O Fantasista

fantasistaCurioso que, para o auto-intitulado “país do futebol”, não se veja assim com tanta freqüência a presença do esporte bretão na nossa literatura. Há, é claro, belíssimas exceções, em especial a nossa vasta tradição na crônica esportiva, de Nelson Rodrigues a Luís Fernando Veríssimo e, hum, Eduardo Bueno; além de que essa situação tem melhorado bastante nos últimos anos, com o lançamento de alguns romances e coletâneas de contos a tratar do assunto, além mesmo de alguns trabalhos acadêmicos interessantes. De maneira geral, no entanto, me parece que, no campo específico da ficção, os nossos hermanos ainda costumam se sair melhor, a se tomar o exemplo deste O Fantasista, do chileno Hernán Rivera Letelier.

O livro nos apresenta a Coya Sur, um pequeno acampamento de trabalhadores das minas de salitre no deserto do Atacama, em algum momento provavelmente dos anos 70, após o começo da ditadura militar chilena. Um cenário desolador e opressor, digno de um filme do Sérgio Leone, onde transcorre uma história bíblica: o fim do mundo, ao menos na visão dos seus moradores, uma vez que a companhia que mantém o acampamento anunciou o seu fechamento definitivo. Em meio ao apocalipse iminente, no entanto, a única coisa em que todos conseguem pensar é que não podem deixar aquele local sem antes vencer em uma última partida de futebol contra os rivais de Maria Elena, o povoado vizinho.

As probabilidades, em princípio, não são muito favoráveis. Sendo a sede da companhia, e tendo melhores condições financeiras de manter um bom time, os últimos possuem uma vantagem considerável com relação aos pobres jogadores amadores da pequena Coya Sur. Mas então surge o Fantasista – um artista itinerante, malabarista da bola, que casualmente passa pela cidade em sua semana derradeira. Para seus moradores, o misterioso andarilho errante logo se converte em algo mais: é um enviado divino, um Messias de pernas tortas, acompanhado da sua própria Maria Madalena, prenúncio e esperança da vitória definitiva contra seus odiosos rivais na última partida antes do fim de tudo.

O grande mérito de O Fantasista fica evidente já por essa sinopse: o de não contar uma história sobre o futebol-produto, o futebol de consumo, com seus clubes milionários e jogadores distantes. Ele conta, ao contrário, uma história sobre o futebol das pessoas comuns, para as quais ele é algo mais do que apenas um jogo ou profissão – é o futebol-símbolo, o futebol-mito, de heróis e epopéias, aquele mesmo que as melhores crônicas de Nelson Rodrigues anunciavam. Talvez pudesse ser melhor se preferisse sugerir ao invés de escancarar a sua dimensão bíblica, mas não deixa de ser uma obra cativante e envolvente à sua maneira, com uma narrativa cuidadosa dentro da tradição mais realista latino-americana, para qualquer um que seja capaz de ver o esporte da mesma forma que ela propõe.

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