Fim (2)

Percebeu, então, que nada mais havia para esperar. Passara por dificuldades, enfrentara problemas e crises, mas agora estava tudo tão calmo e tranqüilo quanto jamais pudera desejar. Viu os filhos crescerem e sobreviverem sozinhos, bem como os filhos deles, e ele próprio era capaz de se sustentar sem a ajuda de outros ou de surtos repentinos de atividade. Já não tinha interesse em questões mais amplas sobre o mundo ou a humanidade; não havia ambições a cumprir, nem objetivos pelos quais viver. O que mais posso querer?, se perguntava em silêncio.

Levantou bruscamente, como quem tem uma idéia em um estalo inesperado. Desligou a TV, procurou entre os armários da sala a velha coleção de discos de seu pai e pegou um deles. Caminhou até a velha vitrola que há anos era apenas um adorno de decoração da casa, retirou o pó e a ligou na tomada, colocando o disco para tocar. E então, balançando a cabeça e batendo o pé junto às notas dissonantes do piano de Thelonious Monk, voltou para a poltrona, e, sorrindo, fechou os olhos para nunca mais abri-los.

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Sob um céu de blues...

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