Valkaria Blues

Aquele velho dragão derrubou a minha casa…
Aquele velho dragão, ah!, ele derrubou a minha casa…
As paredes voaram longe quando ele mexeu as asas…

As notas de alaúde que saíam da estranha engenhoca preenchiam o pequeno quarto na área dos dormitórios da Academia Arcana, enquanto os quatro estudantes – dois homens, um elfo e uma moça – ouviam a música.

– Nossa! Como funciona? – perguntou a moça.

– Ah, é bastante simples. – respondeu o homem que aparentava ser o mais velho. – Você coloca um disco de cera no suporte embaixo da agulha, e gira a manivela do lado de baixo enquanto fala alguma coisa nesse funil aqui em cima. O som vai fazer a agulha mexer, riscando o disco e gravando o que você falar. Então eu pago um mago da terra aqui da Academia pra transferir a gravação pra um disco de cerâmica, que é mais sólido e resistente. Aí é só colocar o disco na agulha de novo e fazer a manivela girar para o outro lado para o som sair. Genial, não?

– É mesmo! Onde você conseguiu?

– Comprei numa feira de inventos goblins na cidade, no meu primeiro fim de semana depois que entrei para a Academia. Não podia deixar uma maravilha dessas lá! Desde então vivo gravando coisas nele.

– E esse aí que tá cantando… Quem é? – as palavras pareciam sair com dificuldade para o elfo, em um transe quase hipnótico.

– Você gosta?

– Ele toca como quem chora, as notas parecem lágrimas. Essa música de alguma forma lembra a minha infância em Lenórienn…

– É um cantor de rua que eu encontrei na cidade uma vez, chamado Barun Sk’latt. Meio-orc. – todos olharam-no surpresos quando a raça a que pertencia foi mencionada. – O som dele era fantástico! Muito mais emocionante ao vivo; era como se cada verso que ele cantava fosse arrancado direto do fundo da sua alma, dolorosamente, sem anestesia. Na hora ofereci um almoço pra ele, em troca de gravar algumas músicas num quarto de estalagem ali perto. E, entre uma música e outra, ele me contava pedaços da sua história.

“Me disse que nasceu em uma pequena vila próxima à Valkaria. Foi abandonado ainda criança pela mãe, então acho que deve ter sido fruto de um estupro por algum grupo de salteadores orcs da região. Mas ainda criança foi pego por um capataz de fazenda quando tentava roubar alguns trobos para comer, e foi criado por ele como ajudante. Era bastante forte devido à sua ascendência, o que o tornava apto a trabalhos pesados.

“Não devem ter sido anos muito fáceis, imagino. Recebia comida e roupas limpas, claro, mas deviam tratá-lo pouco melhor que a um animal. Segundo me disse, foi nessa época que começou a tocar o alaúde, para animar as festas entre os empregados nos dias de folga que recebiam. Pelo menos assim podia fazer as pessoas gostarem dele, o que seria difícil de outra forma.

“Parece que algum tempo depois, no entanto, um dragão se estabeleceu em uma caverna nas redondezas, e passou a exigir tributos dos habitantes das vilas próximas. A fazenda onde Barun trabalhava foi uma das primeiras a serem devastadas quando esses tributos não foram pagos, e ele ficou mais uma vez sem ter onde morar. Passou alguns dias tocando por esmolas na praça da cidade, mas pouco depois decidiu tentar a sorte em Valkaria, onde ouviu falar que algumas tavernas e estalagens pagavam bem por bons artistas que se apresentassem para atrair fregueses.

“E agora vem o fato mais curioso da história dele, ouçam só! Ele me disse que uma noite, enquanto viajava para Valkaria, sentou na beirada de uma encruzilhada para descansar, e começou a dedilhar algumas notas no alaúde. Pouco tempo depois, apareceu na sua frente um homem envolto em uma capa escura carregando uma espada negra, com cabelos compridos fazendo sombra sobre o rosto – a única coisa visível em sua face eram os cinco olhos brilhantes que possuía. Fez um sinal com a mão para que Barun lhe emprestasse o alaúde, ele relutou um pouco mas no fim cedeu. O homem tocou algumas notas nele, então afinou o instrumento e o devolveu, sorrindo maliciosamente. Depois foi embora, enquanto Barun seguiu seu caminho para a cidade. Estranho, não? O velho bardo parecia estar certo de que aquele evento foi a causa de tudo o que aconteceu com ele depois, tanto de bom quanto de ruim.

“Logo que chegou em Valkaria, conseguiu um trabalho rápido tocando em uma estalagem pequena, inicialmente em troca de comida e um lugar pra dormir. E foi sucesso imediato; tocava como um demônio, fazendo até o mais frio aventureiro mexer a cabeça e os pés no ritmo da música, e os versos que cantava eram cheios de sentimento e lamentos sobre as dificuldades que vivera até então, deixando as apresentações bastante emocionantes. À medida que passavam os meses era requisitado para apresentações em locais maiores e melhor freqüentados, recebendo pagamentos cada vez mais generosos.

“Mas Barun não era muito esperto, mal conseguia contar os dedos das mãos, e certamente não sabia administrar o dinheiro que ganhava. Logo que era pago já gastava tudo na mesma noite e no mesmo lugar, em bebidas e mulheres que não poderia obter de outra forma. Uma delas, uma prostituta humana já com alguma experiência, era uma amante regular, quase se podia considerá-la sua esposa. Logo que terminava uma apresentação, lá estava ela para pedir que lhe pagasse um drinque com o dinheiro que recebera; quando era recusada, geralmente terminavam a noite aos tapas. Foi a primeira que o abandonou quando o público, e com ele também o dinheiro, começaram a diminuir.

“Não poucas vezes também foi enganado pelos donos das estalagens, que lhe pagavam menos do que o prometido sabendo que ele não conseguiria contar corretamente o dinheiro. Então, logo que a sensação inicial em torno do seu nome esfriou, ele se viu mais uma vez sem nada, obrigado a tocar em troca de esmolas nas ruas.

“Foi nessa época que eu o encontrei, e fiz essas gravações. Procurei ele de novo outras vezes para tentar gravar mais músicas, mas nunca mais o vi. Imagino que tenha caído vítima de algum assaltante ou doença de rua. Triste, não?”

– É mesmo. – o silêncio do elfo foi complementado pelo dos demais, logo que a música no disco chegou ao fim. – Pode tocar outra vez?

– Claro! – fazendo alguns gestos com as mãos, o dono da engenhoca conjurou novamente o pequeno feitiço que fazia a manivela do aparelho girar sozinha.

Aquele velho dragão derrubou a minha casa…
Aquele velho dragão, ah!, ele derrubou a minha casa…
As paredes voaram longe quando ele mexeu as asas…

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