Standing on the Shoulder of Giants

album-standing-on-the-shoulder-of-giantsSeguindo com a minha preparação para o show do Oasis em Porto Alegre semana que vem, acho que posso dedicar algumas linhas para falar de um disco da banda que muitos desprezam, mas que, na minha opinião, esses anos todos depois, merece bem uma nova audição mais cuidadosa – Standing on the Shoulder of Giants, de 2000. É um disco que certos fãs tendem a ver com certo ceticismo, e não é difícil, acredito, entender o porquê.

Como todos (ou ao menos a maioria) devem saber, o Oasis chegou ao topo do mundo com um dos melhores discos pop/rock dos anos 90, o clássico indiscutível (What’s the Story?) Morning Glory, de 1995, que não só rodou o mundo todo como ainda alavancou as vendas do Definetly Maybe, disco de estréia da banda que havia feito um sucesso mais localizado na Inglaterra e acabou se tornando mundialmente conhecido e atingindo o status de clássico também nessa época. O grupo então entrou em uma fase de excessos típicos de astros do rock, com todas as drogas, festas e escândalos a que tinham direito, culminando em 97 com o lançamento do Be Here Now, que retrata perfeitamente toda essa fase com a produção exagerada, as músicas épicas de duração homérica, e também as letras, que, nessa época, falavam predominantemente do deslumbramento de ter saído dos bairros proletários de Manchester e atingido fama mundial através da música.

Be Here Now, apesar de ter atingido um recorde de vendas ainda na semana de lançamento, também acabou marcando o declínio do Oasis do posto de maior banda do mundo, em parte justamente pela super-produção de algumas músicas ter resultado em um álbum antipático e enfadonho ao ouvido de algumas pessoas, ainda que eu, pessoalmente, considere ele também um tanto injustiçado. Seguiram-se quatro anos de relativo ostracismo, apesar do lançamento em 1998 da ótima coletânea de b-sidesThe Masterplan, enquanto os irmãos Gallagher cuidavam de assuntos pessoais como família e tratamentos para se livrar do uso de drogas. Quando se reuniram novamente para começar a trabalhar neste Standing on the Shoulder of Giants, enfim, estavam dispostos a dar uma guinada no som que faziam.

Aqui eu posso estar entrando mais na área do achômetro e das suposições, mas não são poucos os indícios de que, ao menos o Noel Gallagher (que era quem de fato mandava na banda então, se é que já não é mais), realmente queria mudar o som do Oasis nesse período. Lembro de entrevistas dele na época em que ele falava que, agora que estava livre das drogas, queria fazer o melhor disco da carreira; ao mesmo tempo, o design visual do álbum e dos singles mudou, trazendo um logotipo diferente para o nome da banda que só foi usado nessa época e no ao vivo Familiar to Millions, logo voltando à tradicional caixa preta plagiada da EMI. Nessa época também saíram da banda Paul Guigsy e Bonehead, respectivamente o baixista e guitarrista-base originais, provavelmente por não suportarem a pressão que devia estar sendo imposta; como resultado, Noel acabou tocando sozinho a grande maioria dos instrumentos usados nas gravações.

Assim, não é difícil perceber o que torna esse um disco tão alienígena em meio à discografia do Oasis. Ele realmente soa diferente de muito do que eles já haviam feito antes, e mesmo que fizeram depois – as linhas de baixo estão mais altas, os timbres estão mais limpos, os arranjos estão mais compactos, as letras estão mais soturnas e até pessimistas, e há mesmo o uso de samplers com diálogos de filmes e arranjos de outras músicas em algumas faixas. O resultado? Fãs atônitos que não sabiam o que dizer do disco, e críticos que já não estavam dispostos à dar muita atençâo à banda em primeiro lugar. No entanto, passados oito anos desde então, acho que já é possível reconhecer as qualidades que o tornam um disco digno de ser ouvido de novo – ou pela primeira vez, para aqueles que antipatizam com os irmãos Gallagher e por isso não costumam dar muita atenção ao que eles fazem.

