O Jornalismo de Ponta Cabeça

world-turned-upside-down2Desde que eu criei o blog, tenho perdido longas horas com um novo passatempo: observar, pelo painel de controle do site, as postagens mais populares do dia pela ferramenta. Além de algumas coisinhas divertidas aqui e ali, é interessante fazer um certo panorama da inclusão digital, ainda que em um ambiente bem específico e restrito. Na última semana, no entanto, além das imbatíveis fofocas de celebridades, comentários futebolísticos e download do capítulo corrente de Naruto, quem tem dominado o pedaço mesmo é o blog oficial da Petrobrás.

O blog, para quem não sabe, foi criado com o objetivo específico de responder publicamente às acusações contra a empresa que levaram à criação de uma CPI no senado. Entre outras coisas, as postagens respondem a reportagens e notas em jornais e sites, bem como publica na íntegra as respostas dadas nas entrevistas a eles, para evitar possíveis maus-entendidos causados pela edição. Mais curiosa que a própria atitude da empresa, no entanto, foi a violenta reação que ela recebeu dos jornais e adeptos em geral da direita nacional, chegando ao ponto da criação de um blog unicamente para responder ao da estatal, bem como a constante publicação de notas e opiniões contra ela nos sites dos principais jornais do país. Em um dos momentos mais bizarros, inclusive, um editorial do jornal O Globo chegou a fazer algumas afirmações bastante curiosas, como a de que as perguntas feitas à empresa seriam de propriedade do jornalista (ah?), que o objetivo do blog seria o de vazar informações confidenciais (o que até pode ser um questionamento válido do ponto de vista comercial, mas não deixa de ser estranho chamar de confidenciais informações já produzidas em primeiro ligar com o intuito de se tornarem públicas), e que ele estaria, em última análise, bloqueando o direito da sociedade do acesso à informação (e eu posso até ser um leigo no assunto, mas criar um blog de acesso público não deveria ser justamente o oposto?).

Independente de posicionamento político e da própria questão da Petrobrás, a respeito da qual eu não me julgo suficientemente bem informado para me posicionar, acho interessante colocar o tema dentro de uma questão bem mais ampla, que é a crise recente da empresa jornalística. Não faz muito tempo, por exemplo, que o The New York Times, talvez o mais influente jornal do mundo capitalista, esteve à beira da falência, sendo salvo apenas porque um empresário mexicano aceitou financiar a dívida da empresa. E agora mesmo temos a notícia de que caiu a obrigatoriedade de diploma para exercer a profissão de jornalista no Brasil, com a realização de um curso de jornalismo passando a ser considerado apenas como qualificação, e não mais pré-requisito, o que é outro tema bastante popular da blogosfera nos últimos dias.

É lugar-comum dizer que a internet está matando o jornal impresso. Por mais que para muitos o segundo ainda seja mais gostoso de ler, e que levar o laptop para o banheiro possa dar margem a certos acidentes indesejáveis, é complicado esperar até uma nova edição sair para ter acesso a uma informação que pode ser conseguida em poucos segundos no Google. O advento dos blogs, ainda, vai um passo além – até a função deles como mediador dessa informação, se não no papel impresso através do grande portal de notícias, se tornou passível de questionamento. Qualquer um pode criar um blog e expressar o seu ponto de vista, por mais absurdo e sem embasamento que seja; a própria atitude da Petrobrás prova bem isso, e mesmo dentro de um âmbito mais restrito, em um público de nicho como o RPG, por exemplo, isso já foi percebido e é discutido há um certo tempo.

Claro, há um lado bem complicado muito evidente nessa situação toda. Se qualquer um pode criar um blog, como separar o joio do trigo, e saber quem levar a sério? Nisso talvez até se possa ser bem otimista, na verdade, e assumir que fique evidente no médio prazo, à medida que os blogs crescem e tornam claras suas qualidades e defeitos, ganhando (ou não) credibilidade. Mas, ainda assim, há um fluxo de informação grande demais, que é impossível de ser processado e absorvido por completo, podendo chegar ao ponto mesmo da desinformação pelo excesso de informação, e da passividade pelo excesso de opções. A Web 2.0 é a modernidade líquida na sua forma mais escancarada.

Há também um outro lado, no entanto: se existe informação em excesso, ela também poucas vezes pôde ser tão rica e variada, capaz de oferecer um panorama tão diversificado e instigante. O historiador britânico Cristopher Hill tem um livro muito interessante, chamado O Mundo de Ponta-Cabeça (The World Turned Upside Down, no original), em que ele faz uma análise das idéias radicais durante a Revolução Inglesa no século XVII; a sua tese, resumindo bastante, é a de que a revolução que ocorreu foi em realidade bastante conservadora, levando-se em consideração algumas das idéias que eram difundidas no período. Mais interessante que essas conclusões, no entanto, é o tipo de fonte usada na pesquisa, uma imensa quantidade de panfletos impressos que eram distribuídos à população. A imprensa, diz Hill, era relativamente barata na época, e havia uma boa quantidade de pessoas dispostas a divulgar e vender o material que era produzido; assim, sobretudo no curto período republicano, em que houve pela primeira vez uma relativa liberdade de expressão, a quantidade de indivíduos capazes de criar um panfleto e espalhar as suas idéias era bastante significativa.

O começo da imprensa jornalística em geral se deu também por caminhos semelhantes – não sou exatamente especialista no assunto, e posso estar errado, mas até onde eu sei, ao menos no Rio Grando do Sul, os primeiros jornais do século XIX eram fortemente vinculados a grupos políticos com interesse em discutir e difundir suas idéias, muito antes de se formarem os monopólios de informação mais recentes. É claro que eu não vou cair no anacronismo de dizer que vivemos hoje exatamente a mesma situação de qualquer outra época – proporcionalmente, a velocidade de difusão de um post de blog pela internet é infinitamente maior do que jamais foi; ainda que a inclusão digital esteja longe de ser total, a quantidade de pessoas que pode ter acesso a essa informação também não possui comparação com outras épocas; e todas as condições sociais, institucionais e mesmo mentais estão em constante mutação mesmo nos dias de hoje, só para ficar em algumas das divergências mais óbvias. Mas há também semelhanças relevantes, ao se pensar que grupos que normalmente têm poucas condições de se fazer ouvir com muita ressonância podem, pela internet, conseguir alguma voz significativa.

Pegando um exemplo mais concreto, eu sempre acho muito curioso, quando entro para logar pela página inicial em inglês do WordPress, a quantidade de notícias políticas norte-americanas de viés conservador que aparecem entre os posts mais populares – desde vamos separar o Texas até temos que invadir a Somália para mostrar quem é que manda, entre outras coisas. Mesmo no Multiply, vez por outra a minha caixa de mensagens é inundada por mensagens de contatos dos meus contatos alinhados à ala mais radical dessa direita estadunidense, indo de Obama é o anti-cristo a coisa pior. É claro que eu já sabia que esse tipo de pensamento existia nos Estados Unidos, mas há um certo choque em se ver de repente rodeado por esse tipo de material, uma vez que o meu contato com elas se dava muito mais através da grande imprensa norte-americana de alcance global, aquela do New York Times, da CNN e dos profissionais referidos em todo o mundo como exemplo de jornalismo qualificado (independentemente de se concordar com isso ou não), que é dominada por grupos liberais. Claro, muitos dirão que é perigoso dar voz a esse tipo de grupo, e em algum sentido certamente é; mas, no fundo, ignorá-los não fará com que deixem de existir, e negá-los alguma voz na maioria das vezes é negar o próprio debate que, nominalmente, se diz defender. E isso ficando ainda apenas nesse exemplo específico – o próprio blog da Petrobrás também serve de exemplo de como usar a internet para atingir diretamente a população, sem o filtro de um mediador da informação, e pode-se imaginar quantos outros grupos mais marginais e periféricos façam uso dessa ferramenta.

A verdade é que, com todo o respeito aos meus amigos jornalistas e aspirantes, há algum tempo já que eu perdi muito da minha fé no jornalismo profissional. Ainda o acompanho na medida em que alguma fonte de informação, por precária que seja, eu tenho que ter, por mais que freqüentemente acabe entrando em um certo estado de alienação voluntária; mas é difícil ver documentários como A Revolução Não Será Televisionada ou Muito Além do Cidadão Kane e ainda conseguir dar muita credibilidade a ele – independente de orientação política, de se gostar ou não da Rede Globo, de se apoiar ou não o Hugo Chávez, o que fica, ou ficou para mim, é a discrepância absurda entre o relato jornalístico e o que se vê acontecendo. E não vou nem falar de A Ira de Pipil Khan, é claro…

Ao menos para mim, recentemente, tem sido muito mais interessante um tipo de análise assumidamente apaixonada, que não tenta se dissimular em uma máscara de cientificismo e imparcialidade, e que justamente por isso me facilita muito o trabalho de discordar, sem por isso deixar de me provocar e questionar de forma a me fazer refletir sobre o assunto. Me pergunto, então, se toda essa crise na imprensa causada pela internet não seria tanto uma morte do jornalismo quanto uma volta às suas origens, a um tempo de amadorismo ou semi-amadorismo mais engajado e desbravador, quando não havia monopólios e oligopólios tão bem consolidados dos meios de comunicação. O que pode trazer uma série de problemas complicados, é claro, mas talvez se possa questionar também até que ponto os benefícios não seriam mais interessantes. Em certo sentido, mesmo o fim da necessidade de diploma para exercer o jornalismo formal pode ser uma medida benéfica para a classe, ao trazer para área novos paradigmas e idéias de outras formações, e forçando-a a ampliar a visão e os conceitos sobre o seu trabalho, bem como aos cursos de jornalismo a oferecem um maior diferencial de qualificação para justificar a contratação de diplomados entre outros candidatos.

Mas, enfim, a verdade é que muito disso não passa da divagação e do achômetro de um leigo, que pode mesmo não passar de um monte de bobagens sem sentido. Não estou tentando defender nenhum ponto de vista específico, seja o do raiar da sociedade utópica da informação livre ou o do apocalipse iminente do bom jornalismo, mas apenas levantar e refletir sobre alguns questionamentos. Não sou da área, então é claro que a minha visão sobre o assunto não é a de um jornalista preocupado com os problemas mais práticos da profissão; tenho muito mais a visão de um pesquisador acadêmico, e, para mim, é difícil não ver essa profusão descontrolada de correntes e idéias como uma riqueza antes do que um problema.

Também não sei se é possível fazer apontamentos sobre o que deve acontecer no futuro do jornalismo. Se é verdade mesmo que a internet e os blogs representam uma volta às suas origens amadoras, pode ser plausível imaginar que eventualmente eles acabem seguindo por caminhos semelhantes, com a formação dos mesmos tipos de oligopólios de informação, relegando as idéias mais radicais aos seus pequenos fanzines eletrônicos marginais. Por outro lado, dada a dimensão tomada pela Web 2.0, formando todo um meio espacial particular e sujeito a regras próprias de funcionamento, pode ser também uma mudança definitiva, e a liquidez da informação ser mesmo irreversível. Aí, no entanto, acho que já entramos no campo específico da futurologia.

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6 Responses to “O Jornalismo de Ponta Cabeça”


  1. 1 liberdade de expressão 20/06/2009 às 15:46

    Muito bom post.
    Já é hora de jornalistas e jornalões entenderem que eles não são mais os detentores do monopólio da informação e da comunicação (de uma via só).
    Vida longa à internet livre.

    http://liberdadedeexpressao.multiply.com


  1. 1 Pastichagem – Inominattus Trackback em 22/08/2009 às 11:14
  2. 2 Pra não dizer que não falei da Copa (e do Saramago) « Rodapé do Horizonte Trackback em 20/06/2010 às 01:30
  3. 3 Transmetropolitan – De Volta às Ruas « Rodapé do Horizonte Trackback em 05/05/2011 às 17:22
  4. 4 A Revolução Não Será Televisionada « Rodapé do Horizonte Trackback em 04/09/2011 às 17:17
  5. 5 A Tristeza da História | Rodapé do Horizonte Trackback em 17/03/2015 às 21:00

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