Iron Council

51TCVVZ6XKL._SL500_Iron Council é o terceiro livro de China Miéville ambientado no cenário fantástico de Bas-Lag, fechando a trilogia (ou anti-trilogia, segundo alguns) iniciada com Perdido Street Station e seguida com The Scar, e depois continuada, depois desta, com sabe-se lá quantos livros ainda serão escritos no futuro. Em certo sentido, pode-se dizer que as três histórias englobam todos os períodos da jornada do herói mitológico como proposta por Joseph Campbell: em Perdido Street conhecemos a metrópole fantástica de New Crobuzon, seus habitantes e problemas, e, no fim, vemos a fuga de um certo personagem; The Scar fala sobre o exílio de uma outra personagem e as cicatrizes que ele deixou, terminando, por sua vez, com o seu retorno à cidade; e por fim, este Iron Council é todo sobre o retorno, a volta triunfal após o exílio auto-imposto de um outro grupo de personagens. Apesar desta união temática, no entanto, e de dividirem o mesmo cenário, são todas histórias independentes, auto-contidas, distantes no tempo e nos personagens, apenas fazendo vez por outra referências aos eventos ocorridos nos outros livros.

Iron Council possui ainda algumas diferenças marcantes em relação às outras duas obras. Tem um enredo bem mais direto, por exemplo; a história já começa com a ação principal em movimento, diferente das anteriores, onde são páginas e páginas de preparação do terreno até que as coisas comecem a acontecer. Os personagens também são menos marcantes e envolventes que os dos outros livros, ao ponto de em muitos casos serem mesmo esquecíveis – é o oposto do que acontece com certos livros do Glen Cook, por exemplo, onde uma história fraca se segura pelos personagens cativantes; aqui, é a história envolvente que o segura até o final, mesmo com personagens que não fazem grande diferença, e alguns deles você chega mesmo a esquecer que estão lá por uma dúzia de capítulos até que subitamente aparecem de novo apenas para morrer em uma cena de batalha aleatória. Fazem falta personalidades como a da Weaver de Perdido Street (apesar desta fazer uma aparição relâmpago aqui) ou do Uther Doul de The Scar, que roubam a cena sempre que estão presentes e fazem você contar as páginas entre suas aparições.

É inegável também que Iron Council é uma obra muito mais pretensiosa que as duas anteriores. É algo que se percebe na própria narrativa do livro, muito mais rebuscada, repleta de idas e vindas no tempo, mudanças de focos narrativos e personagens centrais. Há descrições que deixam de lado a perspectiva do narrador e buscam encadear um certo ritmo de leitura, como um poema; e eu ainda me peguei perdido quanto a algumas palavras do vocabulário usado, mesmo já tendo um certo costume de leitura em inglês de longa data.

Essa pretensão maior também é percebida nos temas abordados. Miéville tem formação acadêmica em ciências humanas, se assume como um pensador marxista militante (por anacrônico que seja), e tenta deixar isso claro nas histórias que conta; Iron Council é, provavelmente, o seu livro mais político, em todos os sentidos. Vê-se na base do enredo, que gira em torno de uma revolta proletária, e também em personagens e sub-tramas periféricas, que envolvem temas sociais e políticos contemporâneos, do terrorismo ao feminismo ao homossexualismo, de uma forma aberta e constante como raramente se vê na literatura fantástica. Antes de tender ao panfletarismo, no entanto, esse teor político acaba tendo resultados muito interessantes, com direito a um desfecho anti-climático brilhante, e realmente consegue nos fazer refletir e pensar sobre os assuntos abordados.

E toda essa politização também não quer dizer, é claro, que o autor se esqueça em qualquer momento de que está, antes de mais nada, escrevendo uma obra de fantasia. Iron Council tem muito de manifesto político, mas também tem muito mais de ação e aventura épicas, paisagens surreais e criaturas maravilhosas. Miéville é o principal expoente da New Weird, subgênero da literatura fantástica contemporânea que, na realidade, subverte todas as divisões de gênero; a história passa pelo faroeste, pela jornada fantástica de exploração do desconhecido, pelos assaltos mirabolantes cuidadosamente planejados, pelo terror cósmico, e vários outros temas, sempre com a naturalidade e espontaneidade de quem escreve o tempo todo sobre a mesma coisa, fugindo do lugar comum e do esperado com seus trens perpétuos, golens de som e luz solar, e outras situações e criaturas impossíveis que só uma imaginação sem preconceitos é capaz de conceber.

Enfim, talvez Iron Council pretenda um tanto mais do que consegue entregar, e por isso não seja o melhor livro para começar a sua incursão no fantástico mundo de Bas-Lag – se for este o caso, pegue lá Perdido Street Station e não se arrependa. Mas aquilo que este entrega certamente o faz muito bem; é uma ótima obra de fantasia e inquietação política, do tipo que você segue pensando a respeito por dias a fio após terminar a leitura, em tudo que ele propõe e apresenta. Não consigo achar um autor contemporâneo mais recomendado do que China Miéville para quem quiser aprender que há muito mais possibilidades na literatura fantástica do que elfos afeminados, dragões dorminhocos e batalhas ancestrais entre a Luz, as Sombras e, nos melhores casos, os Tons de Cinza.

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