Fever Pitch

9780140295573Por menos que pareça, futebol é um tema complicado de falar, e um assunto que por vezes eu me sinto um pouco intimidado em levantar em certos círculos de relações – e não exatamente por medo de comentários maldosos devido a resultados recentes, mas essencialmente porque, entre certos grupos, e isso pode ser verdade mesmo quando todos se interessam pelo esporte, muitas vezes há uma espécie de consenso silencioso de que seria um tema descartável, ou no mínimo alienígena, que não faz parte do universo de outros assuntos tão mais nobres e dignos (ou pelo menos assim se considera) que se poderia discutir. E não interessa que eu mesmo já tenha me ocupado de desconstruir esse estereótipo em outros momentos, eu não consigo evitar de sentir um certo receio na hora de escrever, como se fosse necessário me desculpar antes de entrar no assunto, ou então me apresentar como algum tipo de anomalia sociológica, aquele cara esquisito que é capaz de se interessar simultaneamente por futebol, RPG, literatura de fantasia, jazz e debates historiográficos sobre cultura de massas.

O fato que a maiora das pessoas que se mantêm à margem do assunto parece ignorar é que existe muito mais no futebol além de apenas uma prática esportiva, um jogo infantil onde um bando de marmanjos correm de um lado a outro do campo atrás de uma bola. Há uma série de outras dimensões e significados envolvidos, e todo um universo paralelo que se move em torno do jogo e que vai muito além dele próprio. Há dimensões antropológicas, épicas, por vezes até religiosas que ele evoca, e que o tornam muito mais profundo interessante de ser analisado e vivido. Fever Pitch (Febre de Bola na edição nacional), de Nick Hornby, é um livro que nos ajuda a recuperar um pouco desses aspectos, a partir do ponto de vista que é justamente, em geral, o mais incompreendido e desqualificado pelos não-iniciados: o do torcedor.

Hornby é um conhecido escritor inglês, autor, entre outros, dos livros que deram origem aos filmes Alta Fidelidade, estrelado pelo John Cusack, e Um Grande Garoto, com o Hugh Grant, ambos com certa repercussão entre cinéfilos e fãs de cinema em geral. Antes disso, no entanto, é também um torcedor fanático do Arsenal, um dos grandes clubes de futebol da Inglaterra – e por “torcedor fanático” eu não me refiro àquele tipo que simpatiza com o time e acompanha os resultados à distância, como eu mesmo sou na maior parte do tempo, mas àquele que vai à todos os jogos no estádio, mesmo aqueles sem valor algum disputados pela equipe reserva contra um clube da terceira divisão em uma quarta-feira chuvosa de inverno à noite, e vive a história do clube como se fosse a sua própria. O livro nada mais é do que um relato autobiográfico dessa paixão, ou, como ele mesmo a classifica, obsessão; e o principal destaque, sem dúvida, é o ponto de vista extremamente esclarecido e muitas vezes crítico que Hornby tem sobre ela, não só entendendo toda a dor e sofrimento aparentemente sem razão que implica ser um torcedor, mas também desfazendo toda uma série de estereótipos e lugares comuns dos não-iniciados e mesmo de muitos comentaristas respeitados sobre desse universo – coisas como “jogar é melhor do que assistir”, “futebol é entretenimento”, “o torcedor vai aos jogos para se divertir”, e tantas outras que todos certamente já ouviram e talvez até concordaram em algum momento. Hornby entende bem o que o futebol é e representa para ele, o torcedor: é literalmente um mundo paralelo, com outras leis e outras lógicas de funcionamento; e um aspecto da vida tão orgânico e natural para aquele que participa quanto a família, os amigos, o emprego, e qualquer outro.

Enfim, Fever Pitch é uma obra brilhante de um grande autor, recomendável tanto para amantes do futebol como para aqueles que não têm nenhum interesse nele – a prosa de Hornby é de ótima qualidade, e a forma como a narrativa entrelaça o esporte com a vida pessoal do autor tem muito de boa literatura. E, mais do que isso, é uma obra esclarecedora, que ajuda a entender, se não totalmente, pelo menos um pouco mais o que há de tão especial nesse bando de marmanjos correndo atrás de uma bola.

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