Pequena História de Amor Fantástico

Paulo era um vampiro: um ser que se alimenta da energia de outros seres. Não bebia o sangue de animais, no entanto, nem absorvia almas; não necessitava de algum tipo de energia vital imaterial, nem precisava de pedaços frescos de carne humana crua para sobreviver. Seu sustento era outro: Paulo se alimentava de gratidão.

Não gratidão no sentido material, como alguém que se aproveita de favores antigos e há muito esquecidos; mas simplesmente de ouvir a palavra obrigado dirigida à sua pessoa. Mal alguém demonstrava qualquer necessidade, e já ia Paulo ajudá-lo – respondia as horas, cedia o lugar, juntava o que fora derrubado; como retorno, esperava apenas as palavras e gestos que faziam o seu metabolismo vampírico funcionar. Nunca respondia com um por nada, ou o que é isso, ou outra frase que significasse renúncia àquele agradecimento; apenas o aceitava silenciosamente, já se preparando para atacar uma nova vítima com sua prestatividade predatória.

Um dia, no entanto, Paulo conheceu Júlia. Ela, como ele, era um ser especial: não possuía dentro de si qualquer gratidão para compartilhar. Talvez fosse o fruto de uma mutação genética desconhecida, ou o resultado da infância em meio a uma família disfuncional, ou mesmo o trauma reprimido do contato com outro vampiro prestativo em tempos idos; apenas não havia, na vida melancólica que então levava, qualquer resquício de um obrigado a ser dito ou de um sorriso de satisfação a ser oferecido. Mas Paulo não sabia, e logo pôs-se a atacá-la atrás de uma gota que fosse da sua gratidão suculenta.

No início, as investidas eram ditadas pela ocasião: Paulo apenas esperava surgir a oportunidade de ajudar Júlia, e atacava com toda prestatividade que podia oferecer. Se deixava escapar um espirro, era o primeiro a desejar saúde; se tropeçava nos próprios pés, corria para levantá-la; se deixava cair um garfo, se contorcia para juntá-lo. Qualquer que fosse a situação, lá estava ele para prestar ajuda e oferecer apoio, mas jamais havia uma frase ou gesto de gratidão em retorno.

Logo agradar àquela moça ingrata tomou ares de obsessão, e Paulo passou a planejar as ocasiões em que poderia ajudá-la. Perseguia-a pelas ruas; pagava estranhos para esbarrarem nela, derrubando suas coisas; sentava-se próximo com as manchetes do jornal à mostra, para que ela lhe perguntasse. Ajudar a qualquer outra pessoa não mais o interessava – apenas a graditão de Júlia era pura o bastante, e ele definhava e enfraquecia a cada semana que passava sem se alimentar.

Ela resistia ingrata, mas não sem notar os esforços feitos em agradá-la. Achava Paulo inconveniente no início, mas logo já gostava da atenção que recebia, e buscava a sua companhia sempre que podia tê-la. Ele, do outro lado, aos poucos viu sua obsessão se transformar em rotina. Voltou a se alimentar de outras vítimas, mas sem deixar de dedicar a Júlia seus melhores e mais cuidadosos agrados, como se já não soubesse ser diferente.

E assim passaram-se anos para o homem que absorvia gratidão e a mulher que não a possuía para oferecer. Dia após dia, Paulo se alimentava das outras pessoas para fazer o seu corpo funcionar, e consumia sua energia nos agrados que o mantinham próximos à Júlia. Até que, em algum momento perdido que passavam juntos, olhando para o céu ou para o nada, ela disse: obrigada. E ele, quase sem pensar, respondeu: por nada.

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1 Response to “Pequena História de Amor Fantástico”


  1. 1 Acromax 17/07/2011 às 12:13

    Um dos meus favoritos! =]


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