The Master and Margarita

pevear2006Uma turminha da pesada aprontando altas confusões em Moscou – bem que poderia ser essa a sinopse de The Master and Margarita, obra-prima do escritor russo Mikhail Bulgakov, considerada um dos melhores romances do século XX. Claro, a “turminha” é encabeçada pelo diabo em pessoa, e a Moscou é a das primeiras décadas do regime stalinista, mas no fim isso são só detalhes.

É o tipo de livro com muitas camadas, que permite uma infinidade de leituras diferentes. A mais óbvia provavelmente é como uma sátira social e política, uma crítica ácida à burocratização da vida na antiga União Soviética, ao ponto de muitas vezes as situações supostamente mundanas narradas conseguirem parecer mais extraordinárias e absurdas do que as que deveriam ser fantásticas. Não à toa, o livro foi severamente censurado nas suas primeiras edições, e muitas das suas passagens mais críticas só sobreviveram por terem sido reproduzidas de maneira ilegal por dissidentes do regime comunista até a década de 70. A religião é outro alvo constante de sátira, tanto do ateísmo fanático dos soviéticos, que os impedem de perceber o que está acontecendo, como dos próprios dogmas do cristianismo, através de um romance dentro do romance que narra as últimas horas de Cristo do ponto de vista de Pôncio Pilatos. Com seu cinismo caótico e senso de humor negro e imprevisível, Bulgakov chega a parecer por vezes uma espécie de proto-Kurt Vonnegut soviético.

Além disso, The Master and Margarita é também uma brilhante obra de construção literária. Há citações que vão de Goethe e Dostoiévski (bastante óbvias, aliás) até Shakespeare; e o próprio mundo da literatura russa é cenário constante dos acontecimentos, sendo outro alvo preferencial das sátiras e críticas do autor. A história toda pode ser facilmente entendida como a jornada de um escritor atormentado pela sua obra – um pouco como foi a própria história de Bulgakov com o romance, aliás, trabalhando nele por mais de dez anos, chegando ao ponto de queimar os primeiros manuscritos, e morrendo antes de vê-lo publicado. Como um pseudo-escritor também atormentado por obras nunca terminadas, é difícil não se identificar.

E, é claro, há também todo o lado fantástico, um magnífico romance de fantasia repleto de criaturas maravilhosas e situações surreais. Woland, a encarnação da vez do coisa-ruim, possui um interessante séquito de seguidores, de Behemoth, o gato humanóide que se transformou no personagem-símbolo do romance, a Azazello, o leão-de-chácara estrábico com uma mira infalível. As descrições das cenas com grande presença do sobrenatural são excelentes, belíssimos exemplos de prosa surrealista; passagens como o vôo das bruxas pela noite moscovita e a redenção final do protagonista são ricas e impressionantes, daquelas que dão vontade de ler e reler e reler outra vez. As passagens que descrevem o romance entre os persoangens-título também são especialmente marcantes, com uma prosa tocante que consegue ser emotiva sem soar enfadonha ou apelativa.

Tha Master and Margarita, enfim, é uma obra-prima, justamente reconhecida e admirada. Recomendo enormemente.

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1 Response to “The Master and Margarita”


  1. 1 Ricardo Jevoux 30/07/2009 às 18:41

    Depois de comparado com Vonnegut, não tenho nem que pensar, já estou procurando onde eu compro esse livro. Acabei de ler recentemente o Comédia Pastelão – ou solteiro nunca mais – e adorei.
    Valeu a dica!


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