Arquivo de julho \30\UTC 2009

Nelinha e O Computador

Nelinha tinha medo de computadores. Não, era mais do que medo: tinha horror deles. Aquelas caixas de metal cheias sons, luzes, botões… Havia algo de demoníaco ali, algo que despertava o seu mais profundo pavor. O marido dizia que era bobagem, que computadores eram máquinas, e serviam apenas para o que você quisesse usá-los, mas para Nelinha pouco importava: era mais forte que ela, um sentimento irracional muito além de qualquer autocontrole.

Sentia um pouco de vergonha, é claro. Todos os dias via o marido, os filhos e os amigos alegres em seus PCs, visitando sites, lendo e-mails, jogando jogos, mas nunca conseguia reunir coragem o bastante para se juntar a eles. Quase conseguiu uma vez, ao ver o filho mais novo gargalhando e se divertindo frente ao monitor; tentou se aproximar com cautela, mas, antes mesmo que ele a percebesse, se virou tremendo e voltou para a cozinha. Em outra situação a filha tentou seduzi-la chamando-a para ver uma revelação bombástica sobre a novela das oito, mas, ao perceber que precisaria ler a notícia no computador, Nelinha preferiu esperar para assistir quando os capítulos fossem ao ar. E em outra ainda o marido tentou obrigá-la a criar uma conta em um programa de mensagens instantâneas, para poderem se comunicar durante o dia, mas ela resistiu e se recusou até ele desistir.

A gota d’água veio quando o marido ligou para casa numa tarde de quarta-feira, preocupado por ter esquecido de pagar a conta de luz. Pediu para Nelinha pegar o boleto e pagar pela internet, pois os bancos já haviam fechado; ele explicaria exatamente como fazer. Mas ela não lhe deu ouvidos: bastou o computador ser mencionado que deixou o telefone cair no chão, e correu chorando para o quarto. A luz foi cortada antes do fim do dia, e os dois brigaram violentamente naquela noite, deixando os filhos aos prantos. Foi quando Nelinha tomou a decisão: não poderia mais continuar assim.

Logo que a luz voltou, aproveitou uma tarde em que estava sozinha para resolver, afinal, aquela situação. Reuniu toda a coragem que possuía e se sentou na frente da máquina; suspirou profundamente, e apertou o botão de ligar. Quase pulou para trás: no exato instante em que o monitor acendia, um trovão caiu na rua, e começou a chover. Nelinha balançou a cabeça, e voltou para a cadeira; não ia ser o tempo lá fora que mudaria sua resolução.

O computador ligou devagar, e entrou no sistema operacional. Nelinha brincou com o mouse por um tempo, vendo a seta se mover entre os ícones da área de trabalho, e afinal clicou em um deles. Foi quando tudo parou de repente, e uma mensagem apareceu no monitor: este programa executou uma operação ilegal e será fechado.

Nelinha ficou pálida. Teria feito alguma coisa errada? Se o marido descobrisse, estava morta! Olhou para o teclado, e apertou o botão Enter; sempre ouvia o marido dizendo para os filhos apertarem ele. A mensagem sumiu, e ela suspirou aliviada.

Empalideceu novamente: outra vez ela aparecia, a mesma mensagem. Apertou Enter de novo, e de novo, e de novo, e ela sempre voltava. Tentou outras teclas: Esc, Tab, Shift, Ctrl, Alt, F1, F2, A, T, S, 4, >, ?… Nada funcionava.

Já tremia de pânico quando um novo barulho chamou sua atenção. Olhou para baixo, assustada: a entrada para CDs que estava aberta. Teria feito o comando sem perceber?

Nelinha não teve tempo de pensar – um grupo de fios saltou de dentro da máquina e agarrou o seu pescoço, puxando-a com força para frente. Ela tentava resistir, mas eram fortes demais; agarrou os fios com as mãos e tentou puxá-los para longe, mas o mouse pulou e golpeou a sua barriga, fazendo-a soltá-los, e então lhe amarrou os braços junto ao corpo.

