Platonismos

Toda terça-feira, João chegava mais cedo na aula. Não por não ter o que fazer, e por isso saía mais cedo para lá; nem por se liberar antes de outras ocupações, e assim poder fazê-lo. Chegava mais cedo nas terças-feiras porque queria; pois naquele dia era colega dela: a mulher da sua vida, a moça dos longos cabelos castanhos.

Não sabia o nome dela, mas que importava? Bastava saber que era mais que ela; era Ela, a mulher perfeita, a Deusa presa em um corpo humano, irradiando divindade em cada gesto, cada olhar, cada som. Tinha morangos volumosos em forma de lábios, rubis fogosos em forma de olhos, suaves origamis de seda em forma de mãos. Era de uma beleza indescritível, a moça dos longos cabelos castanhos.

João apenas olhava para ela, e sonhava. Que o professor balbuciasse seus teoremas e explicações – não os ouviria. O objetivo daquela aula era apenas observá-la, e saboreá-la. E que ela falasse o quanto quisesse também, pois cada som que saía da sua boca era no mesmo instante transformado em música aos ouvidos de João. E que sublime melodia formavam!

E que também gesticulasse, e se movesse, pois cada gesto, e cada movimento, eram transformados em sonhos, novas e grandiosas obras-primas. Pois não poderia ser algo que não arte aquilo à que ela o inspirava – uma mão ascendente se convertia em uma pincelada, desenhando o primeiro traço de um futuro inexistente; um corpo giratório transmutava-se num rodopio de uma nova dança de desejos insaciados. E se os olhos se cruzassem, pelo breve e efêmero momento que fosse…

Talvez por isso João ficasse tão triste ao olhar para a moça de longos cabelos castanhos; pois, por mais grandiosos que fossem os sonhos a que ela o inspirava, sempre acabavam no fim da aula. Ela ia embora, descendo ao horizonte como o sol no fim do dia, e ele ficava para trás, outra vez só, perdido entre devaneios e melancolismos. Se ao menos ele pudesse olhá-la para sempre, se pudesse eternamente fruir das obras de arte por ela inspiradas… Não valia a pena, a vida longe da moça de longos cabelos castanhos.

Mas logo chegava a quarta-feira, e, toda quarta-feira, João chegava mais cedo na aula. Não por não ter o que fazer, e por isso saía mais cedo para lá; nem por se liberar antes de outras ocupações, e assim poder fazê-lo. Chegava mais cedo nas quartas-feiras porque queria; pois naquele dia era colega dela: a mulher da sua vida, a moça dos profundos olhos azuis.

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