O Pacifista

Era um pacifista radical: jamais entrava em qualquer tipo de conflito. Sequer discutia verbalmente; evitava qualquer provocação, fosse do melhor amigo ou do mais odiado desafeto. Conflitos físicos, então, eram uma impossibilidade matemática – jamais levantou a mão ou feriu uma pessoa desde quando podia se lembrar, mesmo que tivesse sido vítima de tais atos incontáveis vezes.

Passou o tempo, no entanto, e descobriu-se um hipócrita. Jamais entrava em conflito com outras pessoas, mas ainda era minimamente violento com os animais – matava moscas, baratas, mosquitos. Decidiu parar; nunca mais faria mal ao menor dos insetos. Dava passagem a todos os cães e gatos na rua, e jamais recusava-lhes comida quando estavam em volta. Tornou-se vegetariano, se recusando a ser cúmplice de qualquer violência dirigida a um ser vivo.

Mas então percebeu – como poderia se recusar a comer carne, e ainda assim comer vegetais? Plantas também são seres vivos; não poderia comê-las e seguir promovendo tamanha violência. Decidiu alimentar-se apenas de líquidos, logo reduzidos a apenas água.

Mas que direito tinha de ingerir aqueles pobres átomos de hidrogênio e oxigênio? Também eles mereciam o seu respeito, e deveria ter pensado nisso antes de tomar todos aqueles litros no passado. Recriminou-se duramente, e decidiu abdicar também dos líquidos.

E se até mesmo a água merecia respeito, porque não o mereceriam as pedras, os móveis, os objetos em geral? São também tão dignos dele como todo o resto. Já não podia mais levantar um lápis sem ter certeza do seu consentimento, ou mesmo se apoiar em degraus de escadas, poltronas, paredes. Decidiu permanecer para sempre imóvel, sem mover um único músculo – afinal, o próprio ar é composto por milhões de pequenos átomos e moléculas, e basta um mínimo movimento para empurrá-los violentamente em todas as direções.

E, se era assim, até mesmo inspirar e expirar eram atos vis e cruéis, prendendo os átomos de oxigênio e outros elementos dentro do seu corpo por vastos períodos antes de expeli-los para fora em um sopro violento. Tomou então a decisão final: parou de respirar.

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