Os fios continuavam puxando-a para frente, batendo-a contra o monitor uma, duas, três vezes, até a tela se quebrar e um fio de sangue começar a escorrer do canto da testa de Nelinha. Apertavam com força o seu pescoço; logo já não conseguia mais respirar, e tudo escureceu vagarosamente…

O marido e os filhos a encontraram morta, enrolada nos fios do computador, quando voltaram para casa no fim do dia. Nunca descobriram o que aconteceu.

Sorte & Má Sorte

Caminhava um homem pela calçada quando cruzou o caminho de um gato preto próximo a um beco sujo. Trocaram olhares desconfiados, fitando friamente um o rosto do outro, enquanto seguiam adiante até se perderem de vista.

O homem seguiu pela calçada, e parou na esquina. Olhou para um lado, e para o outro: não havia carros se aproximando. Então foi adiante, atravessou a rua e seguiu o seu caminho pelo outro lado.

O gato preto seguiu também o seu caminho, até parar antes do cordão da calçada. Olhou para um lado, e para o outro: não havia carros se aproximando. Então foi adiante e atravessou a rua, mas, quando estava no meio dela, um caminhão passou em velocidade e o atropelou, esmagando todos os seus ossos.

The Master and Margarita

pevear2006Uma turminha da pesada aprontando altas confusões em Moscou – bem que poderia ser essa a sinopse de The Master and Margarita, obra-prima do escritor russo Mikhail Bulgakov, considerada um dos melhores romances do século XX. Claro, a “turminha” é encabeçada pelo diabo em pessoa, e a Moscou é a das primeiras décadas do regime stalinista, mas no fim isso são só detalhes.

É o tipo de livro com muitas camadas, que permite uma infinidade de leituras diferentes. A mais óbvia provavelmente é como uma sátira social e política, uma crítica ácida à burocratização da vida na antiga União Soviética, ao ponto de muitas vezes as situações supostamente mundanas narradas conseguirem parecer mais extraordinárias e absurdas do que as que deveriam ser fantásticas. Não à toa, o livro foi severamente censurado nas suas primeiras edições, e muitas das suas passagens mais críticas só sobreviveram por terem sido reproduzidas de maneira ilegal por dissidentes do regime comunista até a década de 70. A religião é outro alvo constante de sátira, tanto do ateísmo fanático dos soviéticos, que os impedem de perceber o que está acontecendo, como dos próprios dogmas do cristianismo, através de um romance dentro do romance que narra as últimas horas de Cristo do ponto de vista de Pôncio Pilatos. Com seu cinismo caótico e senso de humor negro e imprevisível, Bulgakov chega a parecer por vezes uma espécie de proto-Kurt Vonnegut soviético.

Além disso, The Master and Margarita é também uma brilhante obra de construção literária. Há citações que vão de Goethe e Dostoiévski (bastante óbvias, aliás) até Shakespeare; e o próprio mundo da literatura russa é cenário constante dos acontecimentos, sendo outro alvo preferencial das sátiras e críticas do autor. A história toda pode ser facilmente entendida como a jornada de um escritor atormentado pela sua obra – um pouco como foi a própria história de Bulgakov com o romance, aliás, trabalhando nele por mais de dez anos, chegando ao ponto de queimar os primeiros manuscritos, e morrendo antes de vê-lo publicado. Como um pseudo-escritor também atormentado por obras nunca terminadas, é difícil não se identificar.

E, é claro, há também todo o lado fantástico, um magnífico romance de fantasia repleto de criaturas maravilhosas e situações surreais. Woland, a encarnação da vez do coisa-ruim, possui um interessante séquito de seguidores, de Behemoth, o gato humanóide que se transformou no personagem-símbolo do romance, a Azazello, o leão-de-chácara estrábico com uma mira infalível. As descrições das cenas com grande presença do sobrenatural são excelentes, belíssimos exemplos de prosa surrealista; passagens como o vôo das bruxas pela noite moscovita e a redenção final do protagonista são ricas e impressionantes, daquelas que dão vontade de ler e reler e reler outra vez. As passagens que descrevem o romance entre os persoangens-título também são especialmente marcantes, com uma prosa tocante que consegue ser emotiva sem soar enfadonha ou apelativa.

Tha Master and Margarita, enfim, é uma obra-prima, justamente reconhecida e admirada. Recomendo enormemente.

Tokyo Gore Police

tokyogore01Tokyo Gore Police é outro filme que eu assisti no V FantasPOA. Como o póprio nome já leva a crer, ele está muito mais próximo de The Machine Girl do que de A Cor da Magia – ou seja, é um filme assumidamente trash, daqueles com sangue jorrando, cabeças explodindo e outras bizarrices absurdas.

Apesar disso, no entanto, ele tem também alguns méritos interessantes. É um filme tecnicamente muito bem feito: o figurino é cuidadoso, a fotografia e a trilha sonora são boas, até os atores são por vezes mais do que apenas passáveis. O roteiro tem alguns momentos tão absurdamente bizarros que poderiam fazer parte de um esquete do Hermes & Renato; mas também tem algumas idéias bem legais, como o cenário todo da história, um Japão futurista onde a polícia foi privatizada (e quem não tem uma quedinha que seja por distopias futuristas?), ou os vilões, seres bizarros conhecidos como engenheiros, que regeneram qualquer parte perdida do corpo transformando-a em algum tipo de arma. Todo o design dos monstros, aliás, é bem legal – há até uma cena em um bordel que poderia ter saído facilmente de um livro do China Miéville.

O melhor, no entanto, é o humor negro absurdamente trash e cínico que o filme tem do início ao fim. As cenas, por exemplo, são entrecortadas por comerciais fictícios de televisão, principalmente do serviço de polícia de Tóquio; alguns são verdadeiras pérolas, como o que um grupo de garotos é atacado por engenheiros durante uma pelada na rua e são salvos por policiais, que fazem até pose de nice guy no fim, ou a propaganda de estiletes coloridos desenhados especialmente para cortar os pulsos, a moda do momento entre colegiais japonesas. A história por trás dos engenheiros é outro ponto alto: um pérola kitsch que envolve desde engenharia genética até uma viagem ao inferno (literalmente).

Tokyo Gore Police, enfim, certamente não é um filme para qualquer um. Quem não consegue ver graça em membros decepados e chuvas de sangue provavelmente vai ter muita resistência em gostar dele, mesmo com todos os pontos positivos. Quem não se incomodar com isso, no entanto, vai encontrar aí cerca de um par de horas de bastante diversão, e até uma ou outra idéia provocante no caminho.

Haicai Matinal (2)

Manhã em Porto Alegre,
Eu abro a geladeira:
Vento quente no meu rosto.

Haicai Tricolor

0,,21464177-EX,00De fora da área,
No lado direito,
Ao ângulo esquerdo.

Bleh (3)

Bueno, só queria anunciar que eu fiz páginas de apresentação para a Iniciativa 3D&T Alpha e a Iniciativa M&M, das quais eu participo, contendo uma listagem dos blogs participantes, dos artigos publicados aqui, e links para onde pode ser encontrado um índice geral de cada uma, com todos os artigos publicados. Vejam lá quem joga RPG e gosta de um desses dois sistemas.

Também resolvi dividir a área de links na coluna lateral, agora há uma área só para blogs/sites de RPG, que já estavam em um número considerável em relação aos demais. Foram adicionados mais uma meia-dúzia também, um em especial: o site do Projeto Tagmar 2, que busca revitalizar e atualizar o primeiro RPG escrito no Brasil. Visitem se gostam de fantasia medieval, há bastante material interessante por lá, inclusive todos os livros do projeto em formato PDF para download gratuito.


Sob um céu de blues...

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@bschlatter

  • @CamilaGamino Macross <3 1 day ago
  • Às vezes me pergunto o que eu fiz dos últimos quinze anos da minha vida. 2 days ago
  • Por que eu tenho essa síndrome de encosto,de achar que eu sou sempre o encosto em qualquer lugar? 2 days ago
  • @jimanotsu Ellison é sensacional mas li esse começo da citação como se fosse o Dave Grohl cantando :P 2 days ago
  • RT @mikemearls: New official rule - when a barbarian rages, Iron Maiden enters the battlefield via a gate spell and tears into a song of ba… 2 days ago

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