Hegemonia: O Herdeiro de Basten

11016110Uma das coisas que eu considero mais curiosas dos hoje míticos anos 80 foi a profusão de desenhos animados que misturavam quase sem pudor temas de ficção científica e fantasia. Não digo que fosse então uma mistura nova – autores como Jack Vance já faziam isso com pelo menos uma década de antecedência, séries mais antigas como Os Herculóides e Galaxy Trio também, e acho que dá pra remontar ela ainda desde as histórias do Flash Gordon publicada em jornais nos anos 30, se não antes, numa época em que FC e fantasia ainda não eram gêneros tão canônicos e divididos a ponto de intimidar quem quisesse cruzá-los -, mas não deixo de achar interessante a forma como eles se expandiram como praga naquela década, de He-Man e os Mestres do Universo a Thundercats e Silverhawks. É um chute longo, mas imagino que tenha algo a ver com o mega-sucesso do primeiro Guerra nas Estrelas ainda no fim dos anos 70, que também promovia uma fusão semelhante, tanto que ainda hoje há quem se recuse a considerar a saga de George Lucas propriamente como uma ficção científica.

Corte de vinte anos, então, e chegamos a Hegemonia: O Herdeiro de Basten, de Clinton Davisson, que, apesar do nome, é brasileiro. Também ele investe numa mistura semelhante, colocando dragões cuspidores de fogo ao lado cruzadores espaciais, e guerreiros espadachins vestindo armaduras ultra-tecnológicas. É difícil ler as descrições das diferentes civilizações do planeta Elôh, dos soberanos de Basten às cidades dos frânios e as vilas dos gelfos, e não pensar de alguma forma em Eternia, com seus reis, rainhas e príncipes medievais desfilando em tanques e naves e portando armas de raios. E eu digo isso no bom sentido, é claro, como alguém que cresceu vendo estas séries animadas – não consigo ler uma história assim sem sentir um certo gostinho de nostalgia na boca -, e tem um gosto assumido pelo pastiche.

A forma como se dá essa fusão é bastante interessante, extrapolando aquela máxima do Arthur C. Clarke segundo a qual toda tecnologia suficientemente avançada é indistingüível de magia. A tecnologia da Hegemonia, o vasto império galáctico governado pela raça dos disonianos, certamente é assim, capaz feitos notáveis como a esfera de Dison, uma espécie de casco construído em volta da estrela da capital do império de forma a maximizar a captação da sua energia; as macronaves, embarcações espaciais com quilômetros de comprimento e poder de fogo suficiente para destruir planetas e estrelas; e as dermas, as avançadas armaduras de bio-tecido usadas pelos disonianos, que conseguem ter mais funções disponíveis que um celular moderno. Todo o cenário do livro, aliás, é repleto de idéias interessantes que extrapolam conceitos científicos de forma imaginativa, como o anel incandescente em torno de Elôh, que o mantém em um dia eterno e causa diversas anomalias gravitacionais, ou as diversas espécies de criaturas fantásticas, das superlativas gulitemas às sereias merfolks.

Mas é claro que o livro não se resume apenas a uma abordagem fantástica da ficção científica. O autor também se propõe a discutir de maneira crítica diversas questões sociais mais sérias, que são evidenciadas já nas duas páginas de epígrafes que abrem a obra, citando trechos de Gramsci, Morin e McLuhan entre alguns autores de ficção. A Hegemonia é descrita como um império vasto e avançado, mas também decadente, e as contradições e divisões internas são expostas constantemente ao protagonista, que reflete e divaga a respeito. Outro tema constante é a comunicação, e especialmente a falta dela, geralmente com conseqüências catastróficas.

O grande problema de O Herdeiro do Basten é a narrativa. O livro é escrito como um diário neural, um aplicativo embutido na armadura do protagonista Ron Schwolen, príncipe do reino provinciano de Basten enviado à capital Dison como estudante, a partir da qual ele grava seus pensamentos e reflexões em tempo real. Até há alguns pontos bem positivos nessa narração em primeira pessoa e no tempo presente, como uma espécie de fluxo de consciência; é interessante acompanhar o choque entre a sua formação racionalista e “Dison-cêntrica”, por assim dizer, e a realidade que ele encontra ao retornar à terra natal após algumas decepções pessoais, que o leva a questionar suas convicções e visão de mundo. No entanto, também não deixa de ser um pouco estranho imaginar alguém que consiga pensar de forma tão analítica e articulada em meio a momentos tensos como uma discussão acalorada com o irmão ou um combate contra um exército de dragões; qualquer um que já tenha se envolvido em situações semelhantes sabe que as coisas não funcionam dessa forma, e, por mais que seja óbvio que foi uma necessidade narrativa, não deixa de soar um pouco artificial da mesma forma. Não ajuda muito também a linguagem utilizada, especialmente nos diálogos, que parecem ter um sotaque lusitano com seus “vou estar a fazer”, e colabora bastante pra essa impressão de artificialidade que eu tive em muitos momentos.

O enredo também dá uma derrapada no final, quando precisa acelerar alguns acontecimentos para concluir a história e apresentar algumas soluções que parecem meio sacadas de última hora, mas em geral consegue ser bastante interessante e bem encadeado, apresentando a típica jornada de exploração do mundo das histórias de alta fantasia e romances planetários, junto com a jornada individual de amadurecimento e auto-conhecimento do protagonista, algo bem Joseph Campbell. E há, por fim, dois apêndices que fecham o livro, com um pequeno glossário de termos da Hegemonia e um mini-dicionário da língua dos dragões. O primeiro, talvez, poderia ser mais completo; muitos elementos interessantes que aparecem no livro e poderiam ser aprofundados não estão lá, enquanto outros termos e explicações parecem não ter tanta relevância para a história contida no volume. E o segundo vale mais por curiosidade mesmo, já que não possui muita utilidade além de ajudar a desvendar uma referência escondida a Star Wars.

De maneira geral, Hegemonia: O Herdeiro de Basten é uma obra bastante interessante e criativa, e que eu gostei de ter lido. Alguns problemas mais formais impedem que eu a recomende com veemência, mas acho que merece uma lida, não só para valorizar todo o esforço que é necessário para uma obra nacional de gênero ser publicada, mas também porque há, sim, bastante a se gostar nela. E, talvez o mais importante, ela consegue despertar a curiosidade para o mundo de Hegemonia, deixando boas possibilidades de desenvolvimento em aberto para os volumes seguintes, já que o projeto do autor, conforme destacado na orelha do livro, é de estendê-la em duas trilogias.

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