Coisas da Vida

Os arbustos mexeram ruidosamente, assustando o jovem rapaz que estava enconstado na árvore ao lado.

– Quem vem lá? – disse, sacando um revólver e pondo-se em prontidão.

– Sou eu, sou eu. – outro rapaz saiu de trás das folhagens, trazendo um pequeno pacote nas mãos.

– Ah, bem. – respondeu o primeiro, guardando a arma. – Está atrasado, pra variar.

– Desculpe. Mas olha só o que consegui. – o rapaz desembrulhou o pacote, revelando uma garrafa de vinho e duas taças de plástico.

– Nada mau! Considere-se desculpado. – riram ambos, e sentaram na grama.

Abriram a garrafa, serviram uma taça para cada um, e olharam para o céu. Era uma noite bonita, com muitas estrelas, poucas nuvens, e uma lua brilhante em crescente. Passaram alguns minutos, até um deles ousar quebrar o silêncio.

– Mal pude acreditar quando encontrei você por lá.

– Nem eu. Que coincidência, não?

– É mesmo. – novo silêncio, enquanto olhavam mais uma vez para o céu. – Lembra de quando éramos garotos? Os verões no campo, ao lado da fazenda do velho Barney?

– Claro. Nós pulávmos a cerca para roubar laranjas, e ele largava os cachorros pra nos escurraçar. – gargalharam em uníssono. – Como eu odiava ele!

– Eu também. – suspirou longamente. – Mas hoje tenho saudades daquele filho da puta.

– É verdade. – assentiu com a cabeça, sorrindo. – Mas eu tenho saudades mesmo é da…

– …Sarinha. – o outro completou com um sorriso, enquanto servia uma nova taça de vinho. O companheiro riu alto.

– É, dela mesma. – servia também outra taça enquanto falava. – Saudades da Sarinha. Aqueles olhos verdes, as pernas brancas… O que aconteceu com ela?

– Ah, nada demais. Você sabe como ela gostava de você. Um dia você parou de aparecer, e ela seguiu com a vida. Acho que já casou, até.

– Uma pena. Eu gostaria de revê-la, depois de tudo isso.

– Pois eu gostaria de revê-la agora mesmo. – riram alto outra vez.

– Uma pena que o vô morreu, e o pai vendeu aquela casa. Tenho saudades daqueles tempos.

– Eu também. Eu também… – e outra vez ficaram em silêncio. Terminaram as taças e serviram outras, mas já não tinham o que falar; apenas olhavam para as estrelas e de volta um para o outro, sérios. O vinho logo acabou, e ambos continuaram lá, esperando as horas passarem.

– Bom, tenho que ir. – um deles levantou, afinal, estendendo a mão para o outro. – Se eu demorar mais, vão sentir minha falta na trincheira.

– Pois é. É melhor eu ir também. – e se lenvantou com a ajuda do amigo. – Espero não ver você amanhã.

– Eu também. – riram juntos uma última vez. – Mas se acontecer, por favor, erre todos os tiros.

– Pode deixar! – e partiram, cada um para um lado, desaparecendo entre os arbustos.

Anúncios

0 Responses to “Coisas da Vida”



  1. Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




Sob um céu de blues...

Categorias

Arquivos

@bschlatter

Estatísticas

  • 199,564 visitas

%d blogueiros gostam disto: