Vanda e Os Gigantes (2)

Vanda abriu os olhos hesitante, se recuperando do choque. Aos poucos lembrava o que havia acontecido: a batalha com a hidra no pântano sombrio, as cabeças se multiplicando cada vez que eram cortadas, a investida temerária em direção ao corpo submerso. Logo vieram as memórias do prazer da vitória, os gritos de desespero e dor do monstro entrando como notas de uma doce sinfonia nos ouvidos da moça, em seguida se juntando aos seus próprios gritos de dor e desespero ao perceber que era tragada junto ao corpo da criatura para o fundo. O ar diminuindo, os pulmões se enchendo do líquido tóxico…

Acordou assustada, e viu que não estava mais no pântano da hidra. Se encontrava em um aposento luxuoso, como um quarto de palácio, deitada em uma grande cama redonda e vestida com uma camisola de seda semitransparente, que pouco escondia seu corpo pequeno e pouco volumoso coberto de cicatrizes.

– Será que foi um sonho? Parecia tão real… – confusa, falava consigo mesmo em voz alta.

– Talvez porque tenha sido real. Você morreu. – a voz imponente vinha da entrada do quarto. Vanda se virou num susto, e viu a figura de um grande homem, o corpo negro coberto de músculos e cicatrizes, com o pescoço terminando em uma cabeça bovina envolta em chamas. – Bem-vinda a Kundali, o reino de Tauron, deus da força. O meu reino.

A garota se levantou, aturdida com a revelação. Olhou pela janela e viu o gigantesco labirinto de ruas e casas que se estendia até onde a vista alcançava; se sentia perdida apenas de olhar para elas, tentando acompanhar por mais do que alguns segundos qualquer dos caminhos que percorriam os homens com cabeça de touro e seus servos rastejantes. Tauron entrou no quarto, se dirigindo para a mesma janela por onde Vanda observava, e olhou para fora.

– Você deve saber que, quando um artoniano morre, sua alma vai para o reino de um dos deuses do Panteão. Normalmente não nos damos o trabalho de escolher quais almas irão para qual reino, mas, com algum esforço e barganha, é possível fazer com que uma delas vá para onde quisermos que vá. Mas só fazemos isso para almas de pessoas muito especiais. – virou-se para Vanda. – Almas como a sua, Vanda. Eu escolhi você para viver aqui.

– E por que eu? – Vanda se virou para o deus, e parecia falar mais por formalidade do que interesse.

– Porque você é forte, Vanda, e eu gosto de pessoas fortes. Seu corpo parece frágil e pequeno, mas esconde um espírito imbatível. Você nunca recuou ante um inimigo dezenas, centenas, ou mesmo milhares de vezes maiores do que você; sempre os enfrentou com coragem e perseverança, sem demonstrar uma gota de hesitação, apenas pelo prazer de fazê-lo. E, ao contrário do que muitos pensam, é esta a verdadeira força: não a do corpo, mas a do espírito. Eu admiro essa força em você, Vanda, e é ela que faz com que mereça a honra de viver a eternidade ao meu lado.

A garota ainda não esboçava reação. Tauron continuou.

– Não foi fácil trazê-la para cá. Outro deus gostaria de tê-la em seu reino. Diferente de mim, no entanto, ele não quer recompensá-la, mas puni-la; seu nome é Meggalokk, e ele é o deus dos monstros.

Vanda levantou a cabeça em direção ao minotauro, subitamente interessada. Ele sorriu discretamente antes de prosseguir.

– O reino dele não é um lugar agradável para pequenos humanos como você. Uma cadeia sem fim de montanhas e planaltos desérticos e acidentados, habitada por monstros cruéis e sádicos, um maior que o outro; uma terra de ninguém, onde impera unicamente a lei da força e da imposição física.

Os olhos de Vanda brilhavam a cada novo detalhe adicionado pelo minotauro: lobos grandes o bastante para se alimentarem de bois; águias grandes o bastante para se alimentarem desses lobos; tigres grandes o bastante para se alimentarem dessas águias.

– Quero ir para lá. – disse a guerreira, afinal. Tauron adquiriu subitamente um semblante sério.

– Então você recusa a honra de ser minha dama de companhia, de habitar o meu harém particular? Recusa a honra maior com que qualquer fêmea mortal poderia sonhar? – os olhos ardiam como piras funerárias; as chamas em torno da cabeça aumentavam e estalavam a cada palavra proferida como uma martelada pelo deus. Ao redor do reino, escravos de todas as raças se encolheram aterrorizados, e mesmo aqueles sacerdotes e guerreiros a quem o próprio deus proibira qualquer tipo de medo olharam para céus, trêmulos.

– Sinto muito… Mas é onde eu gostaria de estar. – Vanda permanecia serena; demonstrava apenas um pouco de surpresa pela reação que provocara.

Tauron se acalmou, e sorriu. Era, no fundo, o que esperava, se ela fosse como imaginava; se fosse realmente digna da bênção que oferecia. Aquele era apenas um último teste.

– Pois então, é para onde irá. – disse, antes de se retirar do aposento.

Vanda piscou, e, quando abriu os olhos, já não estava mais no quarto do palácio, mas em um vale alto entre montanhas. Reparou que vestia a mesma armadura que tinha enquanto viva, e carregava na cintura a mesma espada que fora de seu pai, as runas místicas brilhando com mais intensidade do que o normal. Não teve tempo de pensar muito mais: foi logo agarrada pelos ombros por um pássaro gigante, que a levantou em direção aos céus.

A guerreira se debateu e forçou-o a soltar um dos ombros; aproveitou para agarrar com aquele braço a outra pata, e forçou-a a soltar também o outro. Com dificuldade, escalou até o corpo do animal – agora era ele que se debatia, e Vanda se agarrava nas penas para não cair. Conseguiu chegar até o pescoço, e cravou a espada nele até o cabo. A ave soltou um urro esganiçado pela dor.

Vanda retirou a arma, espirrando o sangue negro para todos os lados. O animal já caía morto em direção ao chão; a guerreira não sentia mais o corpo da ave sob seus pés: estava também em queda livre, acima da criatura que acabara de abater. Via o chão se aproximando cada vez mais rápido, e, amaldiçoando a própria pressa descuidada, já imaginava se era possível morrer pela segunda vez. Não descobriu, pois a queda parou repentinamente.

Vanda olhou para baixo e viu o chão, ainda quilômetros distante; então olhou para trás e viu o par de asas flamejantes que saía de suas costas, batendo intensamente para mantê-la no ar. Observou surpresa por alguns segundos, e logo começou a voar para frente e para trás, para cima e para baixo, em círculos e elipses, sorrindo infantilmente, como uma criança que acaba de ganhar um novo brinquedo.

Deu-se por satisfeita, enfim, e desceu em uma superfície plana para observar a paisagem. Ao longe, via um enorme dragão em um vôo rasante, capturando e levantando um tiranossauro com as garras traseiras, mas que logo parava no ar, pego na teia de uma aranha ainda maior, que por sua vez mal podia aproveitar a presa antes de ser pega pela língua de um sapo mais gigantesco ainda, esmagado em seguida pela clava de um gigante humanóide ainda mais colossal. Vanda tinha um sorriso bobo de um lado ao outro do rosto, sem saber por onde começar.

Definitivamente, estava no paraíso.

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