Déjà-Vu

167908_949Em muitos sentidos, acho que dá pra dizer que a Coréia do Sul é algo como um novo Japão. Pois é, sejamos sinceros: o Japão hoje em dia é totalmente pop (até porque o pop não poupa ninguém). Já não é tão alienígena falar de samurais, ninjas, Dragon Ball Z e coisas assim (talvez só um tanto enfadonho), e na verdade já se está até um pouco saturado disso tudo; a Coréia do Sul, por outro lado, ainda tem algum vestígio daquele exotismo e magia que a invasão de cultura nipônica dos últimos anos eliminou, e, assim, ainda tem aquele gostinho de cult que nos dá a ilusão de sermos superiores apenas por gostar de algo que ninguém mais conhece.

Mais do que apenas esse gostinho de culto, no entanto, o fato é que a Coréia realmente tem feito coisas legais ultimamente. O cinema coreano, por exemplo, tem nos dado ótimos filmes – Old Boy é talvez o mais conhecido, mas tem também Arahan e um punhado de outros. E há uma boa tradição de quadrinhos no país, os chamados manhwa, com forte influência dos mangás japoneses mas ainda com um certo sabor particular.

Déjà-Vu é um destes que chegou a ser lançado no Brasil; ele foi escrito por Youn In-Wan, roteirista coreano bastante elogiado até pelas popstars do estúdio CLAMP, e desenhado por vários artistas. O volume único é dividido em seis histórias, sendo que as quatro primeiras, cada uma nomeada e ambientada em uma estação do ano, são capítulos de uma única história maior, enquanto as duas últimas são histórias independentes.

A história principal narra uma grande epopéia romântica através de várias encarnações – começa na Coréia no ano 673 e termina, literalmente, milhões de anos depois do fim da humanidade, com um mesmo casal se encontrando em diferentes épocas e situações sem nunca realizar plenamente o seu amor. É uma história interessante; o tom dos capítulos é bem dramático, já que a maioria deles acaba em algum tipo tragédia, e me lembrou um pouco O Clã das Adagas Voadoras. Mas uma coisa que eu aprendi quando tentei fazer algo assim antes é que nesse tipo de narrativa fragmentada, com pequenos pedaços dispersos de acontecimentos, pode ser difícil de trabalhar muito bem o desenvolvimento dos personagens, algo que é fundamental em uma história dramática; e isso ainda é mais verdade em uma história em quadrinhos, em que a leitura, pelo uso conjunto de imagens e texto, se dá de maneira quase telegráfica, principalmente no estilo oriental de narrativa, que usa enquadramentos mais dinâmicos. Assim, os primeiros capítulos parecem um tanto curtos, e até superficiais; mas a história se acerta muito bem no capítulo final, com o conflito entre os personagens levando quadro a quadro ao desfecho apocalíptico muito bem concebido e executado.

As duas outras histórias que fecham o volume são também bastante boas. Utility é uma fábula niilista sobre a relação de um grupo de crianças com a morte; tem um tom sombrio perfeitamente bem representado na arte mais fotográfica. E O Mar conta a história de um casal de recém-conhecidos fazendo tudo para chegar até o mar; o tom, apoiado pela arte mais próxima de um mangá típico, lembra um pouco uma comédia romântica – uma das boas -, com personagens bem construídos e de fácil identificação. O resultado final é muito bom; poderia muito bem ser uma história dos brasileiros da 10 Pãezinhos.

No fim, Déjà-Vu é uma excelente obra de quadrinhos. Ainda não tive muito contato com os manhwa coreanos, mas, se este serve de exemplo, parecem ser bem promissores. Apenas tomem cuidado para não deixá-lo passar, influenciados pela capa pouco chamativa – é, sim, um volume muito interessante, que merece uma leitura.

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