Neverwhere

neverwhere1Eu gosto muito da temática de “mundos secundários”, o que, acredito, não deve ser exatamente tão incomum assim entre jogadores de RPG. Acho que é algo de toda a idéia de um universo alternativo, onde as coisas nem sempre estão sujeitas às mesmas leis e a mesma lógica do nosso mundinho comum cotidiano, que me tem tanto apelo; por vezes, até uma história meia-boca acaba me rendendo uma leitura cativante apenas por explorar bem esse aspecto fantástico, brincando com palavras, situações e outros elementos de maneira inesperada e imaginativa. E vez por outra eu mesmo gosto de viajar nessas possibilidades, jogando com o surrealismo e a fantasia apenas pela brincadeira.

Se por um lado, no entanto, se deixar levar por estes mundos alternativos pode ser encantador e cativante, desenvolvendo a imaginação e a criatividade, por outro também pode ser uma armadilha, e acabar nos afastando e fechando os olhos para os mundos secundários presentes na nossa própria realidade. Não é preciso, afinal, ir para uma Arton ou Bas-Lag da vida para encontrar um local onde as coisas funcionam por outras leis e outras lógicas – basta sair da vidinha fechada de cidadão de classe média para explorar os submundos das favelas e moradores de rua; ou então, na direção oposta, subir ao topo mais alto da pirâmide social, com os jovens de elite em seus Édens de luxo isolados da selva urbana pelas grades do condomínio. Também aí temos mundos praticamente paralelos, com outras regras de funcionamento; e também eles tem seu apelo exótico e idealizado, causando choques e conflitos vastamente explorados na ficção, desde o clássico O Príncipe e O Mendigo, de Mark Twain, até as telenovelas globais e filmes sobre favelas do cinema nacional recente.

Acho que o primeiro ponto que me chamou a atenção em Neverwhere (ou Lugar-Nenhum, na versão nacional lançada pela Conrad), do ímã de tietes Neil Gaiman, foi a forma como ele extrapola essa idéia, partindo de um mundo que, em um primeiro momento, poderia ser apenas um aspecto da nossa própria realidade, e então transformando-o em um cenário de fantasia rico e exuberante, do tipo que não faria feio em qualquer livro de RPG (inclusive, aliás, há um jogo não-oficial inspirado na obra, disponível gratuitamente em PDF). Se a idéia de um outro mundo nas sombras do mundo real não é exatamente novidade – qualquer RPG da linha Storyteller já faz isso, bem como dezenas de outras obras de terror e fantasia contemporâneas; e o próprio Gaiman trabalha o tema com maestria em outros dos seus livros, como Anansi Boys e o genial American Gods -, e a história do cara normal em algum tipo de crise existencial que de repente é jogado do nada em um mundo fantástico também é completamente manjada, a leitura toda acaba tendo um outro sabor na medida em que se faz essa associação, e você se pega imaginando sobre os mundos que devem existir sob as pontes do Arroio Dilúvio, por exemplo, ou da qual fazem parte todos aqueles mendigos folclóricos que existem em qualquer cidade grande, do tipo que fala com ETs e outros seres invisíveis.

A história foi criada, ao que parece, para uma mini-série de TV da rede britânica BBC, que posteriormente teve o roteiro adaptado pelo Gaiman para o formato de um romance, e depois também para uma história em quadrinhos; acredito que seja daí que vêm as principais virtudes e também os maiores problemas do livro. Por um lado, toda a caracterização dos personagens tem uma teatralidade muito interessante, repleta de gestos e tiques exagerados e expressivos, remetendo muitas vezes aos trejeitos de animais e tornando muito fácil imaginá-los; e a descrição dos cenários também é bastante rica, tornando toda a narrativa muito visual e interessante. Por outro, no entanto, o roteiro todo acaba sendo um pouco convencional e sem brilho; é notável como ele perde bastante o ritmo quando se afasta da descrição do cenário fantástico e seus personagens peculiares e passa a se dedicar mais ao desenvolvimento linear dos acontecimentos e relacionamentos entre eles, caindo em tramas e conflitos fáceis, com vilões confusos e seus planos mirabolantes de dominação, mistérios e soluções manjadas, e uma moral final óbvia e previsível.

Não ajuda muito, ainda, o fato do protagonista ser um tanto vazio de personalidade e motivação – problema que acontece também em American Gods, aliás, o que me leva a imaginar até que ponto não seja um vício do autor. Às vezes chega a parecer que toda a viagem fantástica e maravilhosa aconteceu apenas porque ele não tinha nada melhor para fazer. Mas há de se destacar que foi bastante fácil ver, tanto no Richard Mayhew de Neverwhere como no Shadow de American Gods, alguns traços da minha própria personalidade, então talvez se possa questionar também até que ponto não é algo que ajuda a torná-los personagens mais universais.

De qualquer forma, mesmo com estes poréns, ainda acho que a experiência toda de ler Neverwhere é bastante positiva, por tudo que ela provoca na imaginação e nas idéias. Acho que Gaiman é, provavelmente, o grande autor da fantasia contemporânea, capaz de criar magia e criaturas fantásticas no mundo atual sem precisar apelar para vampiros, lobisomens e todos os outros lugares-comuns do gênero. E eu sei que eu, pelo menos, nunca mais vou olhar para um sem-teto da mesma forma outra vez.

9 Responses to “Neverwhere”


  1. 1 Emanoel 17/07/2009 às 01:12

    Opa, estava procurando sobre o livro e acabei topando com o teu site. Gostei da crítica. Assisti a série e me interessei muito em ler o livro, mesmo talvez não encontrando muito além do que já sei, mas quem sabe as letrinhas deixem minha imaginação trabalhar mais =)

  2. 2 Armageddon 15/07/2011 às 21:40

    Muito legal mesmo, BURP! =D

  3. 3 Ana Carolina Silveira 16/09/2011 às 16:38

    Você sabe que eu tava meio “leio não leio” sobre esse livro e o “não leio” definitivo veio por seus comentários, né? (para ter o mesmo tipo de decepção que já tive com outros livros do Gaiman… melhor deixar quieto, ou ao menos tirar da lista de prioridades).
    E me lembra de certa brincadera. “Vamos brincar de Neverwhere?” “Vamos” “Pisa fora da linha do metrô” “Tá *-*” “*-*”

  4. 4 Bruno 16/09/2011 às 22:10

    Nah, eu achei o livro legal sim, apesar da história ser meio bobinha. =P A descrição do cenário e o universo da “Londres de baixo” são muito bacanas mesmo, achei que valeu muito a pena por isso.


  1. 1 Resenha – My Name is Red – Inominattus Trackback em 01/09/2009 às 10:17
  2. 2 The City & The City « Rodapé do Horizonte Trackback em 13/09/2009 às 19:17
  3. 3 Resenha – The City & The City – Inominattus Trackback em 14/09/2009 às 16:39
  4. 4 Rei Rato « Rodapé do Horizonte Trackback em 16/09/2011 às 13:26
  5. 5 O Oceano no Fim do Caminho | Rodapé do Horizonte Trackback em 25/06/2013 às 14:58

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