro podia jurar que viu ao longe um objeto circular achatado, repleto de luzes artificiais coloridas.

Logo, no entanto, começou a achar aquela viagem um tanto… Chata. Aconteceu depois que ele passou por Plutão, para ser mais exato, e do Cinturão de Kuiper, com outra sessão de desvios de asteróides: a partir daí seguiu-se um longo período sem nada de interessante para olhar ou fazer pelo espaço. Entediado, Paulo removeu o encosto do banco traseiro, que ficava na frente do porta-malas, e puxou uma das sacolas de super-mercado, escolhendo alguma coisa para comer. Encontrou também uma revista velha jogada pelo chão e folheou rapidamente por alguns dos seus artigos. Tentou sintonizar alguma coisa no rádio, talvez uma estação extra-terrestre, mas não teve sucesso.

Colocou para tocar um dos poucos CDs que trazia no carro, e, se acomodando de forma a ficar mais confortável, tentou lembrar das aulas de ciências no colégio, buscando prever quando teria outra coisa interessante para ver. Achou que a galáxia de Andrômeda provavelmente ficasse muito longe, e que não sobreviveria até lá; a outra estrela mais próxima do Sistema Solar também não deveria ser muito perto, e isso se estivesse na direção certa.

De repente, reparou que o carro perdia velocidade, e começava a fazer uma pequena curva na trajetória: era a a gravidade do Sol começando a fazer efeito sobre o veículo. Achou que fosse dar a volta e retornar na direção de onde veio, mas percebeu que era uma curva muito aberta; primeiro circundaria todo o Sistema Solar, como um cometa. Acabaria voltando a Terra eventualmente, e então talvez alguém o percebesse e o resgatasse, mas provavelmente ainda demoraria uns setenta ou oitenta anos.

Paulo suspirou e virou de lado no banco. Pegou o casaco que trazia atirado no lado do carona e se tapou, pois começava a sentir o frio que era estar tão longe do Sol. Então fechou os olhos e tentou tirar um cochilo. Seria uma longa viagem, afinal.

2 Responses to “A Viagem”


  1. 1 candy 18/03/2009 às 14:41

    paula me lembra o nosso conto coletivo^^

  2. 2 Bruno 19/03/2009 às 16:37

    É, heheh… Exceto que aqui é o Paulo, não a Paula =P

    Mas ei, bora fazer um dia desses um conto coletivo inter-blogs? =D


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