Saint Wynna – Um Conto no Velho Leste Artoniano

(ou Por um Punhado de Tibares)

O sol do meio-dia assombrava os lagartos correndo pelo chão, no centro da cidade vazia onde Clint Madeira-do-Leste e Jon Silverado se encaravam seriamente.

– Esta cidade é pequena demais para nós dois. – as palavras saíam da boca de Jon como mísseis mágicos dos dedos de um mago.

– Não. – Clint seguia imóvel, como se a negação fosse um escudo invisível que o protegia dos ataques do oponente. – Este mundo que é pequeno demais para nós dois.

– De acordo. – Jon sorriu discretamente enquanto continuava a fitar o rosto de Clint. Cada segundo em que os dois se encaravam parecia durar séculos; por vezes, era quase possível ver o ar entre eles entrando em combustão.

Escondidos dentro das casas à volta, os cidadãos observavam assustados o embate de nervos entre os dois magos. Desde que a notícia da volta de Jon à cidade se espalhou, sabiam que aquele momento era inevitável – anos antes, fora Clint que expulsara a ele e o seu bando de lá, e como recompensa recebera o cargo de chefe da pequena milícia local. E o bandido agora buscaria sua vingança, que inevitavelmente ocorreria daquela forma: um duelo de mísseis mágicos no centro da cidade. Para um forasteiro podia parecer uma forma estranha de resolver inimizades, mas era assim que as coisas aconteciam em Saint Wynna, o coração do velho leste artoniano, desde quando os seus habitantes eram capazes de se lembrar. Pois aquela não era uma cidade comum: as peculariedades da sua história eram tantas que por vezes era difícil lembrar-se que ainda estávamos em Arton, em meio a uma das mais importantes nações do Reinado.

Tudo começou ainda na época da colonização de Arton-norte, antes que os reinos da região leste estivessem definitivamente consolidados. Foi nessa época que um velho anão aventureiro vindo com as caravanas do sul, conhecido apenas como Wyatt, resolveu fixar residência na região onde futuramente a cidade seria fundada. Parecia um bom lugar para descansar depois dos anos de aventura: era razoavelmente longe dos principais centros urbanos dos refugiados, o que garantiria o sossego; e possuía boas pastagens para a criação de trobos, garantindo uma forma de sustento à longo prazo para o anão e sua família. Dos contratempos mais notáveis, havia uma freqüência um pouco maior do que a esperada de criaturas com habilidades mágicas assustando os animais, e algumas tribos de kobolds selvagens com uma religião estranha baseada na adoração de espíritos da natureza que teimavam em incomodá-lo. Nada com que Wyatt realmente se preocupasse, enfim – na verdade, até gostava da oportunidade constante de usar seu velho machado de batalha.

Foram bons tempos para o velho anão e sua família, pelo menos do seu próprio ponto de vista. Se dividindo entre cuidar dos trobos, espantar kobolds salteadores e visitar eventualmente cidades próximas do recém fundado reino de Bielefeld para tratar de negócios, pode-se dizer que ele viveu feliz seus últimos anos de vida, antes de falecer devido à idade avançada. Não chegou a ver, portanto, a chamada Era de Ouro do Velho Leste artoniano, que logo começaria.

Já então a região fazia parte do novo reino de Wynlla, nação regida por uma magocracia e habitada sobretudo por usuários e estudiosos das técnicas arcanas. Não é de se espantar, assim, que, quando um dos herdeiros de Wyatt encontrou nas suas terras uma grande mina de golde – um minério dotado de propriedades místicas especiais, que o tornam extremamente valioso para experimentos mágicos -, se iniciasse uma grande corrida para habitar a região. As antigas terras pertencentes ao anão foram vendidas ou apropriadas pelos migrantes do resto do reino, que se apressavam em fundar novas cidades próximas a qualquer jazida de golde encontrada; ao mesmo tempo, as tribos kobolds eram forçadas a se integrar na nova sociedade que crescia, que não media escrúpulos em fazer uso do conhecimento adquirido em séculos vivendo na região que elas possuíam, ou a migrar cada vez mais para nordeste, até abandonarem definitivamente suas terras ancestrais.

