As Viagens de Gulliver

297966_4Muitos conhecem As Viagens de Gulliver como um conto infantil clássico, daqueles que nossos pais ou avós contavam sentados no lado da cama para nos fazer dormir. O que nem todos sabem, no entanto, é que essa versão infantil é na verdade uma adaptação de uma história bem maior, mais adulta e incrivelmente crítica da sua época e da natureza humana, escrita no século XVIII pelo funcionário público e teólogo inglês Jonathan Swift. E, para quem lê a obra tendo como referência sobretudo essa versão infanto-juvenil, pode ser realmente um certo choque a profundidade das suas sátiras e reflexões.

Falemos das duas viagens mais conhecidas, por exemplo – para Liliput, onde todo o mundo e seus habitantes têm não mais do que alguns centímetros de altura, e Brobdingnag, onde os homens adultos medem mais de uma dezena de metros e o mundo à sua volta tem proporções equivalentes. O que é muitas vezes retratado como uma grande aventura, e não deixa de o ser, na versão completa da obra aparece, mais do que isso, como duas abordagens opostas da natureza humana vistas pelo autor. Assim, enquanto é um gigante nas terras de Liliput, Gulliver se vê maior também em humanidade e dignidade, criticando e ridicularizando costumes, picuinhas e intrigas que o forçam, posteriormente, a abandonar o país. Quando ele próprio é apequenado diante dos gigantes de Brobdingnag, no entanto, também seus valores e sua visão de mundo parecem menores, ao ponto de ele se sentir desconfortável ao conversar com o esclarecido rei local, e isso se reflete posteriormente na forma como passa a agir ao retornar para casa.

As duas viagens menos conhecidas que são contadas na obra possuem sátiras e reflexões ainda mais críticas. Quando visita o país da cidade voadora de Laputa (semelhanças com o nome de uma certa outra cidade voadora certamente não são mera coincidência), por exemplo, Gulliver vê o mundo dos intelectuais e sonhadores, repleto de teses e teorias subvertidas pela aplicação prática; é difícil não achar especialmente chocante o retrato feito dos imortais, e a quebra de expectativas do próprio viajante a seu respeito. E no país dos houyhnhnms, uma raça de cavalos inteligentes, têm-se o exato oposto: um mundo governado pela praticidade, onde não há lugar para o devaneio e a teorização vazia; é onde se vê a crítica mais dura e direta à natureza humana, na figura dos yahoos, espécie de homens usados pelos nativos como bestas de carga.

Talvez se possa dizer que o estilo de escrita pareça um pouco duro e maçante, possivelmente devido à idade do texto, ou pode ter sido também uma impressão causada pela edição pocket que li, com uma letra excessivamente pequena e dúzias de notas explicativas, apesar de muitas delas serem bem interessantes e elucidativas. O conteúdo da obra, de qualquer forma, segue da mesma forma interessante e envolvente, repleto de sátiras inteligentes e situações insólitas, do tipo de causar horas de insônia a qualquer um com gosto pelo fantástico e o surreal mesmo depois de terminada a leitura.

As Viagens de Gulliver, enfim, para quem espera um clássico infantil expandido, é uma história deveras surpreendente. Por sua ironia fina e espírito crítico, bem como o seu humor cru e às vezes até tanto escatológico, é facilmente uma das obras mais fundamentais da literatura ocidental.

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2 Responses to “As Viagens de Gulliver”


  1. 1 Phil Souza 22/05/2009 às 14:56

    Uma correção, Swift era Irlandês, mas foi criado na inglaterra na época em que ela se aproveitava da Irlanda.

    Eu ADORO gulliver exatamente por tudo o que está intencionalmente por trás dessa história.

    Jonathan Swift escreveu vários texto excelentes, um deles era uma proposta econômica que seria enviada para a Inglaterra para utilizar a carne das crianças irlnadesas para aquecer o mercado Inglês. O nome é “Modesta Proposição” é pequeno e acho que tem na web, confere que você não vai se arrepender Bruno!

    Alias, sabia que na historia original da Liga extraordinária de Alan Moore quando é citado que existiu em outros momentos de necessidade uma Liga de agentes da rainha é possível ver o retrato em um quadro de uma antiga liga aonde gulliver está?

    Eu queria muito uma história dessas…

  2. 2 Bruno 22/05/2009 às 19:11

    Ah, bem, Irlanda, Inglaterra, é tudo no mesmo arquipélago =P (só espero que nenhum irlandês leia isso, heheh).

    Eu sei que o Swift tem outros textos bem interessantes, nessa linha de sátira crítica e humor negro e tal, apesar de ser algo que eu ainda tenha que correr atrás pra ler. Vou ver se acho esse aí.

    Eu sabia desse extra da Liga Extraordinária também. Na versão encadernada do volume 2 da HQ, inclusive, tem um material extra de mais de 40 páginas chamado “O Almanaque do Novo Viajante”, que é meio que uma “descrição de cenário” do mundo da Liga, fazendo referência a diversos locais imaginários e personagens clássicos da literatura, citando o grupo formado pelo Gulliver e os países do livro. É bem legal.


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