Todas as Cosmicômicas

1946714_4Ah, bem… Como descrever um livro de Italo Calvino? A prosa do italiano é do tipo que foge de classificações simples, unindo um estilo gostoso e fluido de ler com um virtuosismo técnico e experimentalismo temático únicos. Suas histórias brincam com a própria forma da narrativa – como, digamos, tirando contos de cartas de tarot -, e falam com uma naturalidade do absurdo e do fantástico – narrando histórias como a de um visconde que se parte ao meio, ou de um cavaleiro que não existe – que só encontra paralelo em certos mestres da fantasia contemporânea – e não, não falo de Tolkien e seus tietes, mas de Jorge Luís Borges, Gabriel García Marquez, e, talvez, Umberto Eco.

Todas as Cosmicômicas é só mais um exemplo perfeito entre tantos, talvez mesmo o principal deles. O livro reúne as obras As Cosmicômicas e T=0, bem como outros contos diversos com temas e brincadeiras narrativas semelhantes, que contam as histórias de Qfwfq, o cronista do universo, testemunha ocular do Big Bang e de toda a história que se seguiu a ele. A maioria dos contos parte de um enunciado científico – a formação das estrelas, o início da vida terrestre, as tempestades magnéticas solares – e a partir dele cria um enredo fantástico, repleto de drama e humor, pérolas de literatura fantástica, absurda e fabulesca, sempre com aquela prosa encantadora e virtuosa que é a marca do autor. Logo descobrimos, assim, como Qfwfq e seus companheiros de nomes inpronunciáveis sofreram com a falta de espaço anterior ao Big Bang, jogaram bocha com os primeiros átomos do universo, viveram como os últimos dinossauros a caminhar sobre a Terra, e passaram por diversas outras aventuras cósmicas e cômicas.

Além destes, que são certamente os grandes astros da obra, também fazem parte da coletêna alguns outros exercícios narrativos de Calvino, como os “contos dedutivos”, onde o narrador se limita a examinar todas as possibilidades de desenvolvimento e desfecho da situação em que se encontra, ou mesmo uma versão alternativa do clássico de Dumas O Conde de Monte Cristo. Outros que merecem destaque são os três contos reunidos com o nome de Priscila, contando a história das suas células, da mitose à meiose à morte, quase como um pequeno e encantador romance.

Enfim, Todas as Cosmicômicas, como qualquer obra de Calvino, é certamente uma recomendação; aliás, uma indicação, quase uma demanda de leitura. É Douglas Adams muito antes de Douglas Adams; Kurt Vonnegut antes de Kurt Vonnegut; e até, vá lá, nas devidas proporções, eu mesmo antes de, bem, eu mesmo.

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4 Responses to “Todas as Cosmicômicas”


  1. 1 Givoleinesom 23/07/2009 às 02:10

    Toda vez que passo aqui fico mais e mais admirado com o que você escreve. Além de “fluir” muito bem, você produz muito. E em proporções industriais. Seus tópicos despertam um sei lá o que. Fazem-me querer ler tudo que você indica. Mas nos meus próprios meios, é impossível. Esse e o de Miéville me tomaram especial atenção. Adoro esse tipo de literatura fantasiosa, especialmente as que não saem do mundo e com ele brincam (como García Marques). Tentarei ler calvino. Pena eu ser pobre, e ODIAR ler E-Books!
    Mas fica aí meu elogio.
    Realmente, parabéns!

  2. 2 Bruno 23/07/2009 às 15:31

    Opa, valeu, heheh =) Calvino é um autor bem conhecido e consagrado, então não é difícil de achar em sebos, por exemplo. E a Cia. das Letras também tem lançado livros dele naquela coleção de bolso, alguns tão com uns preços bem razoáveis.


  1. 1 O Cavaleiro Inexistente « Rodapé do Horizonte Trackback em 10/08/2009 às 23:47
  2. 2 Se um viajante numa noite de inverno (Resenha de Bruno “Burp” Schlatter) | Meu weblog Trackback em 21/09/2014 às 20:20

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