O Escritor

Sozinho, na madrugada, escrevo uma história sobre um escritor, acompanhando a sua rotina, o seu dia-a-dia, as suas obras. Nessa história, o escritor também escreve uma história, sobre outro escritor, acompanhando a sua rotina, o seu dia-a-dia e as suas obras. E o escritor do escritor sobre a qual escrevo também escreve uma história, sobre ainda outro escritor com a sua própria rotina, dia-a-dia e obras. Formamos, assim, uma grande corrente de escritores, cada um escrevendo sobre outro escritor que escreve sobre um escritor.

Paro por um instante e sirvo uma xícara de café. Ao voltar a escrever, o meu personagem repete, como um reflexo, aquilo que fiz, servindo uma xícara de café e em seguida fazendo o seu personagem repetir a mesma seqüência de ações. Logo todos os escritores-personagens serviram suas xícaras de café, sendo então imitados por seus próprios escritores-personagens.

Vivemos assim a mesma vida, em tempos diferentes. Tudo o que faço o meu personagem repete, e os demais o repetem em seguida. Se vou ao banheiro, eles também vão; se como alguma coisa, eles também comem. E, se penso alguma coisa, todos eles logo a pensam também.

Quando me pergunto, então, se sou eu realmente o primeiro elo da corrente, os outros escritores-personagens logo se fazem a mesma questão. Se até ali todos julgavam-se os primeiros, e apenas depois a seqüência se estendia ao infinito, por que comigo seria diferente? Talvez haja também um escritor escrevendo sobre mim, e minhas ações sejam apenas reflexos daquilo que ele faz. E ele próprio, possivelmente, apenas repita aquilo que acontece com um outro escritor, que por sua vez é personagem de um outro ainda mais anterior nesta corrente que, agora vejo, se estende ao infinito também para trás.

Ou será que não? Terá essa corrente um início, um escritor que não seja um personagem, e viva de fato tudo o que acontece com os demais? Nesse caso ela também deve ter um fim – um escritor que não escreva sobre outro escritor, tendo como personagem alguma outra criatura. Talvez seja um ator, que interprete um ator que interpreta um ator, fazendo do fim da corrente de escritores apenas o começo da corrente de atores; ou então um pintor, que pinte o retrato de um pintor que pinta o retrato de um pintor.

Ou, talvez, ela dê a volta em si mesma, fechando um círculo de escritores que escrevem em última instância aquilo que acontece com eles próprios. Se é assim, continuando a escrever e entrando mais profundamente na história do escritor dentro da história do escritor dentro da história do escritor sobre a qual escrevo, talvez eu venha a encontrar aquele que escreve a minha própria história, e em seguida encontrar a mim mesmo, escrevendo aquilo que me acontecerá.

E sigo a escrever, então, madrugada adentro,  mas não mais para terminar a história que tinha para contar. Escrevo, na vã esperança de encontrar este Deus particular que toma as minhas decisões e, enquanto escreve, controla a minha vida.

Anúncios

0 Responses to “O Escritor”



  1. Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




Sob um céu de blues...

Categorias

Arquivos

@bschlatter

Estatísticas

  • 197,719 visitas

%d blogueiros gostam disto: