O Grande Globalizador

3396965440_67acdc2a84O mundo, como qualquer um que não esteja vivendo os últimos meses em uma cápsula de proteção contra um holocausto de zumbis sabe, está em um período de crise. Os pessimistas dizem que é o apocalipse definitivo do capitalismo internacional, enquanto os otimistas dizem que é só a pior crise econômica desde 1929. É o momento de olhar para trás e lavar a roupa suja, apontando os erros de política econômica internacional nos últimos vinte, trinta ou mesmo oitenta anos, e criticando e demonizando abertamente o neo-pós-novo-ultra-power-liberalismo, o crédito virtual, a especulação financeira, a globalização da economia, o comércio livre, a Alca, o FMI, a direção do Grêmio, o técnico da Seleção, etc, etc, etc.

E é, também, o momento de parar por um instante, e refletir e questionar outros elementos do mundo em que vivemos. Pois a mesma globalização que transforma uma crise local em mundial em poucos dias afetou também a nossa cultura em dúzias de outras formas. Hoje, você pode conversar com um amigo virtual indonésio sobre um videogame japonês que os dois conhecem e jogaram, criticar uma nova banda alemã por plagiar os grandes nomes do rock inglês, ou mesmo ler as regras da última sensação do RPG norte-americano enquanto come um Big Mac no centro de uma cidade brasileira. Você pode estar em Tóquio ou em Berlim, e estranhamente se sentir no mesmo local; talvez visite uma loja de histórias em quadrinhos na primeira e os restos de um muro pichado em outra, mas ainda assim verá os mesmos prédios de concreto e vidro, o mesmo asfalto escuro, os mesmos carros em cores neutras, as mesmas multidões sóbrias andando apressadas de um lado para o outro. O mundo globalizado é, em certo sentido, o mundo uniformizado.

Há um elemento, no entanto, que supera todos os outros pelo seu poder uniformizador. O grande globalizador, afinal, não é o McDonald’s ou a Coca-Cola, nem o Tom Hanks ou o Naruto; o maior de todos os globalizadores é um só: o catchup.

Sim, o catchup, este molho de peixes de origem oriental que, no início do século XIX, passou a ser feito com tomates nos Estados Unidos, e hoje é onipresente na cozinha ocidental. Esqueça o símbolo e o seu alcance internacional, no entanto; o seu poder globalizador vai mesmo além deles, e atinge a sua própria função prática enquanto condimento. A comida, afinal, é como a cultura – possui dezenas de sabores e gostos diferentes, é mais rica na diversidade, e é mesmo capaz de se misturar para dar origem a novas e impensáveis possibilidades gastronômicas. Você não vai à África atrás de retiros espirituais, nem à Índia para ver girafas e leões; da mesma forma, não come chocolate quando quer um salgado, e nem um cachorro quente na sobremesa.

No entanto, coloca catchup para tirar o gosto forte de calabresa no salgado que comprou na padaria, e enche dele até as bordas o cachorro quente que comprou na barraquinha da esquina. Você pode ir a qualquer restaurante no mundo e colocar catchup na comida, e assim uniformiza os sabores e destrói a sua individualidade, tirando-lhes o direito de serem únicos e jogando-os todos no mesmo paladar global. E então já não importa se é uma pizza portuguesa ou mussarela, ou se pediu um xis-bacon ou xis-galinha: você está saboreando, efetivamente, o catchup.

Pense bem, portanto, na próxima vez que for colocar catchup na sua porção de batatas fritas. Não é apenas um ato culinário, como pode parecer em um primeiro momento; é um ato político, e não deve ser feito levianamente.

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