Standing on the Shoulder of Giants tem, antes de mais nada, duas músicas que se tornaram bem conhecidas e de presença constante nos shows da banda, apesar do gelo recebido pelo disco de forma geral – a instrumental Fuckin’ in the Bushes, abertura oficial da maioria das apresentações, e a balada Go Let it Out, que foi o primeiro single. Mas é claro que, não desmerecendo ambas, que são ótimas, eu escrevo essa resenha justamente para destacar as músicas que foram marginalizadas dessa época – em especial, duas delas.

A primeira, Gas Panic!, que chegou a ter um certo reconhecimento, tem um arranjo literalmente tenebroso. Os primeiros minutos, com os instrumentos preenchendo pouco o som e realçando os versos cantados, chegam a dar arrepios, especialmente pela letra soturna sobre fantasmas silenciosos em noites tempestuosas, aberta a toda sorte de interpretações de significado perturbadores.

A segunda, Roll it Over, é a que fecha brilhantemente o disco, e em geral é reconhecida apenas pelos fãs mais versados no trabalho da banda. Possui também um arranjo soturno e um tanto reflexivo, abusando de timbres limpos e cordas soltas até chegar no refrão gritado quase em desespero. O resultado é quase um épico de introspecção – e uma obra-prima.

E, claro, ainda há todo o resto do álbum. Who Feels Love é outra música que chegou a ser razoavelmente conhecida; ela retoma o tema da espiritualidade oriental conhecido da música pop pelo menos desde os Beatles, mas faz isso de forma competente e com um arranjo bem acabado. Where Did it All Go Wrong é outra grande música pouco conhecida, como uma letra deliciosamente pessimista e bem arranjada para a voz do Noel. E I Can See a Liar e Put Yer Money Where Yer Mouth Is são dois rocks de primeira com timbres limpos, muito bem arranjados e executados. Apenas duas músicas são realmente abaixo do nível das demais: Little James é a primeira composição do Liam gravada pela banda, o que talvez justifique o fato de ser provavelmente a pior música lançada em um disco oficial deles, mas com certeza não o muda; e Sunday Morning Call até não é ruim ou inaudível como a anterior, mas é um tanto sem sal e previsível.

Enfim, Standing on the Shoulder of Giants é, acredito, um disco do Oasis que merece ser ouvido novamente por fãs e críticos da banda, por representar um período diferenciado na carreira do grupo e terrivelmente subestimado. Pode não estar no nível da trindade sagrada Definetly MaybeMorning GloryBe Here Now, que certamente representam o auge de tudo o que já foi feito por eles; mas ainda assim é um disco muito bem trabalhado e executado, com muito mais altos do que baixos. Só não consigo deixar de pensar como estaria a banda hoje se as mudanças sonoras que eles tentaram promover na época tivessem vingado, e eles não tivessem decidido retornar, ainda que consideravelmente mais maduros, ao rock tradicional com barragem de guitarras sujas e baladas assobiáveis nos discos seguintes.

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3 Responses to “Standing on the Shoulder of Giants”


  1. 1 Carlos Jar 15/12/2009 às 23:30

    Gostei bastante de sua crítica. Porém, há duas informações equivocadas na mesma. Primeiramente, o álbum Standing on the Shoulder of Giants foi lançado no começo de 2000 e não em 2001. E por fim, o primeiro single do álbum foi o Go Let It Out e não Who Feels Love.

    • 2 Bruno 16/12/2009 às 08:43

      Agradeço a correção. É normal fazer essas confusões com esses lançamentos mais antigos… (e é engraçado já ter que considerar um lançamento de 2000 como ‘antigo’ tb =P)

  2. 3 gabriel 08/06/2010 às 14:51

    achei, finalmente, alguem que considera este disco e que conhece a obra que é a roll it over. que otima forma de terminar um disco.


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