Foi uma época de grandes aventuras, onde grandes lendas foram forjadas. Muitos tipos peculiares marcaram seu nome na história da região – gente como Django Darkoffin, mago-andarilho elfo, que vagou por toda Wynlla atrás dos assassinos de sua família; Billy Pequeno e seu famoso bando de halflings salteadores, que usavam varinhas de mísseis mágicos para assaltar grandes carregamentos de golde; Watanka Tatanka, grande guerreiro-xamã kobold que lutou até as últimas conseqüências para defender as terras sagradas de seu povo; e muitos outros.

Mas, é claro, nenhuma região é chamada de velha à toa. No momento em que Clint e Jon realizavam seu encontro derradeiro, essa era de ouro há muito já havia se encerrado. Um fenômeno místico conhecido como Escoadouro, comum em vários locais do reino, atingiu diversas minas de golde, drenando todas as suas propriedades mágicas; de uma hora para outra todo o minério valioso e abundante se transformou em simples rocha comum. Ao mesmo tempo, antigas maldições rogadas pelos xamãs kobolds expulsos começaram a surtir efeito, fazendo com que centenas de milhares de esqueletos de seus ancestrais mortos levantassem do subterrâneo e atacassem em massa as cidades que tomaram suas terras.

O êxodo da região foi geral. Das dezenas de cidades e vilas que havia poucos anos antes, apenas três não foram completamente abandonadas, Saint Wynna entre elas; as demais se tornaram verdadeiras cidades fantasmas, habitadas pelos espíritos daqueles que morreram protegendo-as e agora guardavam seus tesouros esquecidos. Entre os poucos corajosos o bastante para permanecer, a criação de trobos foi redescoberta como forma de subsistência, mas logo receberia um apoio significativo de outra área econômica bastante ativa em toda Arton: o suporte à aventureiros e caçadores de tesouros, atrás das promessas de cidades abandonadas infestadas de mortos-vivos e minas subterrâneas onde ainda poderia haver resquícios de minérios místicos.

Foi assim que Clint Madeira-do-Leste chegou pela primeira vez à Saint Wynna, quando era um mago aventureiro em fim de carreira, ainda em busca do grande tesouros que garantiria a sua aposentadoria. Encontrou a cidade assolada pelo grupo de salteadores liderados por Jon Silverado, que roubava trobos dos criadores, e constantemente causava confusão e problemas na cidade. A pequena milícia local pouco podia fazer para contê-los, de forma que Clint e seu grupo, formado por homens honrados e nobres, decidiram que deveriam tomar uma atitude. E, após expulsá-los, o mago achou que seria uma boa idéia permanecer na cidade, aceitando o convite feito pela população para que ele liderasse os milicianos locais.

Agora, mais de dez anos depois, Jon estava de volta para se vingar. Percorrera toda Arton como andarilho, ganhando experiência e enfrentando criaturas que a maioria dos pacatos habitantes locais jamais sonharia existir; era um mago muito mais poderoso e habilidoso do que quando saíra de lá. Clint, por outro lado, estava consideravelmente mais velho, as rugas no rosto e o olhar cansado denunciando que há muito já não era mais o mesmo homem que expulsara o bandido tantos anos antes.

A tensão no ar era já insuportável. O suor escorria do rosto dos adversários, descendo da testa até os olhos, dos olhos até o queixo, e daí respingando no chão. De dentro das casas, os habitantes da cidade observavam ansiosos, aguardando o desfecho daquele duelo que teimava em não começar.

Ouviu-se um forte barulho, como o de uma porta se fechando com força – e Jon se moveu rapidamente para disparar seu míssil mágico em direção a Clint. Ele desviou com dificuldade; o tiro pegou com força no braço esquerdo, mas não o impediu de disparar seu próprio míssil – um tiro certeiro, atravessando o peito do oponente.

Jon caiu de joelhos e olhou atônito o seu carrasco, antes de seu corpo terminar o movimento da queda em direção ao chão. Segurando o braço ferido, Clint caminhou até o corpo caído; então, com alguma dificuldade, acendeu um pequeno cigarro de palha.

– Ninguém mexe com a minha cidade. – disse friamente, enquanto as pessoas começavam a sair das casas para comemorar a vitória do xerife.

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