Nelinha e O Computador

Nelinha tinha medo de computadores. Não, era mais do que medo: tinha horror deles. Aquelas caixas de metal cheias sons, luzes, botões… Havia algo de demoníaco ali, algo que despertava o seu mais profundo pavor. O marido dizia que era bobagem, que computadores eram máquinas, e serviam apenas para o que você quisesse usá-los, mas para Nelinha pouco importava: era mais forte que ela, um sentimento irracional muito além de qualquer autocontrole.

Sentia um pouco de vergonha, é claro. Todos os dias via o marido, os filhos e os amigos alegres em seus PCs, visitando sites, lendo e-mails, jogando jogos, mas nunca conseguia reunir coragem o bastante para se juntar a eles. Quase conseguiu uma vez, ao ver o filho mais novo gargalhando e se divertindo frente ao monitor; tentou se aproximar com cautela, mas, antes mesmo que ele a percebesse, se virou tremendo e voltou para a cozinha. Em outra situação a filha tentou seduzi-la chamando-a para ver uma revelação bombástica sobre a novela das oito, mas, ao perceber que precisaria ler a notícia no computador, Nelinha preferiu esperar para assistir quando os capítulos fossem ao ar. E em outra ainda o marido tentou obrigá-la a criar uma conta em um programa de mensagens instantâneas, para poderem se comunicar durante o dia, mas ela resistiu e se recusou até ele desistir.

A gota d’água veio quando o marido ligou para casa numa tarde de quarta-feira, preocupado por ter esquecido de pagar a conta de luz. Pediu para Nelinha pegar o boleto e pagar pela internet, pois os bancos já haviam fechado; ele explicaria exatamente como fazer. Mas ela não lhe deu ouvidos: bastou o computador ser mencionado que deixou o telefone cair no chão, e correu chorando para o quarto. A luz foi cortada antes do fim do dia, e os dois brigaram violentamente naquela noite, deixando os filhos aos prantos. Foi quando Nelinha tomou a decisão: não poderia mais continuar assim.

Logo que a luz voltou, aproveitou uma tarde em que estava sozinha para resolver, afinal, aquela situação. Reuniu toda a coragem que possuía e se sentou na frente da máquina; suspirou profundamente, e apertou o botão de ligar. Quase pulou para trás: no exato instante em que o monitor acendia, um trovão caiu na rua, e começou a chover. Nelinha balançou a cabeça, e voltou para a cadeira; não ia ser o tempo lá fora que mudaria sua resolução.

O computador ligou devagar, e entrou no sistema operacional. Nelinha brincou com o mouse por um tempo, vendo a seta se mover entre os ícones da área de trabalho, e afinal clicou em um deles. Foi quando tudo parou de repente, e uma mensagem apareceu no monitor: este programa executou uma operação ilegal e será fechado.

Nelinha ficou pálida. Teria feito alguma coisa errada? Se o marido descobrisse, estava morta! Olhou para o teclado, e apertou o botão Enter; sempre ouvia o marido dizendo para os filhos apertarem ele. A mensagem sumiu, e ela suspirou aliviada.

Empalideceu novamente: outra vez ela aparecia, a mesma mensagem. Apertou Enter de novo, e de novo, e de novo, e ela sempre voltava. Tentou outras teclas: Esc, Tab, Shift, Ctrl, Alt, F1, F2, A, T, S, 4, >, ?… Nada funcionava.

Já tremia de pânico quando um novo barulho chamou sua atenção. Olhou para baixo, assustada: a entrada para CDs que estava aberta. Teria feito o comando sem perceber?

Nelinha não teve tempo de pensar – um grupo de fios saltou de dentro da máquina e agarrou o seu pescoço, puxando-a com força para frente. Ela tentava resistir, mas eram fortes demais; agarrou os fios com as mãos e tentou puxá-los para longe, mas o mouse pulou e golpeou a sua barriga, fazendo-a soltá-los, e então lhe amarrou os braços junto ao corpo.

Os fios continuavam puxando-a para frente, batendo-a contra o monitor uma, duas, três vezes, até a tela se quebrar e um fio de sangue começar a escorrer do canto da testa de Nelinha. Apertavam com força o seu pescoço; logo já não conseguia mais respirar, e tudo escureceu vagarosamente…

O marido e os filhos a encontraram morta, enrolada nos fios do computador, quando voltaram para casa no fim do dia. Nunca descobriram o que aconteceu.

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